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sexta-feira, 20 de março de 2015

Encontro debate o genocídio da população negra e periférica no Guarujá (SP)



Se ligaí! | Neste sábado, 21, Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, será realizado o encontro CONTRA O GENOCÍDIO DA POPULAÇÃO NEGRA & PERIFÉRICA !!! (clique!), às 15h, no Centro Esportivo Padre Donizete, na Rua Paulo Fabris, S/Nº, Bairro Santa Rosa/Guarujá, Baixada Santista (SP). Na programação: bate papo com: Dennis Tupiassú, Debora Silva Maria & Ruivo Lopes; Lançamento do livro de poemas “Viver Entre Os Porcos Sem Comer Da Lavagem”, de Tubarão Santos; ritmo & poesia com Buddy X Paulo Simas, DDR & Tee Congregados; Exibição dos vídeo-clipes de Amarelo & Ritmo Febrozo; Grafitti, Break & mais. Organização de Santa Rosa Breakers & Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri. Compartilhe e participe!

domingo, 11 de maio de 2014

Carta para uma mãe



Mãe, a história que eu vou contar nenhuma mãe quer pro seu filho. Eu nunca fiquei tanto tempo longe de casa sem dar notícias e sei que a senhora tá desesperada, me procurando em todos os cantos.
Na noite em que eu desapareci, eu desci a rua pegada ao campinho. Quando eu ia chegando na esquina, uma viatura da polícia virou primeiro, deu de frente comigo e acendeu as luzes na hora. Foi tudo muito rápido. Eu me perdi nos pensamentos. A  viatura mal tinha parado e os policiais desceram com as armas na mão apontadas pra mim. Me chamaram de vagabundo e mandaram eu encostar a cara na parede.
Foi automático, eu mal tinha virado e senti meu corpo queimar uma, duas, três vezes. Tentei juntar forças pra gritar, mas não consegui. Cai no chão com os olhos abertos com medo de dormir e perder para sempre o Dia das Mães.
Eu ainda tava vivo quando eles me arrastaram pro fundo da viatura. Meu corpo tava anestesiado, perdi a noção do tempo e meus pensamentos ficaram bagunçados. Não conseguia entender o que os policiais diziam nem o caminho que faziam. Também não entendi porque seguiram sem a sirene. 
Quando fui tirado do fundo da viatura, senti as costas molhada, um cheiro de mato e a última coisa que me lembro é o estalo abafado... pá!
Eles foram embora. Eu fiquei aqui.
Mãe, a senhora sempre lutou por mim, na fila pra conseguir vaga na escola, na fila pra ser atendido no posto de saúde, pra me proteger do frio e da chuva nunca teve tempo ruim. A senhora sempre que me procurou me achou e me guiou pro caminho de volta pra casa. O luto vai passar e vai ser na luta que a senhora vai me encontrar.
A senhora não tá sozinha, tem muita mãe que precisa do teu apoio. Juntas, sejam mães umas dos filhos das outras, dos que partiram como eu e dos que ficaram. Tem muito filho nesse mundão que precisa de mães-coragem como a senhora. Quem tá morrendo se parece sempre com a gente, daqui eu já tô vendo. Infelizmente, eles continuam chegando ao montes por aqui.

Eu sempre viverei na tua luta!

Teu filho, com carinho.

Ruivo Lopes

Trecho de “Carta a mãe”, publicada na íntegra no livro Mães de Maio - Mães do Cárcere: Periferia Grita (2012).

domingo, 6 de abril de 2014

1964 + 50: A mentira de ontem, a mentira de hoje!



 
Cordão da Mentira nas ruas do Centro de SP 
(Foto Joseh Silva/Carta Capital)


Por Mário Bentes e Leandro Fonseca
Especial para a Revista Babel e Jornal GGN


Foi diante da sede do antigo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), local símbolo da repressão do Estado durante o regime Civil-Militar contra os movimentos sociais, que quase dois mil ativistas se reuniram, na noite deste 1o. de abril.

O ato, chamado “Grande Desfil&scracho do Cordão da Mentira”, começou a tomar forma por volta das 18h, no Largo General Osório, no centro antigo de São Paulo. Com samba e batucada, o grupo protestou não apenas contra as iniciativas de “comemoração” aos 50 anos do Golpe que afundou o país em 21 anos de ditadura, mas contra o legado que ainda perdura – principalmente contra o subúrbio, os negros e os pobres.

“A Ditadura acabou, mas esqueceram de avisar a polícia”, bradou Débora Maria da Silva, representante do Movimento Mães de Maio, grupo criado como resposta a uma série de chacinas ocorridas em São Paulo em maio de 2006, e que tenta por fim à tática policial da “resistência seguida de morte”.

O discurso emocionado marcou a abertura do ato, ainda durante a concentração. Entre músicas e palavras de ordem, os participantes traziam informações referentes aos números de mortos nas periferias e as táticas mantidas pelas forças repressivas do Estado, nos tempos democráticos.

Em entrevista à reportagem após o discurso, Débora Maria da Silva disse ainda que o Cordão “lava a alma” e “desmascara a mentira”. “As Mães de Maio vêm aqui como símbolo da falsa democracia”. Além da desmilitarização das polícias, Débora afirma que é necessário haver uma reforma do Poder Judiciário.

“O [Poder] Judiciário é um dos que perpetuam a impunidade. Ele não age com um revólver que sai bala, mas sim com uma canetada”, afirma. Além disso, ela diz que as principais vítimas da polícia militarizada são pobres, negros e moradores das periferias, pois o Brasil é “produtor de Mães de Maio”. “Estamos fazendo o escracho e dizendo ‘nós estamos vivos, nossos mortos têm voz e estamos aqui para lutar por eles’”, diz.

Débora Maria da Silva, representante do Movimento Mães de Maio (foto: Mário Bentes).
Débora Maria da Silva, representante do Movimento Mães de Maio 
(foto: Mário Bentes)

“Ancestralidade”

“Podemos ir além e dizer que estão aqui também toda uma geração de ancestralidade. O genocídio nesse país não começou nem em 64, nem em 2006, ele é histórico, ele é da fundação dessas terras, desde os povos negros, os povos indígenas que sofreram. A história desse país deve ser contada pela luta dos povos e sua resistência, não pelas suas derrotas. Adolescentes cumprindo medida socioeducativa em unidades da Fundação Casa, em São Paulo, são constantemente agredidos, castigados e torturados”, afirmou Ruivo Lopes, também durante discurso.

“Numa recente tentativa de fuga, dois adolescentes foram encontrados mortos no Rio Tietê. Foi em 2014, não foi em 1964. Cláudia Silva Ferreira foi baleada por policiais militares no Morro do Congonha, onde morava. Mal socorrida na viatura, seu corpo foi arrastado e esfolado por 350 metros. Os policiais militares envolvidos na morte de Cláudia têm histórico de execuções sumárias e violência policial. Foi em 2014, mas poderia ter sido em 1964”, prosseguiu.

Quem também discursou foi Alípio Freire, jornalista, ex-preso político e diretor do documentário “1964 – Um Golpe Contra o Brasil”. Ele afirmou que o “terror do Estado” no país é antigo, estando presente em diversas épocas da história, como na Colônia, Império e República, e toma como “fundamental” a desmilitarização das polícias. “Nós sabemos que, desde o fim da ditadura até hoje, milhares de brasileiros foram assassinados nos campos e nas cidades. Nenhum assassinado nos Jardins, no Pacaembu, em Higienópolis ou no Morumbi”, diz.

Contra a mentira

Reiterando os discursos abertos, Thiago Brandimarte Mendonça, um dos organizadores do ato, também falou com a reportagem. “A força do cordão, está na forma como ele sai nas ruas. A batalha a partir da estética para ressignificar a política. Isso é tão poderoso que faz com que os grandes meios de comunicação prefiram ignorar o cordão, mesmo com milhares de pessoas nas ruas, semanas depois de dar uma ampla cobertura a uma esvaziando marcha de maníacos pedindo um novo golpe”.

Colocar frente à frente as ditaduras – a de 1964 e as que persistem até 2014 – é outro objetivo do ato realizado pelas ruas de São Paulo. “A força do cordão é de dizer que a ditadura não acabou e não vai acabar enquanto não enfrentarmos de frente os grupos econômicos e políticos que foram vitoriosos em 64 e que continuam no poder. Não enfrentarmos a forma como se manifesta a violência do Estado, que serve para manter o status quo”, conclui.

Escracho pelas ruas

Após a concentração no Largo General Osório, no centro antigo da capital, no Memorial da Resistência, o grupo seguiu pelas ruas ao som de samba e batucada, passando pelo 3º Distrito Policial e Largo do Paissandu – neste ponto, um momento de tensão: parte do grupo gritou palavras de ordem a um grupo de PMs que estava a postos em duas viaturas. Os policiais não reagiram, e, em seguida, entraram nas viaturas e saíram do local – para frenesi do grupo.

Ao longo do trajeto, os ativistas e foliões fizeram várias intervenções artísticas com forte teor político. A rua General Couto de Magalhães, por exemplo, foi rebatizada com o nome de Rua Carlos Marighella – nome de um dos líderes da resistência contra a Ditadura Civil-Militar no país, e que acabou morto em 1969 em uma emboscada.

A rua General Couto de Magalhães foi rebatizada: Rua Carlos Marighella (foto: Mário Bentes).
A rua General Couto de Magalhães foi rebatizada: 
Rua Carlos Marighella (foto: Mário Bentes)

Nomes como “MC Daleste”, funkeiro de apenas 20 anos que foi assassinado durante um show em Campinas, no ano passado; “Vladimir Herzog”, torturado e assassinado pela Ditadura, “Cláudia Silva Ferreira”, a moradora do Morro do Congonha que foi baleada pela PM e ainda teve o corpo arrastado por 350 metros. Todos eles foram grafados nas ruas e faixas de pedestres, como protesto contra a violência policial.

Tentativa de intimidação

Após a passagem do grupo pela Praça da República, de acordo com Thiago Brandimarte, houve o que ele classifica de tentativa de intimidação “ostensiva e desnecessária” por parte da Tropa de Choque da PM, que passou a acompanhar o grupo a parti dali.

“Respondemos formando um cordão de proteção a todos os manifestantes/foliões. Cordão que dançava e cantava em resposta à violência do Estado. Postura contrária à que a polícia teve na Marcha da Família, onde desfilaram juntos. A lógica era causar medo, mas ao contrário, fortaleceu o sentido de estarmos nas ruas”, disse.

Ativistas grafaram o nome de vítimas das ditaduras (foto: Mário Bentes).
Ativistas grafaram o nome de vítimas das ditaduras (foto: Mário Bentes)

Ainda assim, a adesão foi grande, tomando mais corpo à medida em que o grupo andava. Thomaz Barbeiro Gonçalves, de 24 anos, estudante de História da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), diz que o Cordão da Mentira tem a potencialidade de trazer a questão da violência estatal ocorrida no passado, na ditadura militar, e no presente, no assassinato de jovens pobres, negros e periféricos.

“A estrutura do Estado existe desde a época da ditadura civil-militar, que mantém as desigualdades muito fortes. A violência da periferia aumentou, mas muito em consequência pelo fato de não haver punição aos torturadores no passado”, afirma.

A instrutora de informática Sara Maria da Silva, 35, diz que ficou sabendo do evento através de um amigo, no Facebook. Para ela, o Cordão significa um protesto das camadas marginalizadas da sociedade. “O Cordão da Mentira é um basta do povo cansado, lutador, guerreiro, oprimido, do gueto, da favela, negro, GLS, o povo que corre pra ter o mínimo de dignidade e que está cansado de toda essa presepada que está ocorrendo em nossa política hoje”, conta.

O ato terminou por volta das 22h, após ainda passar pelo Elevado Costa e Silva, Rua Maria Antônia, ruas Sabará e Piauí e encerrar à frente da sede do enfraquecido grupo da TFP – Tradição, Família e Propriedade, organização que foi um dos pilares que ajudaram a formar o cenário do Golpe.


Publicada originalmente pela Revista Babel, em 2 de abril de 2014.


Saiba mais sobre o Cordão da Mentira aqui e aqui.

Ouça as marchinhas do Cordão da Mentira aqui.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

1º de Abril por Verdade e Justiça

Em 1º de Abril de 1964, um golpe militar, com apoio da ala civil conservadora e do governo dos Estados Unidos da América, tomou o poder de assalto, interrompeu as reformas de base do governo João Goulart, cassou políticos, militantes, estudantes, organizações sociais e populares, exilou, prendeu, torturou, matou e desapareceu com centenas de pessoas. Passados 48 anos do longo outono de 1964, o povo vai as ruas exigir responsabilidades por atos de violações dos direitos humanos cometidos durante o período da ditadura civil-militar. O cordão da mentira tomou as ruas de São Paulo neste 1º de Abril para exigir a instalação imediata da Comissão da Verdade, pois somente a verdade pode levar os culpados à Justiça. A marcha denunciou que a ditadura civil-militar continua presente nas prisões, nas práticas de torturas, nas chacinas, nas execuções sumárias, nas ocultações de cadáveres protagonizadas pelas policias e com a conivência dos órgãos da grande imprensa e da justiça brasileira.

No Cemintério da Consolação um Sarau para Luis Gama: porque a "Abolição" também foi uma mentira

O Coletivo Perifatividade marcou presença e lembrou que no fundão do Ipiranga a periferia segue resistindo

Ainda no Cemintério da Consolação, poesia e performance lembraram a herança da ditadura no presente

Estandartes lembrar é resistir

Jovens exigem: nunca mais mortos e desaparecidos!

Janaína e Amélia Teles, Criméia Almeida e Teresinha Gonzaga: nunca mais mortos e desaparecidos!

Elzira Vilela: nunca mais mortos e desaparecidos!

Angela Mendes: Merlino presente!

Movimento Mães de Maio denunciam a presença da ditadura civil-militar nas práticas policiais e da justiça brasileira



Homenagem ao estudante Henrique Barbosa da Silva, 18 anos, executado sumariamente por policiais militares no dia 18 de março, no bairro Cantinho do Céu, zona sul de SP. Os PMs forjaram a cena do crime e alegaram "resistência seguida de morte", mas foram presos em flagrante. A grande imprensa comprou a versão dos PMs e chamou o estudante de assaltante. A mãe de Henrique pede justiça e retratação

Os de ontem e os de hoje: nunca mais mortos e desaparecidos!

Sarau do Binho também mandou seu recado: demarcação imediata das terras indígenas no Mato Grosso do Sul

Pela abertura imediata dos arquivos da ditadura civil-militar

Luta, substantivo feminino: mulheres que lutaram contra a ditadura civil-militar

Homenagem ao estudante José Guimarães, assassinado com um tiro na cabeça em 1968, tinha 20 anos, na Rua Maria Antonia, pelo CCC (Comando de Caça aos Comunistas)

Na Rua Fortunato, homenagem ao militante da ALN (Ação Libertadora Nacional), Marco Antonio Braz, o Marquito, assassinado em 1969, tinha 29 anos

O ato deste domingo aconteceu num momento em que o debate sobre a criação da Comissão da Verdade tem ganhado cada vez mais espaço. Movimentos populares tem levado o debate para as ruas em ações que denunciam responsáveis por violações de direitos humanos ocorridas no período da ditadura civil-militar. Os militares são contra a Comissão da Verdade porque sabem que a justiça é vizinha da verdade. Enquanto a verdade não vier a tona, a justiça não será feita. Verdade e Justiça são condições necessárias para romper a herança autoritária ainda hoje impregnada nas policias e nos órgãos de justiça brasileiros.
É preciso não ter medo, é preciso ter a coragem de dizer... para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça!

[Fotos: Ruivo Lopes]