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domingo, 6 de abril de 2014

1964 + 50: A mentira de ontem, a mentira de hoje!



 
Cordão da Mentira nas ruas do Centro de SP 
(Foto Joseh Silva/Carta Capital)


Por Mário Bentes e Leandro Fonseca
Especial para a Revista Babel e Jornal GGN


Foi diante da sede do antigo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), local símbolo da repressão do Estado durante o regime Civil-Militar contra os movimentos sociais, que quase dois mil ativistas se reuniram, na noite deste 1o. de abril.

O ato, chamado “Grande Desfil&scracho do Cordão da Mentira”, começou a tomar forma por volta das 18h, no Largo General Osório, no centro antigo de São Paulo. Com samba e batucada, o grupo protestou não apenas contra as iniciativas de “comemoração” aos 50 anos do Golpe que afundou o país em 21 anos de ditadura, mas contra o legado que ainda perdura – principalmente contra o subúrbio, os negros e os pobres.

“A Ditadura acabou, mas esqueceram de avisar a polícia”, bradou Débora Maria da Silva, representante do Movimento Mães de Maio, grupo criado como resposta a uma série de chacinas ocorridas em São Paulo em maio de 2006, e que tenta por fim à tática policial da “resistência seguida de morte”.

O discurso emocionado marcou a abertura do ato, ainda durante a concentração. Entre músicas e palavras de ordem, os participantes traziam informações referentes aos números de mortos nas periferias e as táticas mantidas pelas forças repressivas do Estado, nos tempos democráticos.

Em entrevista à reportagem após o discurso, Débora Maria da Silva disse ainda que o Cordão “lava a alma” e “desmascara a mentira”. “As Mães de Maio vêm aqui como símbolo da falsa democracia”. Além da desmilitarização das polícias, Débora afirma que é necessário haver uma reforma do Poder Judiciário.

“O [Poder] Judiciário é um dos que perpetuam a impunidade. Ele não age com um revólver que sai bala, mas sim com uma canetada”, afirma. Além disso, ela diz que as principais vítimas da polícia militarizada são pobres, negros e moradores das periferias, pois o Brasil é “produtor de Mães de Maio”. “Estamos fazendo o escracho e dizendo ‘nós estamos vivos, nossos mortos têm voz e estamos aqui para lutar por eles’”, diz.

Débora Maria da Silva, representante do Movimento Mães de Maio (foto: Mário Bentes).
Débora Maria da Silva, representante do Movimento Mães de Maio 
(foto: Mário Bentes)

“Ancestralidade”

“Podemos ir além e dizer que estão aqui também toda uma geração de ancestralidade. O genocídio nesse país não começou nem em 64, nem em 2006, ele é histórico, ele é da fundação dessas terras, desde os povos negros, os povos indígenas que sofreram. A história desse país deve ser contada pela luta dos povos e sua resistência, não pelas suas derrotas. Adolescentes cumprindo medida socioeducativa em unidades da Fundação Casa, em São Paulo, são constantemente agredidos, castigados e torturados”, afirmou Ruivo Lopes, também durante discurso.

“Numa recente tentativa de fuga, dois adolescentes foram encontrados mortos no Rio Tietê. Foi em 2014, não foi em 1964. Cláudia Silva Ferreira foi baleada por policiais militares no Morro do Congonha, onde morava. Mal socorrida na viatura, seu corpo foi arrastado e esfolado por 350 metros. Os policiais militares envolvidos na morte de Cláudia têm histórico de execuções sumárias e violência policial. Foi em 2014, mas poderia ter sido em 1964”, prosseguiu.

Quem também discursou foi Alípio Freire, jornalista, ex-preso político e diretor do documentário “1964 – Um Golpe Contra o Brasil”. Ele afirmou que o “terror do Estado” no país é antigo, estando presente em diversas épocas da história, como na Colônia, Império e República, e toma como “fundamental” a desmilitarização das polícias. “Nós sabemos que, desde o fim da ditadura até hoje, milhares de brasileiros foram assassinados nos campos e nas cidades. Nenhum assassinado nos Jardins, no Pacaembu, em Higienópolis ou no Morumbi”, diz.

Contra a mentira

Reiterando os discursos abertos, Thiago Brandimarte Mendonça, um dos organizadores do ato, também falou com a reportagem. “A força do cordão, está na forma como ele sai nas ruas. A batalha a partir da estética para ressignificar a política. Isso é tão poderoso que faz com que os grandes meios de comunicação prefiram ignorar o cordão, mesmo com milhares de pessoas nas ruas, semanas depois de dar uma ampla cobertura a uma esvaziando marcha de maníacos pedindo um novo golpe”.

Colocar frente à frente as ditaduras – a de 1964 e as que persistem até 2014 – é outro objetivo do ato realizado pelas ruas de São Paulo. “A força do cordão é de dizer que a ditadura não acabou e não vai acabar enquanto não enfrentarmos de frente os grupos econômicos e políticos que foram vitoriosos em 64 e que continuam no poder. Não enfrentarmos a forma como se manifesta a violência do Estado, que serve para manter o status quo”, conclui.

Escracho pelas ruas

Após a concentração no Largo General Osório, no centro antigo da capital, no Memorial da Resistência, o grupo seguiu pelas ruas ao som de samba e batucada, passando pelo 3º Distrito Policial e Largo do Paissandu – neste ponto, um momento de tensão: parte do grupo gritou palavras de ordem a um grupo de PMs que estava a postos em duas viaturas. Os policiais não reagiram, e, em seguida, entraram nas viaturas e saíram do local – para frenesi do grupo.

Ao longo do trajeto, os ativistas e foliões fizeram várias intervenções artísticas com forte teor político. A rua General Couto de Magalhães, por exemplo, foi rebatizada com o nome de Rua Carlos Marighella – nome de um dos líderes da resistência contra a Ditadura Civil-Militar no país, e que acabou morto em 1969 em uma emboscada.

A rua General Couto de Magalhães foi rebatizada: Rua Carlos Marighella (foto: Mário Bentes).
A rua General Couto de Magalhães foi rebatizada: 
Rua Carlos Marighella (foto: Mário Bentes)

Nomes como “MC Daleste”, funkeiro de apenas 20 anos que foi assassinado durante um show em Campinas, no ano passado; “Vladimir Herzog”, torturado e assassinado pela Ditadura, “Cláudia Silva Ferreira”, a moradora do Morro do Congonha que foi baleada pela PM e ainda teve o corpo arrastado por 350 metros. Todos eles foram grafados nas ruas e faixas de pedestres, como protesto contra a violência policial.

Tentativa de intimidação

Após a passagem do grupo pela Praça da República, de acordo com Thiago Brandimarte, houve o que ele classifica de tentativa de intimidação “ostensiva e desnecessária” por parte da Tropa de Choque da PM, que passou a acompanhar o grupo a parti dali.

“Respondemos formando um cordão de proteção a todos os manifestantes/foliões. Cordão que dançava e cantava em resposta à violência do Estado. Postura contrária à que a polícia teve na Marcha da Família, onde desfilaram juntos. A lógica era causar medo, mas ao contrário, fortaleceu o sentido de estarmos nas ruas”, disse.

Ativistas grafaram o nome de vítimas das ditaduras (foto: Mário Bentes).
Ativistas grafaram o nome de vítimas das ditaduras (foto: Mário Bentes)

Ainda assim, a adesão foi grande, tomando mais corpo à medida em que o grupo andava. Thomaz Barbeiro Gonçalves, de 24 anos, estudante de História da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), diz que o Cordão da Mentira tem a potencialidade de trazer a questão da violência estatal ocorrida no passado, na ditadura militar, e no presente, no assassinato de jovens pobres, negros e periféricos.

“A estrutura do Estado existe desde a época da ditadura civil-militar, que mantém as desigualdades muito fortes. A violência da periferia aumentou, mas muito em consequência pelo fato de não haver punição aos torturadores no passado”, afirma.

A instrutora de informática Sara Maria da Silva, 35, diz que ficou sabendo do evento através de um amigo, no Facebook. Para ela, o Cordão significa um protesto das camadas marginalizadas da sociedade. “O Cordão da Mentira é um basta do povo cansado, lutador, guerreiro, oprimido, do gueto, da favela, negro, GLS, o povo que corre pra ter o mínimo de dignidade e que está cansado de toda essa presepada que está ocorrendo em nossa política hoje”, conta.

O ato terminou por volta das 22h, após ainda passar pelo Elevado Costa e Silva, Rua Maria Antônia, ruas Sabará e Piauí e encerrar à frente da sede do enfraquecido grupo da TFP – Tradição, Família e Propriedade, organização que foi um dos pilares que ajudaram a formar o cenário do Golpe.


Publicada originalmente pela Revista Babel, em 2 de abril de 2014.


Saiba mais sobre o Cordão da Mentira aqui e aqui.

Ouça as marchinhas do Cordão da Mentira aqui.

domingo, 30 de março de 2014

1964 + 50: tortura, males de origem

Livro proibido: "Torturas e torturados"

A prática da tortura no Brasil é tão antiga quanto a colonização. A tortura, que já era praticada largamente desde a idade média na Europa, cruzou o Atlântico e, junto com a pólvora, forçou a subjugação daquela gente com quem os colonizadores dedicavam sua indiferença e dominação. Foi assim com os povos indígenas e mais tarde com os povos negros sequestrados, vendidos como coisa e escravizados das várias partes da África. A tortura é obra da "civilização". No "novo mundo", a tortura serviu à barbárie.

É disso que trata a corajosa denúncia de Márcio Moreira Alves, em plena ditadura, reunida no livro "Torturas e torturados" (Idade Nova, 1967). Antes de ser publicado, o livro passaria por um verdadeira via crucis jurídica até sua liberação. 

A primeira edição de "Torturas e Torturados" foi apreendida à véspera de seu lançamento por ordem Ministério da Justiça. Antes, o SNI (Serviço Nacional de Inteligência) fotografara seus originais protegidos em Paris, página por página, e apresentara o registro como um dos motivos alegados para proibir a candidatura de Márcio Moreira Alves a deputado federal pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro), do Rio de Janeiro, partido de oposição a ditadura representada pelo ARENA (Aliança Renovadora Nacional).

Ambas as tentativas de cercear a liberdade de pensamento do autor e de impedir que os impressionantes depoimentos que recolheu de presos políticos torturados fossem publicados falharam. Em novembro de 1966 o Superior Tribunal Eleitoral decidiu, por unanimidade, que as denúncias sobre torturas nada tinham de "subversivas", podendo o autor concorrer às eleições. Em junho de 1967, o Tribunal Federal de Recursos, ainda por unanimidade, considerou ilegal o ato do Ministério da Justiça que havia determinado a apreensão do livro. Em despacho publicado em 6 de julho, o TRF esclareceu que a circulação do livro é livre em todo o território nacional.

Mas essa tolerância durou pouco. Eleito, o deputado Márcio Moreira Alves fez oposição ao regime militar. Em 1968, em protesto contra a repressão aos movimentos contrários a ditadura, Marcio Moreira Alves pronunciou veemente discurso na Câmara, conclamando o povo a realizar um “boicote ao militarismo”, não participando dos festejos comemorativos da Independência do Brasil no 7 de setembro próximo. Em resposta, o presidente Costa e Silva antecipou o fechamento do regime e editou o AI-5, o mais drástico de todos os atos institucionais desde o golpe civil-militar de 1964, que determinou o fechamento do Congresso Nacional e de outros órgãos legislativos,  intervir nos estados e municípios sem as limitações previstas na Constituição, cassar mandatos eletivos e suspender, por dez anos, os direitos políticos de qualquer cidadão, decretar o confisco de bens e suspender a garantia do habeas-corpus.

"Torturas e torturados", está agora disponível para baixar gratuitamente aqui. O livro é um documento contra a prática da tortura, esse mal incrustado no Estado, praticado sistematicamente por agentes públicos em sistemas de privação de liberdade e que deforma a todos nós. 



    No Brasil como no mundo, há anos — poderia dizer
    que desde sempre — todo cidadão primariamente informado
    sabe que a polícia usa métodos violentos para intimidar
    ou interrogar ladrões e assassinos. Mas, por comodismo e
    pelo individualismo desumanizador característico de nossa
    época, esses métodos jamais foram combatidos eficientemente.
    São considerados parte de nossa vida social, uma
    parte excusa é verdade, mas irremovível, como a pederastia
    ou a prostituição. A insensibilidade que criamos passou a
    considerar a brutalidade policial como uma parte suja, mas
    indispensável, do sistema de garantias coletivas. Só quando
    ultrapassa certos limites da racionalidade é que algumas vozes
    se levantam para condená-la. É o caso, por exemplo, das
    periódicas campanhas de metralhamento de assassinos nas
    favelas cariocas que, com igual periodicidade, provocam artigos
    de protesto na imprensa até que, fuzilados os bandidos
    mais notórios, tanto o tiroteio como o protesto adormecem.

    O emprego de torturas, minuciosamente executadas no
    Brasil após o golpe militar de 1.° de abril de 1964, parece
    ter causado incredulidade em quase todo mundo e surpresa
    entre os bem pensantes. Por que esta surpresa? A violência
    acaso não existia antes, tolerada e protegida?

    Creio que a única explicação válida é que o traumatismo que as torturas
    de abril causaram na sociedade brasileira não foi moral, pois
    suas raízes estão no instinto de auto-defesa dos surpreendidos.
    Do momento em que as torturas passaram a ser usadas
    em larga escala contra presos políticos, portanto para reprimir
    crimes de opinião, todos se sentiram ameaçados. Agora,
    são os comunistas e esquerdistas as vítimas. Amanhã, poderão
    ser os fascistas e direitistas. O método deixou de ser de
    defesa coletiva para transformar-se em ameaça generalizada.
    Daí ter sido condenado até por alguns dos responsáveis por
    sua disseminação, membros do governo Castelo Branco.

    (...)

    A moderação com que as Forças Armadas atuaram
    na vida nacional até 1964 serviu para envolvê-las em uma
    auréola de prestígio popular. No Brasil, o militar não era
    olhado como o prepotente, o tirano em potencial da maioria
    dos países latino-americanos. Era antes visto como um cidadão
    respeitável, presumivelmente íntegro, saído da pequena
    classe média, que se dedicava a afazeres mais ou menos
    úteis, mas sempre norteados por idéias gerais de patriotismo
    e honestidade. Ao descobrir que alguns destes cidadãos
    exemplares, vizinhos tranqüilos se entregavam ao flagelamento
    de presos políticos e tinham sua abjeção acobertada
    e fortalecida por seus chefes e, conseqüentemente, por seus
    companheiros de profissão, a consciência brasileira levou
    uma bofetada.

    O mal que as torturas causaram à futura convivência de
    brasileiros armados e desarmados é grande e sua extensão
    só o futuro e a afirmação ou não do militarismo político poderá
    determinar.  (...) Enfrentamos hoje o perigo de criar-se um
    grupo militar privilegiado que mantenha o regime de força,
    em aliança com os privilegiados civis, portanto direitistas,
    com a finalidade única de conservar os privilégios que lhes
    foram dados e recebendo, todos, apoio norte-americano pois
    continuariam a reprimir indefinidamente as esquerdas, a famosa

    ameaça comunista, que os interesses imperiais no Brasil procuram 
    confundir com o nacionalismo e a socialização.

    A pergunta que normalmente se faz quando surgem revelações
    de torturas, pergunta que Jean Paul Sartre repete
    no prefácio que escreveu para o depoimento de Henri Alleg
    “La Question”, é — como é possível que isto ocorra entre
    nós?

    A resposta é simples: é possível acontecendo, como
    sempre aconteceu. Se a polícia rotineiramente tortura criminosos
    comuns, por que não torturaria os presos políticos? Se
    os militares, pela primeira vez colocando em prática o que
    leram dos métodos dos “Green Berets” norte-americanos ou
    dos “parás” francêses, não foram punidos por seus superiores,
    porque não prosseguiriam no emprego destes métodos?

    Tudo é singelo, tudo é mecânico, até mesmo o esquecimento
    em que as denúncias caem após nosso primeiro e ineficiente
    impulso de indignação.

    É preciso, para que purifiquemos a mancha que a tortura
    joga sobre todos os brasileiros, não apenas que se punam
    os oficiais e policiais responsáveis pelo seviciamento
    de homens e mulheres entregues à sua guarda, como que se
    acabe de vez com o sistema de brutalidade montado nas prisões
    brasileiras e, sobretudo, que se guarde a lembrança dos
    crimes cometidos para que sua repetição amanhã se torne
    impossível.

    (...)





A atualidade daquelas denúncias de tortura ainda nos primeiros anos de chumbo está registrada na introdução da edição impressa: "É um processo de nosso tempo e uma denúncia da civilização em que vivemos". O mais grave é que a prática da tortura tenha também se acomodado na democracia vigente no país. Combatê-la exige rara coragem.

Leia também:


Tiro ao Álvaro: "A falta de gosto impede a 
liberação da letra", determinou a censora


Em 1973, o compositor e cantor Adoniran Barbosa teve letras vetadas pela censura, mesmo as já gravadas na década de 50. Caso de “Tiro ao Álvaro", vetada pela censora Eugênia Costa Rodrigues, junto com “Samba do Arnesto”, “Já fui uma brasa” e “O Casamento do Moacir”. Em “Tiro ao Álvaro” (com Oswaldo Moles), a censora faz um círculo nas palavras “tauba”, “revorve” e “artormove”, determinando que a “falta de gosto impede a liberação da letra”. Para que pudesse ser aprovada e gravada novamente “Tiro ao Álvaro”, teria que virar “Tiro ao Alvo” e as palavras "corrigidas". Adoniran não aceitou e deixou para gravá-las mais tarde. Ele acreditava que a burrice da ditadura iria passar. Adoniran deixou saudades e sempre será lembrado pela irreverência da sua obra. Ao contrário da ditadura. Leia mais Documentos Revelados aqui: www.documentosrevelados.com.br

Vejaí: edições localizam o papel da Veja na ditadura

Garimpando num sebo em SP, eis que deparo-me com a história recente do Brasil. Duas edições da revista Veja. A primeira de dezembro de 1969, noticiava na capa "A herança de Costa e Silva", o segundo militar a comandar o país durante a ditadura e responsável pelo endurecimento do regime com o AI (Ato Institucional) nº 5, ou o "golpe no golpe". Costa e Silva havia morrido dias antes. A outra, de abril de 1974, trazia na capa "O décimo aniversário da revolução" golpista que manteve tudo na mesma ordem. A primeira sob o AI-5 e a segunda sob censura, a matéria de capa das duas edições localizam o papel da Veja na ditadura.

segunda-feira, 24 de março de 2014

1964 + 50: quem tem medo da verdade?




Quem tem medo da verdade?


Lá vêm uszomi de bem

As mãos nos bolsos escondem o sangue de alguém

Os passos curtos e as pernas bambas

Denunciam maldades que ainda pesam em seus ombros

Uszomi carregam manchas em seus nomes

No peito cansado, já não aguentam mais velhas medalhas

Eles sabem o que fizeram no longo outono do século passado

Golpearam violentamente a verdade e a justiça

Tomaram de assalto o poder que era do povo

E se tornaram o poder absoluto!

Como foram ousados, serei da minha parte, ousado também

Tenho o dever de falar porque não sou cúmplice

Calado, minhas noites seriam assombradas pelas memórias

Da gente que projetava na vida, sombras de esperança

Quando uszomi vieram, eles chegaram abençoados

E agiram em defesa do sono dos justos

Estes tiveram a oportunidade de fazer justiça

Mas se calaram voluntariamente

Juntos, caçaram vidas, sombras e esperanças

Exigiram disciplina, quando na verdade queriam obediência

Censuraram o poeta, o poema e a poesia

Trocaram a notícia da primeira capa

Pela receita indigesta e macabra

Deram um banho de água fria no sonho de justiça

Descarregaram choques naqueles com quem se chocaram

Provocaram pesadelos

Prenderam a liberdade

Torturaram a alma

Logo ali, na sala, na cela, na vala, na viela, na mata

Desapareceram com o corpo e com a sombra

Deixaram um abraço partido e um adeus... que nunca foi dito

Na caminhada interrompida, o preço... a vida!

Onde esta? Onde está?

Ainda gritam mães, filhos e avós

Ninguém apareceu pra explicar

Quando uszomi caíram pensaram que seriam esquecidos

Acharam que ficaria o dito pelo não dito

Se esconderam da verdade porque sabiam

Que verdade significa justiça

Foi quando a poesia se fez necessária

E o poeta voltou a recitar seu poema em voz alta

Com a certeza de que a verdade está a caminho e ninguém, ninguém, a deterá.


Ruivo Lopes | Poema publicado primeiro em Coletivo Cultural Poesia na Brasa, Antologia Volume IV (2012), e só agora disponível na íntegra neste blog Poéticas Políticas, em memória daquela gente que ousou quebrar a imposição do silêncio e não se conformou com o inconformável. Este poeta recita seu poema em voz alta pela memória, verdade e justiça para todas as vítimas da violência do Estado que ainda persiste neste país de acentuados contrastes raciais, étnicos e sociais.