quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Leiaí, "O vendedor de travesseiros", o novo livro de poesia de Emerson Alcalde

 Leiaí! | Emerson Alcalde está de volta com "O vendedor de travesseiros" (Edições Maloqueirista, 2015), seu mais recente livro de poesias. Alcalde é conhecido dos circuito de saraus de São Paulo, principalmente dos slams (competição de poesia falada), sendo ele próprio um slammaster do Slam da Guilhermina, que acontece mensalmente na zona leste da Cidade. Na poesia, Alcalde estreou com "(A) Massa" (2011), cuja última edição foi bilíngue português/espanhol, tendo participado também de antologias poéticas da cena de saraus de São Paulo. 

Em "O vendedor de travesseiros", Alcalde apresenta o que parece suas novas incursões poéticas sem perder laços com a poesia ora falada ora ritmada, mas também "hermética", próximas de uma "exposição contemporânea que só tem riscos". A performance, que marca as apresentações da poesia falada de Alcalde, são difíceis de serem captadas na versão escrita, daí a surpresa ao ouvir o poeta ao vivo. 

O livro reúne poemas inéditos, e outros feitos para espetáculos teatrais e para o disco "Entre" do rapper paulistano Kamau, responsável pela texto da orelha do livro. "O jeito como ele joga com as palavras se assimila a malabares", diz o rapper paulistano. A atriz-MC Roberta Estrela D'alva, slammaster do ZAP! Slam, assina o prefácio no qual afirma sobre a poética de Alcalde: "As palavras perfomam, clamam pela cena e os devaneios pousam em nossas mentes ao penetrarmos no seu universo, que neste novo trabalho vem carregado de imagens oníricas e surrealistas (...)". 

O livro tem o formato de bolso, tradicional das Edições Maloqueiristas

Recomendo a leitura!

Livro: “O vendedor de travesseiors", 71 páginas
Gênero: Poesia
Autor: Emerson Alcalde
Editora: Edições Maloqueiristas, 2015
Contato: emersonalcalde@hotmail.com
Facebook: Emerson Alcalde de Jesus
Blog: www.emersonalcalde.blogspot.com.br

domingo, 20 de setembro de 2015

Em Santo André, Coletivos e Pontos de Cultura debatem Livro, Leitura e Movimentos Culturais



Se ligaí! | Nesta segunda, dia 21, às 20h, os Coletivos e Pontos de Cultura convidam para o Debate sobre Livro e Leitura e Movimentos Culturais no Gambalaia Espaço de Artes, na Rua das Monções, nº 1018, Santo André (SP) - veja como é fácil chegar: https://goo.gl/maps/PNKoE3eGQAR2. Na roda, a experiência paulistana na elaboração do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca e a emergência dos movimentos culturais na conjuntura social e política brasileira. Compartilhe e participe!

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

São Paulo tem inédita Feira Literária na Zona Sul



Se ligaí! | É um momento muito propício para a vida literária na cidade de São Paulo. Exemplo disso é a inédita Felizs - Feira Literária da Zona Sul, iniciativa do Sarau do Binho & parceiros. A programação está espalhada em diversos espaços do Campo Limpo e região e tem lançamento de livro, apresentações musicais, conversas literárias, saraus, exposição, oficinas, etc. 


No dia 19, a partir das 13h, na Praça do Campo Limpo, participo da conversa literária "Mercado editorial, mídias alternativas e o Plano Municipal do Livro e Leitura de São Paulo" com Daniel Minchoni (Selo Burro), Berimba Jesus (Edições Maloqueirista), Elizandra Souza (Selo Mjiba), Haroldo Ceravolo (Opera Mundi) e Ricardo Queiroz (ECA/USP e assessor parlamentar para o livro e leitura). Confira a programação completa e participe: www.felizs.com.br

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

"Líquido estranho", um poema amargo




Líquido estranho

Nas ruas mais pobres da cidade
escorre um líquido estranho
na calçada, sarjeta e terra batida
Se no vento da noite, coagula... Se no calor do dia, resseca
O líquido que jorra de orifícios negros
deixa sua mancha vermelha por onde passa.

Cena débil nas ruas mais pobres da cidade
corpos caídos, olhos semi-abertos e bocas secas
O cheiro de pólvora perfuma o ar
e o odor de carne atingida a queima roupa
sufoca a garganta.

O líquido vermelho mata a sede dos carrascos
e banha em lágrimas o pranto dos aflitos.

Eis um líquido para que o vento coagule
Pra que os urubus observem, pra que a chuva apague
Pra que o sol resseque, pra que o chão suporte

Eis um estranho e amargo líquido.

Ruivo Lopes

domingo, 13 de setembro de 2015

O incentivo à leitura como política pública em SP



Distribuição de livros no Terminal Campo Limpo, zona sul de SP (Foto: Sarau do Binho)

O incentivo à leitura como política pública

Por Cristiane Gomes

Aprovado em 2011, o Plano Nacional do Livro e Leitura prevê que estados e municípios elaborem suas próprias políticas para a área; capital paulista está prestes a aprovar o seu.

A importância do conhecimento para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática e justa é algo que ninguém pode questionar. E nesta tarefa, o livro tem papel de protagonista. Por isso, se faz fundamental a existência de políticas públicas de incentivo à leitura e à manutenção de bibliotecas que, aliadas à educação e a cultura, possam fazer a diferença. Neste sentido, o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) foi instituído em 2011 pela presidenta Dilma Rousseff, como uma política de Estado cujo objetivo é nortear, de forma orgânica, políticas, programas, projetos e ações continuadas desen­volvidos no âmbito de ministérios – em particu­lar os da Cultura e da Educação – governos esta­duais e municipais, empresas públicas e privadas, organizações da sociedade e, em especial, todos os setores interessados no tema. O PNLL foi fruto de um amplo debate realizado em todo o país, envolvendo representantes de toda a rede produtiva do livro.

Como desdobramento do PNLL, os municípios e estados brasileiros tem a responsabilidade de produzir seus próprios planos. No que se refere ao estado de São Paulo, governado há 20 anos por um partido inimigo da educação (basta constatarmos a precária condição da rede estadual de ensino que teve como desdobramento a mais longa greve realizada pelos professores no começo de 2015), a questão está complicada. Diversos cortes do orçamento para a compra de livros para escolas do estado foram realizadas recentemente. “O Estado de São Paulo é refém de uma política cultural e educacional atrelada a objetivos pouco transparentes. Sabemos que revistas periódicas de baixíssima qualidade recebem dinheiro num volume espantoso, por meio de milhares de assinaturas, mas os recursos para aquisição de livros são baixos e, digamos, pouco democráticos pois priorizam apenas algumas editoras”, afirma Rogério Chaves, Secretário de Comunicação e Formação do SEEL, que destaca que o setor editorial de livros no Brasil tem ainda muito campo para desenvolvimento, mas que o fato dos Estados participarem com pouca intensidade é ruim para todos.

Mas a situação na cidade de São Paulo traz certo respiro e esperança na valorização do livro e da leitura como um dos instrumentos mais eficientes para concentração e difusão do conhecimento. A capital paulista está prestes a aprovar seu Plano Municipal do Livro Leitura Literatura e Bibliotecas, o PMLLLB.

Desde 2012, pessoas atuantes nas áreas da leitura, da literatura e do livro vêm discutindo uma política para o setor e a consequente necessidade de um plano municipal. Em abril de 2014, uma portaria intersecretarial publicada no Diário Oficial do Município constituiu o Grupo de Trabalho (GT) para elaborar o PMLLLB. Este GT foi composto por representantes do Executivo Municipal (Secretarias de Governo, Cultura, Educação e Direitos Humanos), da Câmara Municipal e da Sociedade Civil (ONGs, entidades de classe e militantes da leitura). Desde então, já foram realizados mais de 30 debates setoriais e muitas demandas, como reivindicações, propostas e sugestões para a composição do Plano,  vieram desses debates. Em abril deste ano, foram realizadas plenárias públicas com consultas à comunidade das seis regiões da cidade. O processo contou com uma ampla participação de representantes do movimento de literatura periférica da cidade, que conta com um movimento intenso de leitura nos saraus espalhados pelas quebradas paulistanas.

O educador e ativista cultural, Ruivo Lopes, lembra que, desde as iniciativas inovadoras no campo da cultura e educação promovidas pelo escritor Mário de Andrade, no começo do século 20, a cidade de São Paulo é pioneira em ações de acesso da população ao livro. Como a maior herança disso, ele destaca o pioneirismo dos ônibus-bibliotecas que, já na origem, disponibilizavam um acervo móvel mínimo para a população trabalhadora residente nos bairros mais distantes do centro da cidade. “Como tudo no Brasil, essas ações sofreram reveses, algumas acabaram e outras surgiram ao longo dos anos, como a discussão de políticas públicas de incentivo à leitura”, afirma o educador que representou no Grupo de Trabalho sobre a elaboração do PMLLLB, o segmento dos saraus literários espalhados pela cidade.

O PMLLLB da capital paulista inova ao incluir os saraus na elaboração de uma política pública específica que também leve em consideração o papel de formação literária que estes coletivos promovem, principalmente nas periferias da cidade. “É a primeira vez que São Paulo terá uma política pública exclusiva para o livro e a leitura, que promova a bibliodiversidade, reunindo todas as iniciativas já existentes, ampliando e melhorando o acesso, a produção, a mediação, equipamentos e a formação de público leitor. São Paulo não pode desperdiçar essa oportunidade de se tornar uma cidade leitora!”, conta Ruivo Lopes com entusiasmo.

“Nunca se erra quando se investe em ampliar o acesso ao conhecimento. O povo lê, sim, diferente do que o senso comum costuma repercutir. Tanto lê que a experiência dos jornais impressos gratuitos superam barbaramente as tiragens dos jornais convencionais. A experiência das bibliotecas comunitárias populares e do ônibus-biblioteca revelam êxito na ampliação do alcance”, acredita Rogério Chaves, Secretário de Comunicação e Formação do SEEL. A expectativa é que o PMLLLB seja discutido e votado pelos vereadores da Câmara Municipal em setembro.

Para nossa categoria, cerca de oito mil trabalhadores e trabalhadoras em todo o estado de São Paulo, a existência de uma política como o PMLLLB, além de trazer a alegria de contribuir com o cumprimento da função social do livro, se traduz também em melhores salários e condições de trabalho: mais livros produzidos, mais livros lidos. Claro que muitos desafios se apresentam, porém, eles existem justamente para serem superados. O Secretário de Comunicação e Formação do SEEL, Rogério Chaves destaca entre as prioridades de um plano como este, o aumento de tiragens e do investimento na distribuição nacional, valorização da bibliodiversidade e seus autores nativos, e a consequente redução do preço final do livro, para incentivar a leitura dos brasileiros. “Sabemos que em relação ao livro, a economia da cultura se faz com a associação de muitos elementos, entre autores, casas publicadoras, gráficas, papeleiros, distribuidoras, livrarias, bibliotecas, escolas, entre outros, mas fundamentalmente, com a relação primária do capital e da força de trabalho. E esta, a força-de-trabalho, quando mais qualificada e valorizada, só faz ampliar os horizontes de toda a sociedade”, afirma o secretário de comunicação e formação do SEEL.

Publicado originalmente em SEEL.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Festa Literária acontece em Cidade Tiradentes


Se ligaí! | Começa nesta sexta, dia 11, a 1ª Festa Literária de Cidade Tiradentes. No domingo, 13, às 16h, compartilho um diálogo com o meu amigo escritor Ademiro Alves (Sacolinha) sobre "Literatura Periférica ou Marginal?", no Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes (Rua Inácio Monteiro, n° 6.900, zona leste de SP). Confira a participação completa http://goo.gl/Rwk93d e participe!

"À deriva", um poema náufrago


Barco lotado de pessoas naufraga no Mar Mediterrâneo  


À deriva

Só tenho minha roupa,
crianças e mulher...
escombros em minhas costas
e a terra sob meus pés

Minha família eu entreguei
para um barqueiro oferecido
Meu dinheiro eu deixei
nas mãos de desconhecidos

A bordo de um bote inflável
foi lançado o meu destino
nas águas frias do Mediterrâneo
eis um novo clandestino

Se o mar for generoso
e a chuva cair amena
e ninguém se desesperar
com o choro das crianças,
sedentas e famintas,
e o bote não virar,
quem sabe
nossas vidas
não fique
no Gibraltar

Em meu país
já fui clandestino
Corri de belgas, franceses,
ingleses, espanhóis,
portugueses, estadunidenses

Corri de todos eles

Em minha cidade
já me iludi
com missões de paz,
liberdade e prosperidade
que fomentaram mais guerra

Me iludi com todas elas

Em minha vila
fui impedido de falar
Minha língua foi proibida
por outra ultramar

E agora não querem me escutar

Desejei a Primavera
renovada em Damasco
e amargurei um porvir
que nunca se realizou

Papel nenhum tem valor
quando se esta em alto mar
A lei num bote inflável é sobreviver
e chegar em paz em algum lugar

A noite turva o horizonte
A manhã lembra que ainda estamos vivos
O mar deixa o corpo salgado
e o sol deixa a pele queimada
A maresia é companheira de travessia

- Vão nos resgatar.
Alguém exclama baixinho
Talvez seja uma mãe
abraçada a seu filho,
talvez seja alguém
delirando nalgum canto

Se tivermos sorte
seremos resgatados com vida
já que a dignidade foi perdida
durante a noite... ou era dia?

O que devo dizer
se eu for resgatado?
Ajude-me... Aiutatemi
Eu sou como você... Yo soy como tú
Não sou terrorista... Ich bin kein Terrorist
Amigo... Ami

Um dia corri deles
e agora eles correm de mim
Me pegam com luvas nas mãos
Me tiram do inferno do mar
e me colocam no inferno da terra

Me chamam de clandestino,
sem papel, imigrante,
refugiado, sem destino
Nunca pelo meu nome

Acaso não tenho direito a um nome,
a uma genealogia, a memória
e lugar?

Todas as histórias que ouvi
de guerras e campos de concentração,
tudo o que me contaram os viajantes
sobre vagões lotados, frio e fome
tudo o que aprendi na escola
sobre liberdade, igualdade e fraternidade,
morreram na praia
como Aylan Kurdi

Terei forças para escalar o muro,
fugir dos cães e dos policiais?
Minha pele resistirá ao arame farpado?
Minha família terá a mesma sorte?

Nas estradas, trilhos e montanhas,
se meus pés aguentarem,
para onde me levarão?

Ouvi dizer que alguns foram abandonados
mortos trancados num baú de caminhão
faltou ar num ambiente sufocante
Mesmo mortos nos abandonam

Somos garrafas lançadas ao mar
Somos a mensagem em carne e osso
Somos fantasmas vagando na terra
Náufragos da civilização
Perdidos num túnel sem saída
Suplicando na porta da fortaleza

Enquanto levamos uma vida proibida
Turistas cruzam o Gibraltar

Os corações estão salgados
e nossa humanidade
está à deriva
em algum bote inflável
em alto mar


Ruivo Lopes


domingo, 6 de setembro de 2015

A universalidade dos versos em "Rua de Trás", da escritora Sonia Regina Bischain



Escrevi o texto a seguir exclusivamente para o Prefácio da 2ª edição do livro "Rua de Trás", da escritora Sonia Regina Bischain. O texto é fruto da leitura e audição da diversidade de vozes ainda silenciadas na literatura brasileira. Boa leitura!

Sonia Regina Bischain, Rua de Trás, 2ª Edição, São Paulo, Maio, 2015.

Prefácio por Ruivo Lopes

A literatura brasileira tem uma dívida com as mulheres. No campo literário, quando são autoras, as mulheres são invisibilizadas pela presença preponderante de autores homens. Nas obras escritas por autoras, as personagens mulheres além de protagonistas são também construídas sem os estereótipos que lhes são atribuídos frequentemente pelos autores homens. Quando são escritoras conscientes da ação cultural desempenhada pela literatura, as mulheres têm seu papel subvertido como quem deseja pela ficção transformar a realidade, assim, afirmam sua existência na busca pela visibilidade negada e o protagonismo na construção da sua própria dignidade. Visibilidade e protagonismo são elementos fundamentais para uma escrita libertadora.

O ato de escrever é também o de anunciar um mundo não só tal como ele é mas também como ele poderia ser. É o que faz a escritora Sonia Regina Bischain, em Rua de Trás, primeiro livro de poemas da autora publicado em 2009, em coautoria com a escritora Bárbara Lopes, e que agora tem a 2ª edição, além de autoral, revisitada e acrescida de poemas inéditos que revelam a maturidade de uma escritora que faz da literatura a extensão da própria vida.

Quero falar um pouco das pessoas
que conheci, que admirei
que me ensinaram a ser quem sou.
Não falo de coincidências ou mero acaso.
Mas sim, de fatos de fato.
Quero, portanto e apenas,
contar algumas histórias,
antes que se apague
toda a memória. (pág. 13)

Quando foi lançado em 2009, em tiragem modesta, no contexto dos saraus Poesia na Brasa e Elo da Corrente, localizados respectivamente nos bairros de Brasilândia e Pirituba, periferias das zonas Norte e Oeste de São Paulo, Rua de Trás revelava uma escritora sensivelmente humana, partícipe dos fatos, dedicada a vida e a sua gente. A humanidade é o fio condutor da poesia comprometida de Sônia Regina Bischain.

“procura-se: esperança, solidariedade,
bondade, confiança, generosidade”. (pág. 27)

Na primeira edição, a autora, além dos poemas, assina também o projeto gráfico, e nele imprime sua visão de mundo em fotomontagem que compõem a capa do livro. Nela, a cidade assume camadas sociais diferentes, sendo a base a estrutura típica dos centros urbanos representadas pelos edifícios verticalizados cujo colorido destaca esculturas de arte a céu aberto, ao fundo e se sobrepondo em maior escala aparece a típica paisagem das periferias cujas construções modestas beiram o córrego ao centro da imagem, sem colorido, só o contrates do preto e branco, assumindo o tom cinza e melancólico das margens da cidade. Coerente com a poética presente em cada um dos seus verso, Sonia Regina Bischain reserva a terceira e última camada da fotomontagem para um horizonte amarelado, sugerindo um entardecer de mais um dia suado, sucedido pelas esperanças cotidianas “do lado de cá do Tietê”, o rio que divide o Centro da Zona Norte paulistana. É no horizonte que está a redenção de quem encontrou morada na Rua de Trás.

Que acendam todas as luzes
da cultura, da educação, da saúde,
de todos os direitos elementares
de todos os homens.
Que seja dia!
Que venha o dia! (pág. 24)

Há algo incomum e também em comum na apresentação da primeira edição que permeia todo o livro. O incomum é o livro trazer duas apresentações, uma do poeta Vagner Souza, e outra da poeta Raquel Almeida, ambos integrantes dos  saraus já mencionados nesta nova apresentação. Em comum, estão os referenciais usados por ambos para situar o leitor e a leitora no livro. O lugar de fala da autora, a persistência dos sonhos ainda a se realizarem, a reivindicação da memória como condição de existência, a urgência dos tempos, a esperança de um futuro inevitável, as duras lições da história que unem e também separam gerações, são enunciados para a poética de Sonia Regina Bischain.

A 2ª edição de Rua de Trás vem de novo a lume após a autora ter publicado dois romances “Nem tudo é silêncio” (2010) e “Vale dos Atalhos” (2013). Os poemas acrescidos a esta nova edição foram escritos entre a publicação dos dois romances e apesar da diferença no gênero, é possível encontrar diálogo entre a prosa e a poesia da autora.

Como se já não bastasse a sensibilidade poética da autora na precisão do conteúdo e da forma dos seus versos, o que garante a ela uma estética própria, Sonia Regina Bischain provoca no leitor e na leitora a sensibilidade imagética das fotografias autorais, isso quando não promove o casamento do texto com a imagem, imprimindo seu olhar poético que enriquece o livro. Assim, as imagens parecem acolher o verso sobreposto e potencializado na leitura conjunta, um apelo à memória e ao não esquecimento.

De sorte algumas palavras
semeadas em campo fértil deram frutos, me
saciaram de beleza, me mataram a fome e a sede
de conhecimento, me encheram de esperança e
coragem. Passo adiante, a qualquer tempo:
palavras. Para quem quiser: palavras que
alimentam, fazem sonhar, e distraem o tempo. (pág. 14)

Na poesia de Sonia Regina Bischain os ninguéns da história são chamados pelos nomes “Carlos”, o jovem negro, órfão, pobre e lindo que morreu de meningite e “Leandro”, vitima do preconceito da nossa sociedade. A autora também rende sua femenagens a duas mulheres igualmente humanas, a cantora argentina Mercedes Sosa, a voz da latinoamerica, morta em 2009, e a médica brasileira Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança, morta em 2010, no terremoto que devastou Porto Príncipe, capital do Haiti. Há também odes a “Família”, iniciada com a trajetória de “Duas mulheres”, passa pela despedida de “Djalma”, até chegar no “Autoretrato” da autora.

O lugar também ocupa espaço basilar na poesia de Sonia Regina Bischain, misturando-se organicamente a autora. Ora ela remonta o espaço vivido como se fosse um quebra-cabeça em “Como era bela a rua de trás” (pág. 46) seguido de “A rua da frente e a rua de trás” (pág. 119). Ora é o lugar que localiza e, assim, remonta a vida da autora.

Firmei minhas raízes
planto palavras
Aqui, neste meu lugar  (pág. 87).

Enfim, eis a poesia de Sonia Regina Bischain, ancorada nos sonhos e esperanças que nasceram no breve e intenso século XX - alguns poemas datados ainda da conturbada e dura década de 70, outros das décadas seguintes, lembrando um tempo que continua hostil a utopia e ao novo -, permanecem vivos e pulsantes neste limiar do século XXI, ainda fértil de possibilidades no horizonte.

Ao versar a Rua de Trás, Sonia Regina Bischain é universal!

Adquirira seu exemplar diretamente com a autora: soniabischain@hotmail.com

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Câmara de São Paulo promove audiência pública sobre o Plano Municipal sobre o Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca


No dia 27 de agosto, às 19h, acontece na Câmara Municipal, audiência pública sobre o Projeto de Lei (PL) 168/2010 que cria o Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca de São Paulo, apresentado pelo vereador Antonio Donato (PT) e elaborado de forma participativa, democrática e popular pela sociedade e poder público. Acesse o PL aqui http://goo.gl/Zf0lkY e o PMLLLB aqui http://goo.gl/fGTE1F Compartilhe e participe!

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Contra a redução: menos celas, mais escolas!


Aconteceu! | Sábado (15), na Praça do Campo Limpo, zona sul de SP, o evento comunitário e cultural organizado pela MSE (Medida Sócio Educativa) do Campo Limpo, para dialogar sobre os direitos humanos da criança e do adolescente. 




 



 




Na ocasião, diversos artistas da cultura popular aproveitaram para mandar seu recado de que são contra o retrocesso da redução da maioridade penal! 



 










                                                          


sábado, 15 de agosto de 2015

Na zona sul de SP, programação debate problemas da redução da maioridade penal


Se ligaí! | Acontece hoje (15), a partir das 10h, este evento comunitário sobre a redução da maioridade penal na Praça do Campo Limpo (próximo ao Terminal Campo Limpo), zona sul de SP. Confira a programação e participe!

terça-feira, 21 de julho de 2015

A periferia nas ondas da Rádio Heliópolis recebe o rapper, educador e jornalista Netão Influência



Se ligaí! | Apresento hoje (21), às 16h, o programa Agenda Cultural da Periferia, na Rádio Heliópolis FM e recebo o rapper, educador e jornalista Netão Influência (Influência Positiva) que busca inspiração em Paulo Freire para ensinar com RAP. 


Ideias, música e dicas culturais das quebradas do mundaréu. Tem dica cultural? Madaí (atividade, data, hora e local detalhados) e ouça pela internet: www.radioheliopolisfm.com.br ou sintonize 87,5 FM nas imediações da comunidade!

domingo, 19 de julho de 2015

São Bernardo do Campo prepara Conferência e planos municipais de Cultura e do Livro e Leitura


 
Aconteceu! |  Sábado (18), na Biblioteca Municipal Monteiro Lobato, em São Bernardo do Campo, o encontro Escritores da Cidade para abordar a experiência de construção do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca de São Paulo, com Ricardo Queiroz e Ruivo Lopes, ambos integraram o Grupo de Trabalho do PMLLLB de SP


Neste momento, São Bernardo do Campo, região do ABCD paulista, esta em plena mobilização para preparar a Conferência Municipal de Cultura e seus planos municipais de Cultura (2015) e do Livro e Leitura (2016).

sábado, 18 de julho de 2015

Em São Bernardo do Campo, Escritores da Cidade abordam políticas para o Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca para a Cidade


Se ligaí, São Bernardo do Campo! | Acontece neste sábado, dia 18, às 15h, na Biblioteca Monteiro Lobato (Rua Jurubatuba, nº 1.415, Centro), o encontro Escritores da Cidade para abordar a experiência de construção do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca de São Paulo, com Ricardo Queiroz e Ruivo Lopes, ambos integraram o Grupo de Trabalho do PMLLLB de SP. Participe, sua cidade também precisa do seu próprio Plano do Livro e Leitura!

Semana de Mobilização dos Direitos da Criança e do Adolescente


#‎ContraaRedução‬! | Ruivo Lopes tá na SEMANCA - Semana de Mobilização dos Direitos da Criança e do Adolescente, organizada pelo Cedeca Interlagos, no Circo Escola Grajaú, zona sul de SP.

 
Na roda os "25 anos do ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente". Em cena, o caso Bernardinho, criança negra de 12 anos, engraxate, preso e estuprado em cadeia do Rio de Janeiro, em 1927, cuja repercussão foi responsável por fixar a idade penal em 18 anos. O Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade Racial (2014), o Mapa da Violência (2015) e o Mapa do Encarceramento no Brasil (2015) confirmam que os jovens negros, pobres, moradores das periferias são ao mesmo tempo vítimas e penalizados pela ação e omissão do Estado brasileiro em relação aos direitos humanos da Juventude. Basta! [Foto Raonna Martins]

sábado, 20 de junho de 2015

Camará de ritmo e poesia


Programação completa do Palco Sarau: http://goo.gl/OZRsLN



Camará de ritmo e poesia.

Começa hoje, dia 20, a Virada Cultural, tradicional evento de apresentações artísticas espalhado por toda a cidade de São Paulo. A partir das 18h, quando você e eu não estivermos em algum palco, empunhando um poderoso microfone, ampliando a voz, os versos e as ideias, certamente estaremos misturados entre o público, traficando informação, com livros nas mãos, nas sacolas ou nas mochilas, nossas livrarias ambulantes de cada dia.

Esta mensagem é para você que nas próximas 24 horas vai estar sobre algum palco ou na rua.

O Brasil, este país de contrastes, tem sido palco de uma onda hostil aos Direitos Humanos, especialmente aos das mulheres, da população LGBT e principalmente da Juventude, a maior vitima da violência de Estado e do racismo que atingem negros, pobres e moradores das periferias brasileiras. São Paulo, a Capital mais rica do país, e por isso mesmo muito desigual, é um bastião do conservadorismo. Enquanto no Congresso Nacional políticos covardes se esforçam para aprovar leis que ferem os Direitos Humanos, como a redução da maioridade penal, na Câmara Municipal de São Paulo, outros políticos apequenados retiraram do texto do Plano Municipal de Educação, que valerá para a próxima década, as menções sobre abordagens de gênero e diversidade nas escolas municipais, violando os direitos das crianças de refletirem sobre o sexismo, o machismo e a LGBTfobia. Um verdadeiro retrocesso, marcha ré, atraso promovido por políticos covardes apoiados por uma turba de teleguiados que se pudessem instalariam pelourinhos em praça pública.
 
Nossos ritmos e poesias foram salgados pelo Atlântico, nossos versos foram escritos com sangue e suor que ainda mantém úmida cada palmo de chão desta terra, nossas batidas assustam o velho e anunciam o novo. Somos temidos porque somos o que somos, corpos livres e rebeldes!
 
Cultura e arte também são dimensões políticas. Nesta Virada Cultural, camará, quando você estiver com um poderoso microfone na mão, diante de um público que irá ouvi-lo, ser teu cúmplice, não tenha dúvida, pense nos humilhados e ofendidos desta terra, fale em defesa deles. A Virada Cultural tem só 24 horas, as violações de Direitos Humanos são cotidianas. Ou colocamos um fim nas violações de Direitos Humanos ou elas colocarão um fim na gente. 

Camará, de que lado você vai sambar?

Nos vemos nas ruas!

domingo, 7 de junho de 2015

Movimento Negro dá recado: a luta não acabou!

Brasil de Fato, 14/05/2015

Em ato do 13 de maio, Movimento Negro dá recado: a luta não acabou!

Manifestação reuniu diversas entidades que denunciaram o racismo, pautaram a necessidade das cotas raciais nas universidades e instituições públicas e a luta contra a redução da maioridade penal

Por Simone Freire, de São Paulo (SP)

Cartazes, bandeiras, palavras de ordem e dezenas de pessoas levaram uma mensagem às ruas nesta quarta-feira (13), no centro de São Paulo: a luta do negro no Brasil não acabou após a Lei Áurea, que concedeu liberdade aos escravos em 1888.

O "13 de Maio de Luta" reuniu entidades do movimento negro, como Uneafro e rede Emancipa, movimentos como o Levante Popular da Juventude e integrantes da rede de cursinhos populares, professores e estudantes.

A manifestação saiu do Largo da Batata, na região oeste da capital, ocupou uma das faixas da Avenida Rebouças, e se dirigiu para a Universidade de São Paulo (USP). O ato seguiu pelo interior da universidade até à frente da Faculdade de Economia e Administração (FEA), onde foi realizada uma assembleia.

Pós-abolição

As falas dos participantes salientaram que, além do 13 de maio, o 14 de maio, primeiro dia pós-abolição, foi o mais importante para a luta afrodescente, uma vez que milhares de negros e negras se viram desamparados pelo Estado e pela sociedade, precisando buscar formas de sobrevivência e de conquistar seus direitos.

É o que aponta o educador e integrante do Coletivo Literário Perifatividade, Ruivo Lopes. Segundo ele, o dia 14 de maio já dura mais de cem anos, pois "junto com a abolição da escravatura não veio a restituição das terras que foram roubadas, não veio a restituição de todo o trabalho empreendido durante a escravidão no país, que ajudou a construir toda a sua riqueza. Até hoje esta luta pela reparação histórica é permanente".


Estatísticas e episódios rotineiros de racismo comprovam que é negada à população negra as mesmas condições de vida na sociedade. Para Wagner Tito, do coletivo de Esquerda Força Ativa, o que o Brasil vive hoje é uma abolição inacabada.

"Ainda vivemos no 14 de maio porque o Brasil tem uma dívida histórica com o nosso povo. Não adianta achar que nós somos libertados, livres porque em uma sociedade escravista, capitalista e machista, nós temos que lutar contra todas as formas de opressão. E a luta contra o racismo se faz fundamental. Seja você branco ou negro, independente de etnia, a luta contra o racismo é uma luta de humanos contra esta doença que não precisa existir", apontou.

Genocídio

Cantando "Acabou o amor, vai ter cotas na USP, sim senhor", o movimento negro também levou para às ruas, nesta quarta-feira, a necessidade das cotas raciais nas universidades e instituições públicas. 

Foi este o principal apontamento feito por Milton Barbosa, um dos fundadores do Movimento Negro Unificado (MNU), que foi ovacionado pelos manifestantes. "A universidade pública não pode ser só para brancos e ricos", disse.

A luta pela não redução da maioridade penal e contra os projetos de ampliar as terceirizações no país também foram lembradas na marcha, além da denúncia do genocídio da juventude negra em favelas e periferias das cidades.

Cláudia Silva, empregada doméstica; Amarildo, ajudante de pedreiro; Douglas (DG), dançarino, e as centenas de vítimas assassinadas todos os anos pela Polícia Militar, foram evocados durante todo o trajeto.
 

"Se bandido bom é bandido morto, por que Alckmim, Maluf, família Saney, ainda concentram riqueza e estão vivos?", ironizou uma das integrantes do Levante Popular da Juventude ao microfone.

Fundado por funcionários, estudantes e professores em 13 de maio de 1987, o Núcleo de Consciência Negra da USP (NCN) também foi parabenizado. Maria José Menezes, coordenadora do NCN, fez questão de lembrar da importância de se resgatar e destruir os estereótipos atribuídos à cultura e tradição dos negros.

"Nós civilizamos o mundo, somos os pensadores. Nós precisamos nos apoderar desse conhecimento e mostrar para nossos jovens", disse. 

Fotos: Simone Freire

Publicado originalmente em Brasil de Fato

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Dona Selma Maria de Jesus ou simplesmente Carolina!


Dona Selma, no Sarau União das Vilas, zona leste de SP

Recentemente, estive no Seminário Territorialidades de Carolina, organizado pela escritora Cidinha da Silva e pelo padre Mauro Luis da Silva, no Museu de Quilombos e Favelas Urbanos (MUQUIFU), localizado no Morro do Papagaio, em Belo Horizonte (MG). Minha participação foi provocada pelo tema "Carolina, escritora e catadora dos anos 1950 e sua relação com as catadoras de material reciclável do século XXI".

Carolina Maria de Jesus, mulher, negra, mãe que durante muitos anos sustentou a si e os filhos catando papel e vivendo na extinta favela do Canindé, na contramão do seletivo progresso paulista, então a todo vapor no início dos anos 1950 do século passado.

Invejável escritora, fenômeno de vendas no Brasil e no exterior na década seguinte, Carolina não catava só papel, catava também livro, fazia leitura e devolvia em forma de literatura a sua história e os pedaços das histórias da sua gente.

O "diário de uma favelada" de Carolina Maria de Jesus despertou a curiosidade mórbida da elite paulista por revelar segredos do "Quarto de despejo", o "exótico" cotidiano popular na literatura da época, escrito na primeira pessoa, desprezado na "sala de estar" do lado rico da cidade de São Paulo.

No Brasil do século XXI, na contramão do desenvolvimento graúdo, estima-se que há entre 400 mil e 600 mil catadoras e catadores que vivem da coleta de materiais recicláveis, dos quais uma parcela significativa é composta por mulheres, negras, mães, empobrecidas e moradoras das periferias dos grandes centros urbanos.

Particularmente, no caso das mulheres, donas de casa e chefes de família, elas catam mais do que materiais recicláveis, recolhem também pedaços da própria dignidade espoliada pelos efeitos da exclusão e como Carolina também "sonham" com um vida melhor.

Dona Selma era mulher de fé e catadora com muita dignidade, fazia parte da Cooperativa de Reciclagem Nova Esperança, na periferia da zona leste da Capital mais rica do país. Na vida, ela praticava o cooperativismo que tinha mudado a vida dela e de tantas outras pessoas Brasil afora que sustentam suas famílias em Cooperativas de Reciclagem espalhadas pelo país. Uma revolução silenciosa composta por laços de solidariedade e apoio mútuo, lemas do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, um dos movimentos sociais mais importantes hoje no país.

Dos tempos da favela do Canindé para as Cooperativas de Reciclagem de hoje muita coisa mudou. Se estivesse viva, Carolina incluiria os nomes de muitos políticos mesquinhos e "gente de bens" nos seus diários. Dona Selma tinha fé que catadores e catadoras de materiais recicláveis ocupam um lugar digno na sociedade brasileira, mesmo com todas as dificuldades, e ajudam a escrever a história de um Brasil mais justo, mais igualitário e com menos exclusão.

Dona Selma chamava-se Selma Maria da Silva e também era uma Carolina!

domingo, 17 de maio de 2015

Em BH, Museu de Quilombos e Favelas Urbanos promove programação para abordar Carolina Maria de Jesus, memória e sustentabilidade na 13ª Semana Nacional de Museus



No período de 18 a 24 de maio de 2015, o Museu de Quilombos e Favelas Urbanos (MUQUIFU) promove atividades que ativam discussões sobre a valorização da memória dos favelados no processo de manutenção da sustentabilidade sociocultural, ambiental e econômica durante a 13ª Semana de Museus de 2015. Promovida pelo IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus), a edição deste ano tem como tema “Museus para uma sociedade sustentável”.

“É muito importante que eventos como a Semana de Museus chamem atenção para locais como o MUQUIFU, que fica na favela e trata de assuntos da favela. Isso muda a percepção de que museu é só pra guardar riquezas materiais e aproxima a sociedade da memória, das histórias e das vivências de quem mora logo ao lado, mas não é visto nem ouvido.” Afirma Padre Mauro, diretor e curador do Muquifu.

Salve a Esperança: Fé, Memória e Resistência
Sempre trazendo o debate em torno de uma sociedade mais igualitária, com condições de crescimento para áreas tradicionalmente alvos do processo de gentrificação (enobrecimento), o MUQUIFU inicia sua programação centrada nos desdobramentos da ausência de políticas públicas capazes de manter as edificações e memórias da Vila Esperança. Esta é uma das vilas a serem demolidas na região do Aglomerado Santa Lúcia para dar lugar a construções do Vila Viva, programa da prefeitura de Belo Horizonte. A fim de que seja preservada a memória dos que ali viveram, o MUQUIFU quer manter a capela da Vila Esperança como memorial. Exposições, mostras e palestras estão previstas para tratar do tema no início da semana.

Inauguração da sala Carolina de Jesus e seminário com curadoria de Cidinha da Silva
 O seminário “Territorialidades de Carolina” tem início no dia 22 de maio, sexta-feira, e inaugura a sala Carolina Maria de Jesus no MUQUIFU. O espaço tem como foco o pensamento da mulher brasileira, negra e de origem pobre sobre a sociedade em que está inserida. Palestras, rodas de conversa e uma oficina de bonecas de pano estão previstas na programação para o seminário que ocorre no fim da 13ª Semana de Museus.

Confira a programação completa para os 7 dias de eventos no MUQUIFU:

18/05 – Segunda-feira - MUQUIFU – Esperança (Beco Santa Beira Rio, 110 – Vila Esperança)

  • 10:00 – Abertura da Mostra “Esperança em ruinas” – Curadoria: Luciana Campos Horta
Onde antes haviam casas e sonhos encontramos apenas escombros que testemunham a ausência de políticas públicas que respeitem a memórias dos favelados. A Vila Esperança é hoje uma vila fantasma que, durante a 13 semana de museus será destino para quem desejar entender o processo de gentrificação que historicamente expulsa os negros e pobres dos centros urbanos.
  • 11:00 – Museus para uma Sociedade Sustentável – Angelo Oswaldo - Secretário de Cultura do Estado de Minas  Minas Gerais. Qual a relevância do tema da 13ª Semana de Museus para os moradores das Vilas e Favelas de Minas Gerais? Quais as propostas da Secretaria de Cultura para a preservação da Memória das favelas? A sustentabilidade como um dos grandes desafios da vida contemporânea, principalmente o uso cauteloso dos recursos planetários, naturais ou não, respeitando os sistemas biológicos e o equilíbrio entre o meio ambiente e as comunidades humanas.
  • 11:30 – Salve a Esperança: Fé, Memória e Resistência! – Mauro Luiz da Silva - Pároco do Aglomerado Santa Lúcia, Diretor e Curador do Muquifu. Qual é o papel do MUQUIFU na conscientização o organização da população favelada a respeito do seu patrimônio e memória?  Padre Mauro aborda o tema da sustentabilidade sociocultural bem como o fortalecimento das tradições locais, da identidade e dos laços de pertencimento; analisa a atuação do Programa Vila Viva e a desvalorização da memória e do patrimônio dos favelados por parte do poder público.
  • 11:45 – Um outro olhar sobre os escombros – Rosa Maria Corrêa - Coordenadora do Núcleo de Inclusão e Direitos Humanos e Inclusão da PUC – MINAS. Os escombros representam apenas destruição, esquecimento, extinção? Professora Rosa mostra   que os escombros representam um mundo que ruiu e que foi destruído, mas ao mesmo tempo aponta para a desagregação do mundo em que vivemos e das varias possibilidades de resistência, luta e reconstruções que o ser humano é capaz. 
  • 12:00 – Abaixo Assinado: Salve a Esperança

Entrega simbólica do Abaixo Assinado – Salve a Esperança – aos órgãos competentes, reivindicando a  preservação do patrimônio e da memória dos favelados e a preservação do Memorial da Esperança.


19/05 -Terça-feira - MUQUIFU – Estrela (Rua Santo Antônio do Monte, 708 – Vila Estrela)

  • 17:00 - Abertura da Exposição dos Estandartes de Marcial Ávila.
  • 19:00 - Missa da Grande Árvore. Reflexão sobre a possibilidade de vivermos em equilíbrio com os
recursos disponíveis, de modo a oferecer ao planeta tanto quanto retiramos dele. Uma das possibilidades de aplicação dessa perspectiva é o aperfeiçoamento da gestão museológica sustentável. Padre Mauro conta a história da Grande Árvore da Vila Estrela. 
  • 20:00 - Chá da Dona Jovem: Padre Mauro e os artistas Fabiano Valentino (Pelé) e Cleiton Gomes da Silva apresentam a proposta iconográfica para a Igreja dos Santos Pretos às mulheres da Vila Estrela.

20/05 – Quarta-feira - MUQUIFU – Estrela (Rua Santo Antônio do Monte, 708 – Vila Estrela) 
   
  • 14:00 - Palestra: Preservação do Acervo – Fotografia como suporte da memória (profa. Gabriela Lima Gomes, do curso de Museologia da UFOP). Tem como objetivo conscientização sobre corresponsabilidade individual para a construção da coletividade e a importância da participação comunitária.
  • 15:00 - Oficina sobre conservação de acervo fotográfico (Profa. Gabriela e Dalva Pereira).

21/05 - Quinta-feira - MUQUIFU – Santa Lúcia (Rua Principal, 208 – Barragem Santa Lúcia)

  • 14:00 - Oficina de Bonecas de Pano - Vagas Limitadas
  • 17:00 - Palestra: Helielcio Vieira (Secretário de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura Municipal de Mariana). A sustentabilidade econômica do Muquifu. Aborda a questão da distribuição de renda mais igualitária e a diminuição das diferenças sociais, com participação e organização popular.
  • 18:00 - Coquetel de Inauguração da nova Loja do Muquifu. Local: Rua Principal, 321 – Barragem Santa Lúcia. A Loja do Muquifu expõe e vende artigos produzidos pelos próprios moradores, além de outros produtos correlatos.

22/05 – Sexta-feira - MUQUIFU – Estrela (Rua Santo Antônio do Monte, 708 – Vila Estrela)

  • 9:00 – 18:00 - SEMINÁRIO: TERRITORIALIDADES DE CAROLINA(Curadoria: Cidinha da Silva) 
  • 18:00 - Oficina: Boneca negra e identidade com Jaciana Melquíades – artista visual e criadora de bonecas negras. (máximo 30 participantes)

23/05 – Sábado - MUQUIFU Capela Santa Lúcia (Rua Principal, 208 – Barragem Santa Lúcia)

  • 9:00 – 18:00 - SEMINÁRIO: TERRITORIALIDADES DE CAROLINA
  • 10:00 - Oficina: Da casa para o lixo. Do lixo para a Arte!

Reflexão sobre a possibilidade de podermos viver em equilíbrio com os recursos disponíveis, de modo a oferecer ao planeta tanto quanto retiramos dele. Uma das possibilidades de aplicação dessa perspectiva é o aperfeiçoamento da gestão museológica sustentável.

  • 10:00 - Oficina: Onde você esconde o seu racismo? Cabelo bom é cabelo liso?

Tem o objetivo de abordar a imposição do padrão de beleza europeu no Brasil, já que nos dias atuais, existe uma verdadeira obsessão por cabelos esticados e pelo “embranquecimento” da cor da pele. Como muitos ainda acreditam que a única opção para uma boa aparência é o cabelo liso, esta oficina vem para (com)partilhar ideias sobre as diferentes opções de penteado, turbantes, estilos e cuidados destinados aos cabelos crespos e suas variedades. Coordenação: Lucas Henrique de Almeida Amorim.

  • 18:00 - Sarau literário/musical – Encerramento do Seminário, Lançamento de Livros e Chá da Dona Jovem. Apresentação musical (Piano e Voz) Padre Mauro, diretor e curador do Muquifu, conta e canta a história das Favelas. Entrada Franca, espaço limitado a 100 pessoas.

24/05    Domingo - MUQUIFU – Sede (Beco Santa Inês, 30 – Barragem Santa Lúcia)

  • 14:00 - Abertura da Exposição “Mapa Gastronômico Morro do Papagaio”

Fruto de seis meses de pesquisa, de Bianca de Sá e Mariana Zande, a exposição “Mapa Gastronômico Morro do Papagaio” reúne os resultados do mapeamento de pessoas da comunidade que são referência local por seus talentos culinários, além daquelas que possuem em suas casas hortas, pomares ou quaisquer outras formas de cultivo de alimentos.

  • 14:00 – Roda de conversa “Mapa Gastronômico Morro do Papagaio”
Na ocasião do lançamento da exposição “Mapa Gastronômico Morro do Papagaio”, será realizada uma roda de conversa com o público espontâneo e convidados. Bianca de Sá e Mariana Zande compartilharão a vivência da pesquisa que originou a exposição e orientarão um bate-papo sobre o tema. Moradores participantes da pesquisa serão convidados para também partilhar suas experiências e trocar conhecimentos.


SEMINÁRIO: TERRITORIALIDADES DE CAROLINA (Curadoria: Cidinha da Silva)


22/05 – Sexta-feira - MUQUIFU – Estrela (Rua Santo Antônio do Monte, 708 – Vila Estrela)

  • 9:00 – Abertura: Apresentação da sala Carolina Maria de Jesus – Padre Mauro Luiz Silva – diretor e curador do MUQUIFU 
  • 9:30 – 12:00 – Roda de Conversa

Carolina escrita - Elzira Divina Perpétua:  professora do curso de Letras da Universidade Federal de Ouro Preto, autora de “A vida escrita de Carolina Maria de Jesus”

Leitura literária de Carolina Maria de Jesus - Mariana Santos de Assis: mestre em Linguística Aplicada pela UNICAMP
  • 14:30 – 17:30 
A produção musical de Carolina Maria de Jesus – Adélcio Souza Cruz – Professor de Teoria da Literatura na Universidade Federal de Viçosa, autor de “Narrativas contemporâneas da violência”. 
A poética de Carolina Maria de Jesus – Lívia Natália: poeta, autora dos livros de poesia “Água Negra” (Prêmio Banco Capital de poesia – 2011) e “Correntezas e Outros Estudos Marinhos”. Professora Adjunta de Teoria da Literatura da Universidade Federal da Bahia.
  • 18:00 – 21:00 – Oficina: Boneca negra e identidade (máximo 30 participantes) com Jaciana Melquíades – artista visual e criadora de bonecas negras

23/05 – Sábado - MUQUIFU – Estrela (Rua Santo Antônio do Monte, 708 – Vila Estrela)
  • 9:00 – 12:00 
A recepção literária de Carolina Maria de Jesus na Alemanha – Raquel  Alves dos Santos – mestranda em tradução Alemão / Português – Universidade de São Paulo
Turismo cultural via literatura em Parelheiros – SP, onde Carolina viveu os últimos anos – Bel Santos Mayer – educadora social. Coordena o Programa de Direitos Humanos do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário – Ibeac / SP.

  • 14:30 - 17:30 Carolina, escritora e catadora dos anos 1960 e sua relação com as catadoras de material reciclável do século XXI Ruivo Lopes – poeta  e educador

Carolina Maria de Jesus: inspiração para mulheres negras brasileiras ao longo de um século (1914-2015) – Vilma Reis, socióloga, ativista dos movimentos negro e feminista, ouvidora geral eleita da Defensoria Pública do Estado da Bahia. 
  • 18:00 – 21:00 
Sarau literário/musical - Encerramento do Seminário, Lançamento de Livros e Chá da Dona Jovem

Apresentação musical (Piano e Voz) – Padre Mauro, diretor e curador do Muquifu, conta e canta a história das Favelas. Entrada Franca, espaço limitado a 100 pessoas.

Visite a página e conheça o MUQUIFU - Museu de Quilombos e Favelas Urbanos!