Participo da abertura junto
com o escritor, tradutor e professor na FFLCH especialista em estudos
árabes e africanos, representações, estudos migratórios e de refúgio, Paulo Farah.
Assistaí! | Centenários Carolina de Jesus e Abdias Nascimento
Nesta quarta, dia 22, acontece mais
uma rodada do ciclo de
palestras e manifestações culturais para a comemoração do centenário da
escritora Carolina Maria de Jesus. O evento acontece na Biblioteca
Municipal Mario de Andrade, na rua da Consolação, 94, perto da estação
Anhangabaú do Metrô, a partir das 19h, com entrada franca. Confira a
programação completa: www.edicoestoro.net
O tema da vez é "Carolina de Jesus, letra que arranha, espeta e
fertiliza. Os escritores Mário Silva, Jarid Arraes e Marciano Ventura
participam do ciclo de debates com leitura de texto.
Carolina foi precursora da literatura marginal e revolucionou o
mercado literário nos anos 60 com a obra "Quarto de Despejo", traduzida
para 14 idiomas, sobre o cotidiano de uma favela no bairro do Canindé,
na Zona Norte de São Paulo. Além de outros livros, poesias e letras de
músicas. Confira a entrevista com Ruivo Lopes e Allan da Rosa, curadores
da mostra.
- Como surgiu a ideia de celebrar o centenário da escritora Carolina de Jesus? Ruivo Lopes:
Surgiu pela constatação da necessidade de ressaltar a grandeza e a
complexidade de sua obra literária, e tambem a de Abdias Nascimento,
cujo centenário celebraremos em novembro, mas também fazendo uso de
outras linguagens e abordagens como filmes, intervenções cênicas,
leituras, recitais, debates e oficinas. Estes nossos autores da veia
ancestrais e enormes referencias são ainda no geral muito mais
comentados do que lidos e, mesmo assim, menos comentados e conhecidos do
que merecem e merecemos.
Oficina de abertura: “Cartas para Carolina: chão, teto e página",
com Allan da Rosa, na Ocupação São João
- A realidade da luta por moradia digna em São Paulo mudou muito da década de 60 para cá? Ruivo Lopes:
Permanecem cenários de exclusão semelhantes, porém mudados com a lógica
diferente operada pelo capital dos anos oitenta pra cá. Carolina começa
seus diários ainda nos anos cinquenta e seus registros são o
contraponto ao chamado desenvolvimento então na moda. O país deixou de
ser rural e passou a ser urbano. a população brasileira mais que
triplicou e mesmo assim o país ainda carece a vera de reformas agrária e
urbana. as migrações para a cidade mudaram, diminuíram, e o que antes
era tolerado, por exemplo, por sua necessária mão de obra a ser
explorada, hoje, depois da automação, terceirização e outros fatores,
passa a ser quase totalmente indesejável. as periferias da cidade
explodiram e já tem cada vez menos condições de oferecer moradia digna.
Temos centenas de prédios abandonados, vazios, devedores de impostos na
área central, que tem grande oferta de equipamentos e possibilidades de
econômicas, culturais e sociais.
- Quais são as reivindicações do movimentos de luta por moradia? Ruivo Lopes:A
luta também é por melhorias nos campos do transporte e da saúde
pública, principalmente nas periferias, o acesso a bens educacionais,
qualificando moradia como algo que é muito mais do que residencia. neste
sentido, carolina já era protagonista na luta contra a favelização da
população negra e pobre ao revelar nos seus diários as agruras de viver
numa favela. não é a toa que as mulheres, mães, negras, migrantes e
pobres, são a maioria nos movimentos de luta por moradia. todas elas
carolinas!
Roda de sambas de Carolina de Jesus e sambas paulistas. Com Camilla Trindade & Samba Wetu Ukweli Wetu
- Na literatura da Carolina, há muitos relatos
de conflitos entre vizinhos. Atualmente, os movimentos sociais
conseguiram avançar na organização e comprometimento da população sem
moradia? Allan da Rosa: As contradições de
ser humano e de viver em comunidade e sociedade sempre aconteceram e
continuarão acontecendo. a literatura inclusive já se ocupou bastante
desse tema. os movimentos sociais lidam diretamente com essa demonização
das lutas sociais (como de alguns aspectos da cultura popular e negra,
como por exemplo o candomblé), com a cultura do medo e da velocidade
(que surge como valor), com o individualismo, etc. mas as necessidades
pessoais e coletivas e a gravidade da situação que assola e aflige a
maioria absoluta, para além do acesso efêmero e por vezes ilusório aos
cintilantes bens de consumo e do fato de alguns conseguirem pagar por
(ainda ruins) serviços privados de saúde, educação e transporte,
influenciam sim nesta questão. Mas não nos enganemos, conflitos entre
vizinhos são as maiores reclamações nos condomínios mais chiques, cada
vez mais isolados, blindados, cercados, ilhados e exclusivos. Por outro
lado, na literatura de Carolina de Jesus, tambem por isso fascinante e
comovente, os conflitos surgem crus, tanto quanto os atos de
solidariedade. a solidão, o desepero e as tretas que encontram em sua
caneta, os devaneios, a simplicidade do bem viver, a ironia, a sátira
desbragada e os sonhos suaves. e essas esferas de ser humano prevalecem.
será que um dia terão fim?
- Qual é o legado que os livros da Carolina deixa para os leitores de hoje? Allan da Rosa:
O lugar, o olhar, a fala e a escrita da carolina são atuais e
cortantes. Carolina não só aborda temas, ela os vivencias intensamente e
ainda assim escreve dolorosamente, mas sem perder a poesia. Se
estivesse viva, Carolina não pouparia ninguém graúdo e poderoso, iriam
todos parar no seu diário com as piores referências porque ainda latejam
a luta por moradia e creches, contra o racismo institucional, a
violência da discriminação religiosa, a repressão policial aos pobres e o
genocídio sistemático da população negra. neste sentido, Carolina é
puro revide!
Encontro "Na alvenaria sambando a Bitita: Carolina além de 'Quarto de Despejo'",
da esquerda para a direita: Fernanda Miranda, Flavia Rios e Lucélia Sérgio
A programação do centenário é bastante
diversificada. Tem muitas atrações e diferentes formas de expressão. A
ideia é manter a comemoração permanente para os próximos anos? Allan da Rosa:
A ideia é que se levante e alumeie a memória dessas nossas grandes
referencias. que sejam considerados pelo conjunto de suas obras, para
além de idealizações e estereótipos. e que principalmente não sejam
lembrados apenas em seus centenários. não precisamos esperar mais cem
anos para reverenciar Carolina e Abdias. Nos últimos anos, por exemplo,
as obras de ambos foram campo de sensibilidade e reflexão em muitos de
nossos trabalhos em educação popular, em textos de ficção, ensaios e
dramaturgias, e em programas de rádio. também há a vontade de que outros
percursos possam acontecer na biblioteca Mario de Andrade, lugar de
singular importância não só na mais principalmente da cidade, e também
com nossa proposta de extensão e envolvimento da biblioteca com outros
terreiros imprescindíveis, em seu entorno. recordo que há outras
escritoras, ancestrais e contemporâneas, que merecem ser contempladas no
desfrute e questionamento de suas obras e caminhadas, indo além do
esquecimento ou de meras análises de contexto. o desejo é que possamos
realizar mais rodas de diálogos, trazer outros ciclos de formação à casa
e à cidade e a gente torce pra não esperar um ano pra que isso seja
feito.