quarta-feira, 27 de abril de 2016

Por que escrevo poemas?


[Foto Sergio Silva/Ponte Jornalismo] 

Por que escrevo poemas?

Certa vez, me perguntaram, por que eu escrevo poemas que versam sobre a morte. Confesso que eu não havia pensado na questão. Tampouco, faço isso de caso pensado. Apenas, atingido pelos fatos e na impossibilidade de mudá-los na velocidade em que tragicamente acontecem, recorro aos versos, mesmo quando me faltam as palavras. 

O Estado e a sociedade brasileiras são profundamente marcados pelas várias formas de violências. A diferença é que o Estado quando as pratica, assim o faz em nome da coletividade. Daí a gravidade da violência de Estado, ou seja, em meu e em seu nome. Já a sociedade, age conforme interesses e convicções próprios e não menos violenta. Ambos se retroalimentam. Racismo, LGBTfobia, xenofobia, misoginia, sexismo, discriminação de classe econômicas, intolerância religiosa e outras formas de opressão - às vezes até "sutis", mas não menos violentas -, parecem cada vez mais naturalizadas, como parte da paisagem ou do cotidiano. 

Devo afirmar: me recuso naturalizar o mal. Assim, a pergunta não é por que escrevo poemas que versam sobre a morte, mas por quem escrevo poemas. Escrevo poemas por quem teve ceifada a poesia da vida, por Deboras e Luanas. E ao escrever poemas assim, registro na história história existências anônimas, luto contra o esquecimento e preservo a memória incomoda de quem não receberá nome de praça, rua ou avenida. 

Meus poemas não versam sobre a morte. A morte é o triste fato que se sobrepõe ao valor inalienável da vida digna. Meus versos nos lembram em praça pública que se ainda estamos vivos devemos nos indignar com a morte e a barbárie que atinge todos os dias as gentes oprimidas neste país, onde a injustiça ainda é regra. Por isso, escrevo poemas!

2 comentários:

Abia Martinho disse...

Continue a escrever meu caro!

Abia Martinho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.