Em 2015 e no durante o primeiro semestre de 2016, paulistanos ricos e da classe média tradicional se reuniram em frente a sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na avenida Paulista (SP), para dizer "chega de pagar o pato" e pedir "impeachment" e "renúncia já", em referência a presidenta Dilma Rousseff. As concentrações em frente da Fiesp tiveram ampla repercussão na imprensa dominante.
Anos atrás, lembro-me de um promotor de Justiça afirmando falar na tevê que no Brasil, país de profundas desigualdades, ninguém fica rico sem cometer ilegalidades - da sonegação de direitos trabalhistas a impostos, do tráfico de influência ao patrimonialismo. "Feche os olhos, escolha um imposto de renda vultuoso, investigue para constatar ilegalidades que favoreceram o enriquecimento", dizia o promotor do qual não me lembro o nome. O mote do programa era "Por que os ricos riem à toa?".
Pois bem, sabe-se agora pela imprensa que o empresário Laodse de Abreu Duarte, que é diretor da Fiesp, acumula a incrível quantia de R$ 6,9 bilhões em débitos pendentes em tributos públicos, o que lhe garante a alcunha de “maior sonegador do Brasil.” Outros empresários somam dividas públicas de R$ 1 trilhão, suficientes para saldar a dívida e gerar superávit no orçamento da União previsto para este ano.
Se houvesse alguma coerência nos desfiles que os paulistanos ricos e da classe média tradicional promoveram na frente da Fiesp, eles se sentiriam constrangidos, traídos pelo papel que desempenharam fazendo coro aos empresários ligados a instituição. Se houvesse alguma coerência exigiriam explicações, retratações, punições. Mas não, o silêncio prova cumplicidade.
Quem paga o pato pela desigualdade no Brasil é a classe trabalhadora, humilhada e ofendida, usurpada em seus direitos básicos por um seleto grupo que enriquece em detrimento da grande maioria. Por isso, é fundamental a taxação sobre a riqueza para devolver ao público, via investimentos em serviços essenciais a população, o que é para o bem comum!
Educação
Não há neutralidade na educação. Neutralidade diante da desumanização é alienação. Portanto também é uma posição, a de indiferença em relação ao outro, à coletividade e à sociedade. É na educação que a cultura da solidariedade se refaz e humaniza a tod@s! [Foto RL, SP, 2016]
Eu apoio!
[Foto RL, SP, 2016]
E agora, Temer?
Há menos de um ano, em setembro de 2015, ante o baixo índice de aprovação do governo da presidenta Dilma Rousseff, o então vice-presidente Michel Temer revelou seu instinto pelo golpe.
"Ninguém vai resistir três anos e meio com esse índice baixo", disse Temer na ocasião.
Divulgada no dia 1º, a pesquisa CNI/Ibope aponta que a gestão do presidente interino é aprovada apenas por 13% da população.
Opinião pública explícita: Fascistas não passarão!
[Foto: Ruivo Lopes, SP, 2016]
Patrimonialismo cultural
Na utopia do bem público, tudo aquilo que
recebe investimento público, ou seja da coletividade, deveria ser
orientado pela gestão e interesse públicos - coletivos! Só que não...
Há muito tempo, temos visto no Brasil, onde o investimento público
em iniciativas da sociedade é enorme, que as organizações privadas são as
maiores beneficiárias dos recursos públicos.
A isenção fiscal é obra
do neoliberalismo que apenas suga do Estado.
Não há Estado neutro.
O que sempre se fez em outras áreas, se faz também na área da Cultura.
Assim operam os cupins do Estado - comem por dentro! -, em particular, o
seleto grupo de agenciadores da cultura, avidos por polpudas reservas
de recursos públicos.
Sem nenhum compromisso público - com a
coletividade! -, apenas fazem uso utilitário do Estado para, através do
lobby, obter recursos públicos para projetos de natureza privada.
Desprezam tudo o que é público, menos os recursos.
Assim dilapidam a
utopia do bem público, do bem comum, para revertê-la em bens privados.
É
preciso dedetizar o Estado para impedir que ele seja comido por dentro!
Neoliberalismo cultural
O caso das Fábricas de
Cultura, pertencentes a Secretaria de Estado da Cultura e geridas pela
organização social Poieses e Catavento, nos da a oportunidade de discutir o modelo de gestão do bem público que a sociedade deseja para o bem comum.
Demissão repentina de educadores/as (Arte-Educadorxs em GREVE, clique!), diminuição de atividades com aprendizes e redução do atendimento ao público (Aprendizes De Olho,
clique!), provocou greves e ocupação em algumas Fábricas.
O caso da
Fábrica de Cultura da Brasilândia, zona norte de SP, é sintomático e nos
remete a forma como o governo Alckmin agiu para reprimir estudantes de
escolas públicas estaduais ocupadas (O Mal Educado,
clique!).
Na incapacidade de dialogar, a violência policial é a regra. Neste sábado (2), aprendizes - adolescentes! -, e educadores/as foram
expulsos e presos por policiais militares.
Transferir a gestão do Estado
para uma organização social - como é o caso das Fábricas de Cultura
administradas pela Poiesis e Catavento -, é uma opção política que
integra um anunciado projeto político para o Estado.
Assim, cabe as
organizações sociais, sobretudo a Poiesis, responder pelas suas decisões
administrativas. Mas cabe também a Secretaria de Estado da Cultura
responder pelas suas opções políticas e pelo seu modelo de gestão das
Fábricas de Cultura.
A sociedade, maior interessada nos serviços
públicos que lhes são oferecidos, precisa ser consultada quando o
assunto é o bem comum.
Ouvir nunca foi uma prática dos governos
PSDBistas.
Daí a opção pelo uso da força policial!
Tortura acontece(u).
[Foto: Ruivo Lopes. SP, 2016]
Por que?
Por que a Polícia Militar matou Ítalo Ferreira de Jesus
Siqueira, de 10 anos, na Vila Andrade, zona sul de SP? Por que a Guarda
Civil Metropolitana matou Waldick Silva Chagas, de 12 anos, em Cidade
Tiradentes, zona leste de SP? Por que sempre negros são alvos
preferenciais de agentes de segurança pública? Por que sempre nas
periferias? Por que as polícias atiram primeiro para matar? Por que as
polícias atiram para matar? Por que um GCM usa arma de fogo? Por que a vida
não é preservada? Por que o sistema de segurança pública ainda não foi
desmilitarizado? Por que depois do Ítalo, agora Waldick? Por que
crianças, adolescentes, jovens? Por que isso não tem fim? Por que a letalidade das políticas
públicas de segurança alcançam os jovens primeiro do que as políticas
públicas que valorizam a dignidade humana? Por que as explicações,
quando são dadas, não são convincentes? Por que parte da sociedade se
cala, parte é indiferente e outra incentiva (o que dá no mesmo)? Por que
ainda contamos mortos? Por que esperamos pelo próximo? Por que?
Opinião pública explícita: Bela, Marginal e da Rua. Fora Temer!
Na roda José Castilho Marques Neto, secretário nacional do Plano Nacional do Livro e Leitura durante o governo Dilma; e Érica Peçanha,
doutora pela USP, autora de "Vozes Marginais na Literatura" (Aeroplano,
2009).
O encontro vai acontecer na Escola Municipal Hercilia de Campos
Costa (Rua José Pereira Cruz, nº 95, Parque Bristol (ao lado do
Telecentro Sacomã), zona sul de SP.
A política brasileira vive
tempos difíceis. Difíceis porque parece reduzida a capacidade de
imaginação política.
Nossa classe política, irresponsável e inconsequente,
lançou o povo brasileiro num mar de incertezas e angustias. Querem nos
fazer crer que não há alternativas.
Se por um lado as elites
conservadoras apostam no quanto pior melhor - para elas! -, por outro,
os progressistas, contaminados por anos de convivência com os
conservadores, tem adotado a estratégia
do medo ou a do "não há nada que seja ruim que não possa piorar". Adota-se estratégia conservadora e alheia ao campo progressista.
De ruim
a pior, atrofia-se a capacidade de imaginar alternativas políticas.
Esvaziada de imaginação, a política da lugar ao fatalismo e ao
autoritarismo conservador e também progressista.
Pois bem, falo aos
progressistas, já que não tenho interlocutores nas elites conservadoras.
Já disse e insisto, não há mobilização que se sustente apenas com
denúncia. A denúncia serve apenas para pintar o atual cenário político
do país. Confunde-se o contexto com a dinâmica no contexto. Ao contrário
do que alguns possam pensar, não é a denúncia que garante um campo ou
unidade de forças, mas sim o anúncio.
Neste momento, o campo
progressista carece de anuncio convincente e alternativo não só ao que
está, mas também ao que já estava aí.
O anúncio esta contido na potência
da vontade popular. Portanto, é hora de falar menos ao povo brasileiro e ouvi-lo
mais.
A vida política brasileira está na sua capacidade de reinvenção.
Reinventar a política significa experimentar e só experimenta quem não
tem medo.
O pragmatismo alienante da política brasileira nos levou a
beira de um precipício. Voltar pode até ser uma saída segura, mas não
menos conservadora.
Alinho-me aos que preferem pensar, experimentar e
construir, sem medo, um caminho possível para o outro lado!
Opinião pública explícita:
[Foto: Ruivo Lopes, SP, 2016]
Quem paga o bando escolhe a música
Bens x bem | Faz sentido empresas capitalistas doar dinheiro para
políticos de direita comprometidos com os bens privados. O que não
consigo entender é o que faz empresas capitalistas doar dinheiro -
legalmente ou não, pouco importa - para políticos de esquerda
comprometidos com o bem comum!
Bem x bens | Faz sentido políticos de esquerda comprometidos com o bem
comum negar doações de empresas capitalistas comprometidas com políticos
de direita defensores dos bens privados. O que não consigo entender é o
que faz empresas capitalistas comprometidas com políticos de direita
defensores dos bens privados querer doar dinheiro para políticos de
esquerda comprometidos com o bem comum!
África no Brasil
O escritor nigeriano Wole Soyinka, autor de "O leão e
a jóia", durante conferência no II Festival Afreaka, na sala Olido,
centro de SP!
Livreir@s & Leitor@s
A Passagem Literária da Consolação
com a avenida Paulista, região central de SP, é um lugar muito especial para livreir@s e
leitor@s. Faça uma visita, ouça boa música, aprecie exposições,
selecione um bom livro e bata um papo com a Odete, livreira há muitos
anos na Passagem! [Foto: Ruivo Lopes, SP, 2016]
Plano de Leitura se junta a iniciativas que buscam levar o universo
da leitura, do livro e da biblioteca a um número maior de paulistanos
Por Fausto Salvadori | fausto@camara.sp.gov.br
Para uma personagem como Thayaneddy Alves, 23 anos, negra, mulher e
moradora da periferia, tornar-se escritora parecia um enredo improvável
no cenário do Brasil, onde 94% dos autores são homens e 73% são brancos
(conforme pesquisa da professora Regina Dalcastagnè, da Universidade de
Brasília, divulgada em 2012). Mas Thayaneddy deu um jeito de escrever a
própria trama.
ESTREIA – Thayaneddy Alves no
lançamento do seu primeiro livro,
Em reticências
Foto: Peter Schraner
Não só se inventou poeta e organizou um evento literário,
o Sarau da Ponte para Cá, em Campo Limpo, zona sul, como publicou no
final do ano passado seu primeiro livro, a coletânea de poemas Em reticências,
por um selo que criou com os amigos e batizou de Academia Periférica de
Letras. “Venci as estatísticas”, comemora na contracapa.
Sem interesse pelos autores que conheceu na escola (“Drummond não me
representa”, diz), Thayaneddy bebe nas palavras das poetas das
quebradas: nomes como Débora Garcia, Jenyffer Nascimento ou Elizandra
Souza. “Se uma delas escreve sobre o sangue que jorrou de uma situação,
desde um parto, a menstruação ou uma agressão, dá para sentir o cheiro
no livro”, comenta Thayaneddy numa noite de fevereiro, enquanto
autografa um exemplar do seu livro em uma funilaria do Socorro, na
periferia sul de São Paulo.
INICIATIVA – Casulo comanda um sarau literário em sua funilaria, na zona sul de SP
Foto: Fausto Salvadori/CMSP
Funilaria? Isso mesmo. Uma funilaria que também é biblioteca
comunitária, com 600 livros colocados à disposição de quem quiser no
bairro, e que uma vez por mês também vira palco para o Clamarte, um
sarau de música e poesia. O dono da oficina, Gilmar Ribeiro Santos, 41
anos, o Casulo, desembestou a escrever aos 15 anos, após descobrir
Machado de Assis na escola. Mas só se convenceu de que poderia virar um
escritor quando conheceu o Sarau da Cooperifa, organizado pelo poeta
Sérgio Vaz, um dos primeiros representantes do movimento de saraus que
tomou conta da periferia paulistana a partir da virada do milênio.
Casulo escolheu fazer uma poesia com “um cunho social e político
muito forte”, porque acha “muito egoísmo um autor falar só do próprio
umbigo”. “O escritor tem que descer do pedestal”, diz. Seu primeiro
livro, Dos olhos pra fora mora a liberdade, saiu publicado pela
FiloCzar, uma editora-biblioteca-livraria que funciona na casa do seu
proprietário, César Mendes da Costa, 36 anos, no Parque Santo Antônio,
também na zona sul.
PIONEIRO – Cesar Mendes criou a FiloCzar, uma das poucas livrarias da periferia de São PauloFoto: Marcelo Ximenez/CMSP
A FiloCzar é uma raridade: uma livraria localizada na periferia
paulistana. Em meio à paisagem dominada por bares e igrejas evangélicas,
as estantes apinhadas com 3 mil livros chamam a atenção de quem passa
pela rua. “Tem gente que entra aqui e conta que nunca tinha visto uma
livraria na vida”, diz César. No bairro, os livros ainda são objetos
raros, e a leitura uma atividade exótica. “A biblioteca pública mais
próxima fica a 40 minutos de ônibus”, conta. Sem livros à mão, ele
encontrou as primeiras leituras nos jornais amassados que a família
usava para embrulhar compras. Não parou mais – apesar dos conselhos das
pessoas à sua volta, que diziam: “não leia tanto, senão vai ficar
doido”.
“O livro não é uma experiência de massa. Ainda somos basicamente uma
sociedade oral”, avalia César. Há quatro anos, ele abandonou o emprego
de professor de filosofia na rede pública e decidiu fazer sua parte para
mudar o que puder dessa realidade, criando a FiloCzar. A livraria,
explica, serve para financiar uma escola livre, que inclui cursos,
seminários, cafés filosóficos, cineclube, uma biblioteca comunitária e a
editora, que já publicou 13 livros. A única funcionária do
empreendimento é sua irmã. Contratada com carteira assinada, ele
ressalta. “Uma coisa que [o filósofo alemão] Karl Marx ensina é que não
devemos explorar”, afirma, destacando um dos aprendizados que ganhou com
a leitura.
DIREITO ESSENCIAL
Tanto Casulo (o poeta-funileiro-artista-plástico do Socorro) como
César (o livreiro-filósofo-editor do Parque Santo Antônio) participaram
dos debates realizados pela Câmara Municipal de São Paulo (CMSP), no ano
passado, que desembocaram na criação do Plano Municipal do Livro,
Leitura, Literatura e Biblioteca (PMLLLB) do Município de São Paulo,
nascido de um projeto de lei do vereador Antonio Donato (PT), presidente
da CMSP. Para César, é um plano que deveria ter sido criado há muito
tempo. “O mérito dessa lei é colocar em xeque um modelo de sociedade em
que o livro não é contemplado”, afirma.
AUTOR – Donato criou o projeto de
lei que deu origem ao Plano Municipal
Foto: Gute Garbelotto/CMSP
Os números dão razão a ele. Pesquisa da Escola do Parlamento da CMSP
realizada neste ano aponta que 52,4% dos paulistanos nunca leram ou
pouco leem livros. E tem mais.
O Indicador de Alfabetismo Funcional
(Inaf), elaborado pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação
Educativa, mostra que 27% das pessoas entre 15 e 64 anos são analfabetas
funcionais, incapazes de interpretar textos simples ou entender um
gráfico.
E o ambiente escolar ainda está longe de conseguir transformar seus
alunos em leitores. Prova disso são os 53 mil estudantes que, em 2015,
tiraram nota zero na prova de redação do Exame Nacional do Ensino Médio
(Enem). São milhares de jovens que passaram boa parte da vida entre os
muros da escola e mesmo assim não aprenderam algo tão básico como pegar
uma caneta e discorrer sobre um tema numa folha de papel. Simplesmente
porque a leitura não faz parte do seu mundo.
Foi com o objetivo de promover esse hábito e combater os altos
índices de analfabetismo funcional que o governo federal criou, em 2006,
o Plano Nacional do Livro e Leitura. “O direito à leitura é
imprescindível, pois é a chave para o acesso a todos os outros
direitos”, afirma José Castilho Marques Neto, secretário-executivo do
Plano Nacional. Os estudantes reprovados na redação do Enem são um bom
exemplo, segundo ele. “São jovens que não conseguiram acesso ao ensino
superior por deficiência na leitura”, explica.
O Plano Nacional está equilibrado em quatro eixos. O primeiro é a
democratização do acesso, baseada principalmente na valorização e
expansão das bibliotecas públicas. A seguir vem o fomento à leitura e à
formação de mediadores (pessoas que apresentam a leitura a quem não lê),
desde bibliotecários e professores até pais ou vizinhos (os saraus
também são um bom exemplo de mediação de leitura). O terceiro eixo leva o
nome de “valorização institucional da leitura e incremento de seu valor
simbólico” e significa transformar o incentivo à leitura em política de
Estado e criar ações para conscientizar a população sobre a importância
do ato de ler. O quarto eixo é o desenvolvimento da economia do livro,
por meio de ferramentas que incentivem a produção, a distribuição e a
circulação de títulos.
Hoje, dez anos após a aprovação, o Plano Nacional conseguiu provocar
mudanças importantes, segundo o secretário-executivo. “Em 2005, o Brasil
tinha mais de 1.700 cidades sem biblioteca. No final de 2010, já eram
mais ou menos 30”, compara. O número de municípios sem biblioteca só não
vai a zero, segundo ele, porque é um dos primeiros serviços que as
pequenas prefeituras costumam cortar assim que ficam sem dinheiro.
Por isso, Marques Neto acredita que o Plano Nacional do Livro e
Leitura só vai se realizar para valer quando todas as cidades do Brasil
tiverem o seu próprio. “Com a aprovação dos planos municipais, os
programas de leitura deixam de depender da vontade dos prefeitos e se
tornam uma política de Estado”, diz. Nesse sentido, ele afirma que o
PMLLLB paulistano seguiu o caminho correto: “o de São Paulo é um texto
feito rigorosamente a muitas mãos”.
A VÁRIAS MÃOS
De fato, as primeiras articulações que levaram à criação do plano
paulistano vieram de baixo para cima. Começaram em 2012, a partir de
encontros que reuniam pessoas interessadas em pensar políticas públicas
para a leitura e o livro na cidade. Entre eles, estavam a ONG
Literasampa, o centro de pesquisa Biblioteca e Centro de Pesquisa
América do Sul – Países Árabes (BibliASPA), os integrantes do Sistema S
(Senai, Sesc e Sesi) e o Fórum Mudar São Paulo, que naquele ano lançou
um manifesto chamado Por uma política do livro e do incentivo à leitura para o Município de São Paulo.
A partir daí, o debate iniciado na sociedade avançou por Executivo e
Legislativo adentro. Em 2014, o prefeito Fernando Haddad (PT) publicou
uma portaria intersecretarial criando um Grupo de Trabalho (GT)
encarregado de criar a versão paulistana do Plano Nacional do Livro e
Leitura. Ao grupo, além das entidades da sociedade civil que já vinham
conversando sobre as propostas, juntaram-se representantes da Prefeitura
e da Câmara Municipal. O plano paulistano manteve os quatro eixos do
nacional e acrescentou um, a literatura.
O Grupo de Trabalho realizou dezenas de encontros públicos, além de
plenárias temáticas e regionais. “Existe em São Paulo uma cena muito
forte da sociedade civil na área de livro e leitura e isso foi
determinante para a construção do Plano Municipal do Livro”, avalia o
bibliotecário Ricardo Queiroz Pinheiro, assessor parlamentar do vereador
Donato, que atuou no GT como representante do Legislativo.
Donato levou o texto redigido pelo grupo diretamente ao Plenário da
CMSP, na forma de um substitutivo para o projeto de lei (PL) 168/2010,
que já havia sido aprovado em primeira votação no ano de 2010, antes de
Donato deixar a vereança para atuar como secretário de governo da
Prefeitura, cargo em que permaneceu até 2013. “Com isso, conseguimos dar
agilidade à tramitação do Plano, que só precisou de mais uma votação
para ser aprovado”, explica Pinheiro. Após passar em Plenário sem
modificações, o Plano Municipal foi sancionado pelo Executivo em 18 de
dezembro, tornando-se a Lei 16.333/2015.
A diversidade dos participantes das discussões, que incluía a
presença de coletivos de leitura, pequenas editoras e movimentos
periféricos, chamou a atenção. “Os debates no processo de elaboração do
Plano Municipal mostraram que o livro no Brasil deixou de ser um objeto
restrito à elite”, afirma o editor Haroldo Ceravolo, presidente da Liga
Brasileira de Editores (Libre) e um dos membros do GT que redigiu o
Plano.
As novas vozes da literatura brasileira, contudo, ainda precisam
brigar para conquistar seu espaço. “A produção literária das pequenas
editoras, dos saraus de periferia, das mulheres e dos negros não tem
espaço nos jornais, não chega às livrarias e ainda é pouco representada
nas bibliotecas públicas”, aponta Haroldo. Numa (nova) palavra, o que
falta é bibliodiversidade – que Haroldo define como “o conceito de que
devemos ter o máximo possível de editoras representando o maior número
possível de vozes da nossa sociedade”.
O termo aparece no texto aprovado do Plano Municipal, que propõe “o
estímulo à bibliodiversidade em todas as suas formas”, inclusive na
compra de obras para as bibliotecas públicas e escolares. Por essas e
outras medidas da lei, Haroldo acredita que o impacto pode ser
revolucionário. “Se o roteiro previsto no Plano Municipal for
implementado, pode mudar o panorama do livro na cidade de São Paulo”,
afirma o editor.
LETRA, GALHO E PASSARINHO
Numa conferência em que contou sobre suas primeiras leituras, Paulo
Freire, um dos maiores educadores do Brasil, demorou a falar de letras e
palavras. Em vez disso, falou de passarinho, árvore, cachorro. Relembrou o quintal da casa onde engatinhou pela primeira vez, os galhos
dóceis à sua altura onde conseguia subir, o canto do sanhaçu e do
bem-te-vi, o verde da manga-espada verde, o verde da manga-espada
inchada, o amarelo esverdeado da mesma manga amadurecendo. Tudo era
leitura. É que, antes de conhecer as letras, o menino já lia a realidade
ao seu redor. “A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que
a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da
leitura daquele”, afirma Freire, no livro A importância do ato de ler,
que transcreve uma conferência de 1981. Segundo o educador, a leitura
da palavra escrita só ganha sentido quando vem carregada das
significações da experiência de vida de quem a lê.
Daí que um dos obstáculos para a expansão da leitura é a distância
que muitos brasileiros sentem em relação aos livros, vistos como objetos
exóticos, que não fazem parte das suas vidas. Na CMSP, há dois PLs que
buscam aproximar os livros do dia a dia da população aproveitando a
estrutura do transporte público. Um deles é o 266/2014, de David Soares
(Democratas), que propõe a criação de bibliotecas nos pontos de ônibus,
num espaço batizado de Parada Cultural. Já o 547/2014, de Alfredinho
(PT), cria o Programa Leitura nos Ônibus e prevê a instalação das
bibliotecas dentro dos próprios veículos.
Uma prática semelhante ao dos projetos já é feita pelo coletivo
Perifatividade, que instala pequenas bibliotecas em locais como bares,
salões de cabeleireiros ou ocupações de sem-teto. “O objetivo é fazer
com que os livros se tornem mais familiares, corriqueiros. Aumenta a
chance de que sejam lidos”, explica Ruivo Lopes, membro do coletivo e
educador da ONG Ação Educativa.
MUDANÇA – Para o educador
Ruivo Lopes, leitura é ferramenta
pra transformar realidades
Foto: Ricardo Rocha/CMSP
Ruivo, que atuou nos debates do Plano Municipal do Livro como
representante dos saraus de periferia, define-se como um “leitor
tardio”, por só ter descoberto os livros durante a adolescência.
Em
casa, na periferia da Baixada Santista, só havia uma Bíblia e um livro
de receitas. Sua escola possuía biblioteca, mas não era um ambiente
acolhedor. “Uma vez tentei entrar ali com um grupo de amigos, mas a
bibliotecária não deixou, porque disse que a gente iria ‘mexer no
acervo’”, lembra.
Superar a cultura das bibliotecas de portas fechadas, que se
preocupam mais com os livros nas estantes do que com as pessoas que
poderiam usá-los, é outro dos desafios para chegar a um país de
leitores. “Lembra das salas trancadas com livros sem uso que os
estudantes da rede estadual descobriram quando ocuparam as escolas, no
final do ano passado? Isso ainda é muito comum em algumas bibliotecas. É
o pensamento patrimonialista, de que a função mais importante de uma
biblioteca é preservar os livros”, afirma Ricardo Queiroz, assessor do
vereador Donato.
Os profissionais da área nunca foram muito de se misturar. “O
bibliotecário sempre teve resistência a participar de fóruns de
debates”, reconhece Waltemir Nalles, coordenador do Sistema Municipal de
Bibliotecas de São Paulo, formado por 54 bibliotecas, 14 pontos de
leitura, 13 bosques de leitura e 12 ônibus-biblioteca, além das 46
unidades dos Centros Educacionais Unificados (CEUs). Prova disso é o
fato de o movimento dos saraus de literatura periférica ter surgido em
locais como bares, praças ou até funilarias. “Nossas portas não estavam
abertas para essas pessoas”, reconhece Nalles. Mas ele também afirma que
as coisas estão mudando. Hoje, muitos saraus já realizam edições dentro
de bibliotecas.
Para prosseguir no processo de aproximação entre esses locais e a
comunidade, o Plano Municipal da Leitura prevê a criação de “horários
alternativos de funcionamento” – o único jeito de garantir o acesso à
maioria dos trabalhadores, que não tem como frequentá-los em horário
comercial.
Outra medida do Plano paulistano para as bibliotecas busca ampliar a
variedade dos títulos presentes nas estantes, que hoje ignoram os
autores independentes e as pequenas editoras. Segundo Nalles, a seleção
de livros é quase toda baseada nas resenhas dos jornais e das revistas
de grande circulação, que geralmente só têm olhos para as grandes
editoras. Para ampliar o leque das escolhas, foi criada uma comissão,
formada por representantes da sociedade civil e das secretarias da
Educação e Cultura, que vai definir uma política para o desenvolvimento
das coleções de livros das bibliotecas públicas da cidade. A novidade é
uma das consequências do Plano Municipal do Livro.
Para mostrar como a aproximação com as comunidades pode fazer bem
para as próprias bibliotecas, Nalles conta o caso da Menotti del
Picchia, no Limão, zona norte, que volta e meia era vítima de invasores
que praticavam furtos e quebra-quebra no local. “Depois que a
instituição se abriu para receber os saraus e outros eventos, acabou a
depredação. Hoje podem deixar a porta aberta que não tem problema. A
aproximação com a comunidade muda tudo”, aponta o coordenador.
E mudanças têm tudo a ver com a leitura. Lembra Ruivo Lopes: “A
vivência do mundo nos ensina a ler a realidade apenas como ela é. A
capacidade de imaginar outras realidades depende da cultura e das
artes”. Ou, como escreveu o inglês Neil Gaiman (um dos escritores que
despertou no autor desta reportagem a paixão pela escrita que o levou a
se tornar jornalista), “a ficção pode levar você a um lugar onde nunca
esteve e, uma vez que tenha visitado outros mundos, nunca mais ficará
inteiramente satisfeito com o mundo onde cresceu”. Essa insatisfação,
ensina Gaiman, é boa: “Pessoas insatisfeitas podem modificar e aprimorar
os seus mundos”.
Semana incentiva leitura nas escolas
“O estudo e, especialmente, a leitura são necessidades permanentes.
São ‘causas’ de todos: governo e povo”, afirma o professor e vereador
Eliseu Gabriel (PSB) na justificativa do projeto que deu origem à lei
14.999/ 2009, que criou a Semana de Incentivo e Orientação ao Estudo e à
Leitura.
Organizado pelas secretarias municipais da Cultura, da Educação e da
Assistência Social, em parceria com a Câmara Municipal, o evento ocorre
na segunda semana de abril e está em sua quinta edição. A ideia é
apresentar palestras, simpósios, shows, concursos, gincanas e outras
vivências que estimulem a leitura. No ano passado, reuniu cerca de mil
pessoas.
EVENTO – Eliseu Gabriel criou a
Semana de Incentivo à Leitura
Foto: Ricardo Rocha/CMSP
Escritores de destaque já passaram pela Semana de Incentivo e
Orientação ao Estudo e à Leitura, entre eles Heloisa Prieto, Rodrigo
Lacerda, Victor Scatolin, Lúcia Hiratsuka e o multipremiado Milton
Hatoum.
APRENDIZADO – Alunos
participam da Semana de Incentivo
à Leitura
Foto: Divulgação
Projetos e leis que tratam da leitura
LEIS
16.333/2015 | Antonio Donato (PT) Institui o Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca (PMLLLB)
14.999/2009 | Eliseu Gabriel (PSB) Institui a Semana de Incentivo e Orientação ao Estudo e à Leitura
14.477/2007 | Noemi Nonato (PR) Cria a Semana da Leitura
PROJETOS DE LEI (*)
547/2014 | Alfredinho (PT) Cria o programa Leitura nos Ônibus, com espaço para livros dentro dos veículos
266/2014 | David Soares (Democratas) Cria a Parada Cultural, com bibliotecas nos pontos de ônibus
179/2014 | Claudinho de Souza (PSDB), Edir
Sales (PSD), Eliseu Gabriel (PSB), Jean Madeira (PRB), Ota (PSB), Reis
(PT), Toninho Vespoli (PSOL) Amplia as atribuições da Biblioteca Mário de Andrade
517/2013 | Paulo Fiorilo (PT) Institui o Programa Vale-Leitura aos profissionais de educação do Município de São Paulo
(*) Da atual Legislatura
SAIBA MAIS
Livros
A importância do ato de ler. Paulo Freire. Cortez, 1989. O direito à literatura. Artigo do livro Vários Escritos. Antonio Candido. Ouro Sobre Azul, 2004.
Leiaí a reportagem original Para ler o mundo, na seção de Cultura da Revista Apartes, nº 19, março/abril de 2016!
O novo livro é fruto de diálogos sobre Direitos Humanos e
oficinas de criação literária em escolas públicas das periferias de SP.
O
documentário registra todo o processo em mais de uma dezenas de
encontros com gestores escolares, professoras/es, funcionários,
familiares e estudantes.
Além de editora nova, Cidinha da Silva comemora, neste ano, uma década de uma carreira
literária iniciada em 2006. A escritora já havia coordenado iniciativas
pioneiras sobre ações afirmativas para pessoas negras na área
educacional e, em 2014, organizou o livro "Africanidades e relações
raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura,
literatura e bibliotecas no Brasil", contribuição única no Brasil sobre o
Plano Nacional do Livro e Leitura na perspectiva das relacionais
raciais. Cidinha também tem colaborado com a dramaturgia de coletivos de
teatro negro, é blogueira assídua e escreve regularmente para portais
de jornalismo não-alinhados. Atualmente é doutoranda no Programa
Multi-institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento da
Universidade Federal da Bahia.
Em turnê pelo Brasil para divulgar o novo
livro, o lançamento em SP, será oportunidade única para um encontro
marcado com a escritora. Acesse o blog www.cidinhadasilva.blogspot.com.br e saiba tudo sobre o lançamento de "Sobre-viventes!" em SP e no Brasil. Participe, divulgue e convide amig@s!
Se ligaí, neste domingo, 22, às 17h, o Coletivo Perifatividade vai fechar a programação do palco saraus na Praça Dom José Gaspar (atrás da Biblioteca Mario de Andrade), centro de SP.
Confira a programação completa da participação dos saraus na Virada Cultural 2016: http://goo.gl/L4lx0E!
Participe, prestigie, seja bem vind@ e fique muito a vontade!
A Diretoria Regional de Educação do Ipiranga e o CEU
Heliópolis Profa. Arlete Persoli convidam a tod@s para o ENCONTRO DE
EDUCAÇÃO POPULAR: DIÁLOGOS COM A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
O Educador Paulo Freire ressalta o caráter coletivo e político de todo
projeto educacional. Desta forma, pensar a educação de jovens e adultos
como educação popular significa, antes de tudo, uma opção ideológica que
entende que cada estudante e cada educadora/or da EJA - Educação de Jovens e Adultos é sujeito do
povo, de direitos, saberes, história, cultura.
No mês de maio realizaremos o Encontro de Educação Popular: diálogos com a Educação de Jovens e Adultos, no intuito de
promover o diálogo entre educadoras/es e educandas/os sobre concepções e
práticas pedagógicas, buscando assim garantir o respeito à diversidade e
às especificidades da EJA.
Diálogo cuja continuidade alicerçará a formação de um Fórum de Educação de Jovens e Adultos do Ipiranga.
Objetivos:
- Promover a reflexão e discussão sobre a articulação entre a Educação Popular e a Educação de Jovens e Adultos.
- Promover o diálogo entre educadorxs e educandxs de diferentes formas de atendimento de Educação de Jovens e Adultos.
Local: CEU Heliópolis Profª Arlete Persoli
Estrada das Lágrimas, nº 2385, Heliópolis, zona sul de SP
PROGRAMAÇÃO:
13/05 - SEXTA
18h30 – Acolhimento LOCAL: Sala Multiuso 19h00 - MESA “O COMPROMISSO POLÍTICO DO EDUCADOR NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS” LOCAL: Sala Multiuso - APRESENTAÇÃO CULTURAL -
19h30 - Abertura: Marília De Santis - Gestora CEU Heliópolis Profª
Arlete Persoli/ Braz Nogueira - Diretor Regional de Educação - Ipiranga
/Ilma Lopes de Aquino Diretora do DIPED da DRE-IP / Antônia Cleide
Alves - Presidente da União de Núcleos e Associações de Heliópolis e
Região - UNAS
Debatedoras: 1 - Marilene (MOVA); 2 – Lívia Maria Antongiovanni (Diretora de Divisão de Educação de Jovens e Adultos - Secretaria Municipal de Educação-SP); 3 – Edna Rosseto (SME - CoCeu) 4 - Luís Galeão (IP-USP) Mediação: Laila Sala
9h às 12h - Salas Temáticas SALA 1 – Relatos de Prática: ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO; MEDIADORA: Meire Lima (Coordenadora de Educação do CEU Heliópolis Profª Arlete Persoli)
SALA 2 – Oficina: Cartografia da Memória MEDIADOR: Lucas Paolo S. Vilalta (Coletivo Político Quem e Instituto Outubro)
SALA 3 – Oficina: A partir do material da Maleta “POR QUE POBREZA? EDUCAÇÃO E DESIGUALDADE” MEDIADORA: Vanessa Pipinis (Canal Futura)
SALA 4 – Grupo de Trabalho: CURRÍCULOS PARA EJA E TERRITÓRIOS MEDIADOR: Everton Meneses (Coord. Pedagógico do CIEJA Clóvis Caitano Miquelazzo) e Joana Silva (DRE-IP)
SALA 5 – Oficina: Círculo de Cultura, Educação e Direitos Humanos em sua transversalidade. MEDIADOR: Ruivo Lopes (educador e integrante do Coletivo Perifatividade)
SALA 6 – Roda de Conversa: Juvenilização da EJA
MEDIADORAS: Cristiane Teixeira (Juventude da Subprefeitura do Ipiranga)
e Nínive Loriane (Diretora da UNAS, Coord. do Projeto Facebook na
Comunidade; Suplente da cadeira de Educação do Conselho Municipal da
Juventude de São Paulo e Estudante de Comunicação)
SALA 7 - Oficina: Teatro do Oprimido
MEDIADOR: Danilo Minharro (Ator e Formador de Educadores, Monitores e
Gestores em Teatro do Oprimido - Prefeitura de Santo André)
12h às 13h30 - ALMOÇO
13h30 às 17h - Plenária LOCAL: Sala Multiuso Mediação: Joana Silva Apresentação das Salas Temáticas Discussão Ciranda
Link para Inscrição: ATENÇÃO!! Só para participantes que SÃO SERVIDORES da REDE MUNICIPAL DE SÂO PAULO: http://goo.gl/forms/eHZ09sxXfE
Link para Inscrição: ATENÇÃO!! Só para participantes que NÃO SÃO SERVIDORES da REDE MUNICIPAL DE SÂO PAULO: http://goo.gl/forms/ctWcxpPmV6
Para quem nutria saudade da década de 1990, quando o Brasil
virou um supermercado globalizado, seja bem vindo. Neste século XXI, a
financeirização dos mercados internacionais radicalizou, mundo afora, as
políticas neoliberais e de austeridade no papel do Estado como provedor
de políticas públicas universais.
Em pouco mais de uma década, o Brasil
resistiu até onde pode. O golpe que afastou a presidenta Dilma Rousseff
foi planejado pelo capital financeiro internacional em
conjunto com seus representantes políticos e da imprensa - detentora da
opinião publicada.
Na mira da sanha privatista da vez está a educação pública,
particularmente o Ensino Médio, modalidades da educação continuada e as
Universidades Federais. São filões para os vilões da educação pública.
Também a década de 1990 foi marcada por mobilizações em defesa da
educação pública, contra as orientações agressivas do Banco Mundial para o Brasil
criar um mercado da educação e na acirrada disputa por uma LDB (Lei de Diretrizes
e Bases da Educação, 1996) que estruturasse e fortalecesse o papel do Estado e
não do mercado na educação pública. Houve derrotas significativas, mas também alguns avanços, como, por exemplo, a universalização da educação pública.
Os ataques já começaram: organizações
sociais e militares assumindo escolas, a sinalização da desobrigação do
Estado com a educação pública, terceirização dos profissionais da educação, parcerias público-privada em instituições
de ensino, etc.
Está mais do que na hora de educadores, educadoras,
estudantes - taí a novidade deste século! - e a sociedade, comprometidos
com a educação pública, não retroceder nenhum passo no direito humano à
educação!
Assistaí o diálogo comigo e Luiza Romão, no programa Melhor e Mais Justo, apresentado por Tuto na Rede TVT, a tevê da classe trabalhadora.
No diálogo, passamos a limpo os motivos que levaram a movimentação #PeriferiasContraoGolpe, mobilização iniciada em São Paulo e presente em diversas periferias brasileiras.
Na roda, histórias e protagonismo das mulheres nas lutas sociais nas
periferias, a defesa da democracia e dos direitos humanos,
democratização da comunicação e, claro, poesia contra o golpe.Confira!
Certa vez, me perguntaram, por que eu escrevo poemas que versam sobre a morte. Confesso que eu não havia pensado na questão. Tampouco, faço isso de caso pensado. Apenas, atingido pelos fatos e na impossibilidade de mudá-los na velocidade em que tragicamente acontecem, recorro aos versos, mesmo quando me faltam as palavras.
O Estado e a sociedade brasileiras são profundamente marcados pelas várias formas de violências. A diferença é que o Estado quando as pratica, assim o faz em nome da coletividade. Daí a gravidade da violência de Estado, ou seja, em meu e em seu nome. Já a sociedade, age conforme interesses e convicções próprios e não menos violenta. Ambos se retroalimentam. Racismo, LGBTfobia, xenofobia, misoginia, sexismo, discriminação de classe econômicas, intolerância religiosa e outras formas de opressão - às vezes até "sutis", mas não menos violentas -, parecem cada vez mais naturalizadas, como parte da paisagem ou do cotidiano.
Devo afirmar: me recuso naturalizar o mal. Assim, a pergunta não é por que escrevo poemas que versam sobre a morte, mas por quem escrevo poemas. Escrevo poemas por quem teve ceifada a poesia da vida, por Deboras e Luanas. E ao escrever poemas assim, registro na história história existências anônimas, luto contra o esquecimento e preservo a memória incomoda de quem não receberá nome de praça, rua ou avenida.
Meus poemas não versam sobre a morte. A morte é o triste fato que se sobrepõe ao valor inalienável da vida digna. Meus versos nos lembram em praça pública que se ainda estamos vivos devemos nos indignar com a morte e a barbárie que atinge todos os dias as gentes oprimidas neste país, onde a injustiça ainda é regra. Por isso, escrevo poemas!
O golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff é também um golpe contra as mulheres, orquestrado pela direita machista e misógina que quer governar o país sem a legitimidade popular, no grito e com ódio! [Brasil de Fato, SP, 17/04/2016]
“Periferias, vielas, cortiços… Você deve estar pensando o que você tem a ver
com isso”, Racionais MC's
Nós, moradoras e moradoras das periferias, que nunca dormimos enquanto o
gigante acordava, estamos aqui pra mandar um salve bem sonoro aos fascistas:
somos contra mais um golpe que está em curso e que nos atinge diretamente!
Nós, que não defendemos e continuamos apontando as contradições do governo
petista, que nos concedeu apenas migalhas enquanto se aliou com quem nos
explora. Nós, que também nos negamos a caminhar lado a lado de quem representa
a Casa Grande.
Nós, periféricas e periféricos, que estamos na luta não é de hoje. Nós, que
somos descendentes de Dandara e Zumbi, sobreviventes do massacre de nossos
antepassados negros e indígenas, filhas e filhos do Nordeste, das mãos que
construíram as grandes metrópoles e criaram os filhos dos senhores.
Nós, que estamos à margem da margem dos direitos sociais: educação, moradia,
cultura, saúde.
Nós, que integramos movimentos sociais antes mesmo do nascimento de qualquer
partido político na luta pelo básico: luz instalada, água encanada, rua
asfaltada e criança matriculada na escola.
Nós, que enchemos laje em mutirão pra garantir nosso teto e conquistar um
pedaço de chão, sem acesso à terra tomada por latifundiários e especuladores,
que impedem nosso direito à moradia e destroem o meio ambiente e recursos
naturais com objetivo de lucro.
Nós, que sacolejamos por três, quatro horas por dia, espremidos no vagão,
busão, lotação, enfrentando grandes distâncias entre nossas casas aos centros
econômicos, aos centros de lazer, aos centros do mundo.
Nós, que resistimos a cada dia com a arte da gambiarra - criatividade e
solidariedade. Nós, que fazemos teatro na represa, cinema na garagem e poesia
no ponto de ônibus.
Nós, que adoecemos e padecemos nos prontos-socorros e hospitais sem maca,
médico, nem remédio.
Nós, que fortalecemos nossa fé em dias melhores com os irmãos na missa, no
culto, no terreiro, com ou sem deus no coração, coerentes na nossa caminhança.
Nós, domésticas, agora com carteira assinada. Nós, camelôs e marreteiros,
que trabalhamos sol a sol para tirar nosso sustento. Nós, trabalhadoras e
trabalhadores, que continuamos com os mais baixos salários e sentimos na pele a
crise econômica, o desemprego e a inflação.
Nós, que entramos nas universidades nos últimos anos, com pé na porta,
cabeça erguida, orgulho no peito e perspectivas no horizonte.
Nós, que ocupamos nossas escolas sem merenda nem estrutura para ensinar e
aprender. Nós, professoras e professores, que acreditamos na educação pública e
não nos calamos e falamos sim de gênero, sexualidade, história africana e
história indígena - ainda que tentem nos impedir.
Nós, que somos apontados como problema da sociedade, presas e presos aos 18,
16, 12 anos, como querem os deputados.
Nós, cujos direitos continuam sendo violados pelo Estado, levamos tapa do
bandeirante fardado, condenados sem ser julgados, encarcerados, esquecidos,
quando não assassinados - e ainda dizem: “menos um bandido”.
Nós, mulheres pretas da mais barata carne do mercado, que sofremos a
violência doméstica, trabalhista, obstétrica e judicial, e choramos por filhos
e filhas tombados pelo agente do Estado.
Nós, gays, lésbicas, bissexuais, travestis, homens e mulheres trans, que enfrentamos
a a violência e invisibilidade, e não aceitamos que nos coloquem de volta no
armário.
Nós, que não aceitamos nossa história contada por uma mídia que não nos
representa e lutamos pelo direito à comunicação. Nós, que estamos construindo,
com nossa voz, as próprias narrativas: poesia falada, cantada, escrita.
Nós, que sempre estivemos nas ruas, nas redes, nas Câmaras, na cola dos
politiqueiros de plantão e que agora somos taxados de terroristas por causa de
nossas lutas. Nós, que aprendemos a fazer até leis para continuar lutando por
nossos direitos. Nós, que garantimos a duras penas o mínimo de escuta em
espaços de poder, não aceitamos dar nem um passo atrás.
Nós, que somos de várias periferias, nos manifestamos contra o golpe contra
o atual governo federal promovido por políticos conservadores, empresários sem
compromisso com o povo e uma mídia manipuladora.
Não compactuamos com quem vai às ruas de camisa amarela com um discurso de
ódio, fascista, argumentando o justo “combate à corrupção” mas motivado por
interesses privados. Não compactuamos com quem defende a quebra da legalidade
para beneficiar a parcela abonada da população, em troca do enfraquecimento do
Estado Democrático de Direito pelo qual nós dos movimentos sociais periféricos
lutamos ontem, hoje e continuaremos lutando amanhã.
Nós, que sabemos que a democracia real será efetiva apenas com a ampliação
de direitos e conquistas de nosso povo preto, periférico e pobre, a partir da
esquerda e de baixo pra cima.
Nós, que conquistamos só uma parte do que sonhamos e temos direito, não admitimos
retrocesso. Reivindicamos o respeito à soberania das urnas e a manutenção do
Estado Democrático de Direito. Reivindicamos as ruas enquanto espaço de
diálogo, debate e fazer político, mas nunca como território do ódio.
Reivindicamos nossa liberdade de expressão, seja ela ideológica, política ou
religiosa. Reivindicamos a desmilitarização das polícias, da política e da vida
social. Reivindicamos o avanço das políticas públicas, dos direitos civis e
sociais.
Assistaí! | A convite da Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura/Ibeac,
em Parelheiros, zona sul de SP, leitores e leitoras leem trechos de
"Quarto de Despejo", primeiro livro publicado da escritora Carolina
Maria de Jesus. Confira!
Perspectivas: Territorialidades de Cidinha da Silva
Programa
Escritora em atividade há uma década, Cidinha da Silva é
dramaturga, cronista e prosadora. Nestes encontros, os convidados que
conhecem e acompanham a autora desde a juventude discorrem sobre sua
produção, abordando o significado, o lugar literário e político na cena
literária brasileira, bem como o impacto de sua obra em construção.
03 de março – Temas caros aos direitos humanos na crônica de Cidinha da Silva
Com Sueli Carneiro e Emerson Inácio. Mediação de Ruivo Lopes.
04 de março – Cidinha da Silva na cena literária brasileira
Com Lígia Ferreira e Dinha. Mediação de Bel Santos Mayer.
Palestrantes
Sueli Carneiro
Doutora em Educação (USP). Presidente do Geledés – Instituto da Mulher Negra.
Bel Santos Mayer
Pedagoga social, coordenadora do
Programa de Direitos Humanos do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio
Comunitário – Ibeac; da coordenação colegiada do Polo de Leitura
LiteraSampa e membro do GT do PMLLLB/SP.
Ruivo Lopes
Educador e poeta.
Emerson Inácio Docente da área de Estudos Comparados de Literatura de Língua Portuguesa - USP
Lígia Ferreira Docente de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários e Linguísticos na UNIFESP. Autora de “Com a palavra Luiz Gama. Poemas, artigos, cartas, máximas”.
Dinha
Poeta e editora da Me Parió Revolução.
Tradução em Libras disponível. Faça sua solicitação no ato da inscrição, com no mínimo dois dias de antecedência da atividade.
Cidinha da Silva ministrará curso gratuito no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo
Contextos: Personagens interseccionais na obra de Cidinha da Silva
Programa
Nos dias 3 e 4 de março, Cidinha da Silva promoverá um curso que abordará a complexidade literária das personagens construídas pela autora em seus cinco livros de crônicas e nas centenas de outras publicadas na internet, com destaque para mulheres negras, população LGBT, homens negros, diversidade de faixas etárias, sujeitos dissonantes de um modo geral.
Palestrante
Cidinha da Silva
Cidinha da Silva é prosadora, ensaísta e dramaturga. Tem oito livros de literatura publicados, sendo os mais recentes, Racismo no Brasil e afetos correlatos (Conversê, 2013) e Baú de miudezas, sol e chuva (Mazza Edições, 2014). É doutoranda no Programa Multi-Institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento da UFBA. (Foto: Elaine Campos)
Tradução em Libras disponível. Faça sua solicitação no ato da inscrição, com no mínimo dois dias de antecedência da atividade.