domingo, 17 de fevereiro de 2013

Dez faces leais: a luta pelos Direitos Humanos no Brasil

 

A Organização das Nações Unidas (ONU) no Brasil lançou recentemente uma publicação chamada Dez faces da luta pelos Direitos Humanos no Brasil que destaca a luta de homens e mulheres em defesa dos direitos humanos no país. Nela, é possível conferir o perfil de lutadores e lutadoras, as causas que defendem e, por outro lado, o incômodo daqueles que defendem somente interesses próprios.

Sete homens e 3 mulheres com atuação em diferentes estados e causas sociais. São lideranças de comunidades tradicionais de pescadores, indígenas, quilombolas, sem terra e defensores de direitos como a moradia e criança e adolescente. Também faz parte do grupo um juiz. Em comum, a ameaça de morte que o grupo recebeu por defender os direitos humanos em suas comunidades. Ameaça que obrigou o grupo a mudar de vida ao fazer parte do Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos. Alguns deles viram a morte de perto quando amigos e parentes foram assassinados.

Chama atenção que a luta pelo direito a terra e teto seja o principal motivo das ameaças de morte da maioria dos defensores e defensoras dos direitos humanos que estão na publicação. Mostrando que poderosos grupos políticos e econômicos controlam militar ou paramilitarmente os negócios vinculados ao acúmulo de terra no campo e a especulação imobiliária nas cidades.

São apenas 10 histórias, certamente há muito mais espalhadas por todo o país. Porém, são suficientes para mostrar que lutar no Brasil em defesa dos direitos humanos da população historicamente marginalizada pelas elites pode custar a própria vida.

Leia abaixo um resumo das 10 histórias.

Alexandre Anderson de Souza
Alexandre Anderson de Souza“Eu agradeço a vida a cada dia que acordo, porque talvez um dia eu não acorde mais.”

Desde 2003, o pescador Alexandre Anderson de Souza vem travando uma batalha em favor da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, e de comunidades de pesca artesanais que vivem do que a baía tem para oferecer, frente à construção de empreendimentos petroquímicos que afetam o meio ambiente local. “Estamos pescando 80% menos em relação ao final dos anos 90”, diz com base em um mapa participativo que ajudou a construir com a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em função das tentativas de reverter esse quadro, fala que já sofreu seis atentados e teve quatro companheiros mortos. Alexandre é fundador e presidente da Associação dos Homens do Mar do Rio de Janeiro (Ahomar), com quase dois mil associados em sete municípios e mais de quatro mil pescadores representados. Montou um sindicato de pesca no estado e sonha em criar a primeira confederação nacional de pescadores artesanais no país.

Eliseu Lopes
Eliseu Lopes“Mesmo com perseguições, com a falta de condições, a luta não está parada, estamos buscando nossos direitos.”

O Guarani-Kaiowá Eliseu Lopes começou a se envolver com as questões indígenas em 2003, quando se tornou professor da aldeia de Taquapiri, no Mato Grosso do Sul. Mais tarde, passou a ser porta-voz do Movimento Aty Guasu, que reúne os Guarani-Kaiowá, e se engajou na luta pela recuperação da terra que historicamente pertencia a seus antepassados e no apoio a lideranças nos outros 35 acampamentos indígenas do estado. “Eu estava vendo muita liderança ser morta, meus parentes e minha família de sangue sofrendo, acampados à beira de uma rodovia federal esperando uma demarcação de terras que nunca acontece (…). Nós não usamos violência, mas continuamos sofrendo violência, atentados, assassinatos.” Atualmente em Brasília, como coordenador de mobilização da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, o defensor atua com questões indígenas de todo o país. Enquanto estava na base, não podia ficar muito tempo em uma aldeia só. “É uma situação difícil, existe medo, porque não temos para onde correr. Por isso temos que enfrentar essa vida, não tem alternativa, temos que buscar o que é nosso.”

Evane Lopes
Evane Lopes“‘Mãe, eu não queria morrer com 12 anos.’ Isso parte o coração de uma mãe.”

Evane Lopes protagonizou uma série de ações em prol da comunidade quilombola de São Domingos e de outras quatro comunidades da região de Paracatu (MG), noroeste de Minas Gerais, onde a mineração e o latifúndio têm papel influente na política de municípios. Conseguiu garantir direitos básicos para a população quilombola, exigir reparação de uma grande empresa que atua no local e levar as cinco comunidades da região para conversar com a Presidência da República. Também ganhou projeção como defensora de direitos: em setembro de 2012, foi selecionada para integrar o Grupo Nacional Assessor da Sociedade Civil da ONU Mulheres. Casada desde os 17 anos e com três filhas, em 2012 Evane se viu ameaçada de morte por causa de sua atuação. Mas não pensa em parar de atuar. “Eu não vou mentir: tive receio pela minha família, que é o meu tesouro. Minha filha chegou a me dizer: “Mãe, eu não queria morrer com 12 anos”. Isso parte o coração de uma mãe. Mas ainda assim eu tenho o apoio da minha família, eu nunca passei para elas que lutar por um ideal é ruim.”

Gleydson Gleber Bento Alves de Lima Pinheiro
Gleydson Gleber Bento Alves de Lima Pinheiro“A vida são princípios, são valores. Você pesa tudo e define o que quer.”

O juiz Gleydson Gleber, da 3ª Vara Criminal de Caruaru, uma cidade de 350 mil habitantes do Agreste pernambucano, foi o principal juiz da primeira grande operação contra o crime organizado de extermínio no país, em 2007. Mesmo sob riscos e ameaças, ajudou a desmantelar um esquema poderoso, que era responsável por um terço dos homicídios na cidade. “De 180 [homicídios por ano], nós passamos para 120 homicídios no ano de 2007, índice que conseguimos segurar até hoje. E neste ano [ de 2012], de abril a final de junho nós não tivemos homicídios na cidade, passaram-se três meses sem homicídio.” Gleydson afirma que sua atuação é a favor da vida e acredita que nos casos referentes a direitos humanos, o papel da justiça é aplicar a lei, e não ir aquém – abrandando penas – ou além –, fazendo justiçamento. E aplica o princípio de que todos têm direito a um bom tratamento durante o julgamento.


João Luís Joventino do Nascimento (João do Cumbe)
                                                 “Estamos vivendo uma recolonização.”
João Luís Joventino do Nascimento (João do Cumbe)A comunidade tradicional do Cumbe, a 12 km do município de Aracati, litoral leste do Ceará, é rica em recursos naturais e em patrimônio cultural. É cercada por dunas, lagoas interdunares, gamboas, rio Jaguaribe, praias, uma extensa área de manguezal e carnaubais. A população é formada basicamente por pescadores e pescadoras que vivem da cata de caranguejo e de mariscos do manguezal. Esse patrimônio vem sendo pressionado por grandes empreendimentos de carcinicultura – criação de camarão em cativeiro. É nessa comunidade que João Luís Joventino do Nascimento, ou João do Cumbe, como é mais conhecido, vem desenvolvendo sua luta para a preservação dos manguezais e da própria comunidade e suas tradições culturais desde 1996. João usou a escola como ponto de partida para sua mobilização. Teceu redes, deu visibilidade aos problemas, colocou as necessidades de uma comunidade pobre e esquecida no mapa. Depois de mais de quinze anos de luta, agora aos 39 anos, decidiu ampliar sua atuação e fazer mestrado em Educação na Universidade Federal do Ceará. Ele garante que continuará disseminando a história e a luta do Cumbe em defesa dos manguezais e das dunas para alertar outras comunidades que venham a passar pelo mesmo problema.

Júlio César Ferraz de Souza
Júlio César Ferraz de Souza“Defensor de direitos também é ser humano.”

Aos 47 anos, Júlio César Ferraz de Souza vem atuando na garantia do direito à moradia em Manaus há quase duas décadas, e ajudou milhares de pessoas a conquistarem sua casa e alcançarem condições mais dignas de vida. Ele acredita e aposta no poder de organização da população sem-teto como forma de resistência às pressões políticas para despejo e desocupação de terras. Atualmente, é integrante e dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto. Hoje o defensor combate a grilagem de terras públicas. “Os grileiros tomaram conta de 30 milhões de hectares de terras pertencentes ao Governo Federal ou doada a particulares que não reclamaram. É uma terra que poderia estar sendo usada para acomodar parte dos 800 mil sem-teto de Manaus.” Júlio foi militante do Partido dos Trabalhadores na década de 1980 e funcionário do governo do Amazonas. Formado técnico em patologia, Júlio nunca mais conseguiu emprego depois do início da luta. Foi preso, sofreu torturas, foi ameaçado de morte. Com um problema cardíaco descoberto em 2012, tem o sonho de reencontrar o filho que não vê há três anos.

Leonora Brunetto
Leonora Brunetto“Não dá pra abandonar um povo tão sofrido.”

Há mais de três décadas, a gaúcha Leonora Brunetto, 67 anos de idade, atua em defesa de trabalhadores e trabalhadoras rurais sem-terra. Integrante da Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), irmã Leonora vem organizando lideranças e empoderando jovens para lutar pelo direito à terra e por questões associadas à pequena produção agroecológica. Atuou no Rio Grande do Sul, em Tocantins, no Rio Grande do Norte e no Maranhão. Atualmente, integra a CPT do Norte de Mato Grosso, e vem enfrentando com a voz suave e calma, mas com garra, coragem e fé o agronegócio e as grilagens de terra que dominam a região. Sua aposta é no poder da juventude para garantir que a agricultura familiar se fortaleça e permaneça no local. “Ao mesmo tempo em que você tem medo, você tem uma força divina para dizer: ‘não pare, pode lutar, pode continuar’. (…) No começo, o medo era pavoroso, ficava com vontade de largar. Agora, ele é um sinal para reflexão.”

Maria Joel Dias (Joelma)
Maria Joel Dias (Joelma)“Construímos essa história porque eu não me acovardei.”

A história de Maria Joel Dias, mais conhecida como Joelma, poderia ser apenas mais uma história de milhares de brasileiros que foram para o estado do Pará na década de 1980 em busca de melhores condições de vida e de terras para tirar o seu sustento e encontraram uma situação completamente diferente da esperada. Porém, a partir das ações de seu marido, o sindicalista José Dutra da Costa (Dezinho), morto no ano 2000, ela conseguiu garantir terra, esperança e sustento para parte desses brasileiros que foram parar em Rondon do Pará, município com cerca de 45 mil habitantes no sudeste do estado. Aos 49 anos, Joelma atua a favor dos trabalhadores rurais desde 2002, quando assumiu a presidência do Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura do município, cargo antes ocupado pelo seu marido. De acordo com ela, sua luta é a continuidade do sonho de Dezinho. Por tudo o que ele lutava em vida, Joelma não deixou de colocar a cara no mundo denunciando grilagens, exploração madeireira e lutando por melhores condições de vida. Atualmente, é coordenadora regional da Federação dos Trabalhadores em Agricultura do Pará.

Rosivaldo Ferreira Dias (Cacique Babau)
Rosivaldo Ferreira Dias (Cacique Babau)“O lugar sagrado tem que ser preservado.”

Com um riso fácil e um excelente domínio da palavra, o Tupinambá Rosivaldo Ferreira Dias, o Cacique Babau, tem na ponta da língua a história de sua aldeia de Serra do Padeiro, no município de Buerarema, nos arredores de Ilhéus, na Bahia. Aos 38 anos e pai de dois filhos, ele lidera desde o ano 2000 a organização de sua tribo para lutar pela garantia de seus direitos. Seu poder de articulação e espírito empreendedor conseguiram reunir cerca de 900 pessoas de 180 famílias em torno de um modo de produção de agricultura familiar comunitário e sustentável. Coordenou 21 retomadas de terras que já foram reconhecidas como pertencentes ao seu povo. Suas três cicatrizes de tiros recebidos mostram que nem sempre essa luta é feita de forma pacífica. Ele sofre perseguições políticas, processos de criminalização e, em 2010, foi preso. Em virtude disso, foi inserido no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, com o propósito de assegurar a continuidade da sua batalha pelo direito à terra e preservação da cultura Tupinambá. Nada parece diminuir a vontade de liderar uma luta que vai além de questões de posse de terra, mas passa também por tradições, questões religiosas e preservação do meio ambiente: de acordo com os Tupinambá da Serra, a Serra do Padeiro é considerada um lugar sagrado e deve ser devolvida em sua totalidade e integridade aos seus habitantes originais.

Saverio Paolillo (Padre Xavier)
Saverio Paolillo (Padre Xavier)“Nosso trabalho é incompreendido.”

Natural da Itália, o Padre Saverio Paolillo, mais conhecido no Brasil como Padre Xavier, vem atuando em favor dos direitos da criança e do adolescente brasileiros desde 1985. Abrigos, casas-lares, centros de defesa, programas de liberdade assistida, projetos profissionalizantes e assistência às famílias de meninos e meninas abrigados ou em conflito com a lei estão entre as suas realizações. Como integrante e coordenador da Pastoral do Menor, denunciou inúmeras situações de violação de direitos humanos nas unidades de internação de adolescentes. Conseguiu dar visibilidade internacional ao problema ao levar a situação para a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Também participou como mediador de incontáveis conflitos e rebeliões. Padre Xavier integra o Conselho Estadual de Direitos Humanos e o Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente do Espírito Santo. Ele acredita que há uma visão equivocada a respeito do trabalho que realiza e sofre cotidianamente pressões por defender os direitos de uma parcela da população que, em sua opinião, precisa, acima de tudo, de políticas públicas que efetivem os direitos humanos. 

Clique aqui para acessar a publicação.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Coletivo Perifatividade apresenta antologias literárias inéditas em sarau

 
 
O Sarau Perifatividade vai acontecer neste sábado, dia 16 de fevereiro, às 19h, no tradicional Bar do Boné, localizado na Rua Nossa Senhora da Saúde, nº 100, na Vila das Mercês. Nesta edição, serão lançados o segundo volume da antologia literária do Coletivo Perifatividade e o livro Perifatividade nas Escolas. A antologia reúne um time literário que compõe um mosaico de gêneros e estilos de tecer a palavra. Em comum, a narrativa crua e nua de um mundo tal como ele é. Mas também a narrativa sincera sobre um mundo inacabado e um profundo desejo de transformá-lo. O livro Perifatividade nas Escolas é resultado de uma maratona de encontros e saraus realizados em escolas da região de atuação do Coletivo Perifatividade, os bairros do Fundão do Ipiranga, e envolveu a comunidade escolar, agentes de educação e principalmente alunos e alunas que aceitaram o convite pra mergulhar de cabeça na literatura e na poesia pra encontrar, falar e escrever versos sobre si, sua escola, sua rua, seu bairro, sua cidade e o mundo. A antologia traz muita gente já conhecida e outras nem tanto da literatura periférica e das rodas de saraus poéticos cujos principais espaços encontram-se nas bordas de São Paulo e distantes das programações culturais oficiais. O livro produzido nas escolas traz um time estreante na literatura e pela primeira vez publicado. Em ambos os casos, gênero literário, estilo e temas variados revelam um olhar panorâmico protagonizado por quem escreve e a partir da onde se está escrevendo.

O Sarau Perifatividade, assim como os livros que serão lançados, é desenvolvido pelo Coletivo Perifatividade que há mais de dois anos articula, mobiliza e realiza ações culturais no Fundão do Ipiranga, e que reúme várias linguagens artísticas sempre pelo fortalecimento das comunidades locais e da prática da solidariedade contra todas as formas de opressão. Sarau, música, opinião e leitura, são algumas armas que o Coletivo Perifatividade tem pra trocá... e elas estão com os tambores cheios até a boca!

Se você ainda não conhece o Sarau Perifatividade aproveite pra conhecer. Se já conhece sabe que é só chegar pra ser bem recebido.

Mais informações: www.perifatividade.wordpress.com ou no facebook sarau perifatividade


Participe, porque afinal a cultura é nossa!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Perifeminas: antologia literária inédita reúne 60 mulheres que registram sua relação com o Hip Hop

 

 
Há mais do que MCs, Bgirls e grafiteiras neste PERIFEMINAS, todas as autoras do livro “criaram-se” no Hip Hop. Foi ali que muitas passaram a entender-se e afirmar-se como negras. Outras, não-negras, constituíram uma irmandade estética, de classe e gênero, passando a praticar a solidariedade racial - Cidinha da Silva.
 
O lançamento da antologia literária PERIFEMINAS vai acontecer nesta quarta-feira, dia 6, às 19h30, na Ação Educativa.

A iniciativa, inédita no país, é da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop. O livro é resultado do Projeto PERIFEMINAS, realizado com apoio do VAI, que depois de oficinas sobre a história do hip-hop, a mulher e a sociedade, redação e edição de texto, diferenciação de conteúdo, linguagem, gíria, gramática, ilustrações, marketing e publicação, selecionou 60 mulheres para participar da antologia literária com textos inéditos que vão de contos a poesias e desabafos.

Quebrando o silêncio! O livro é uma contribuição das mulheres não só para o Hip Hop, mas também para a literatura. Muitas delas são conhecidas pelo que já faziam pelo Hip Hip como Mcs, Djs, Grafiteiras ou Bgirls. Outras, já eram letristas e poetisas e são conhecidas pelas participações e apresentações em saraus. Independente da particularidade de cada uma delas, todas agora encontram-se na literatura. O livro pode ser lido por qualquer pessoa interessada no que essas mulheres tão diversas que tem a síntese no Hip Hop tem a dizer sobre elas mesmas.
 
 
A escritora Cidinha da Silva, que também participa da antologia literária, disse o seguinte sobre o livro PERIFEMINAS:

PERIFEMINAS: uma história do Hip Hop narrada por mulheres! Assim eu chamaria esta obra de vozes e olhares múltiplos. Algumas autoras apresentam o currículo, listam os feitos no movimento Hip Hop e isso também é significativo, dada a pouca consideração pública à participação transformadora e estruturante das mulheres na cena. Outra...s refletem de maneira mais ampliada e filosófica sobre o movimento e sua própria trajetória. Outras, ainda, ensaiam bons textos de ficção como “Banquete de reis.”

As autoras fazem elegia a elas mesmas, são plenas de orgulho e amor para contar histórias de mulheres que estiveram na base da projeção de vários homens, escondidas, carregando o piano. Contam também histórias de mulheres que ousaram lançar CDs, sozinhas, sem qualquer tipo de apoio. Há tímidos suspiros de crítica interna à presença e ação das manas na cena.

Mulheres cristãs, rastafáris, católicas, candomblecistas e umbandistas, umas tantas sem crença religiosa, professam dois lemas fundamentais: o primeiro, “O Hip Hop salva” e o segundo, “Lugar de mulher é onde quer que ela queira estar.”

Embora possa parecer expressão messiânica, ter tido a vida salva pelo Hip Hop foi realidade para muitos manos e manas que ouviram uma frase de promoção do amor próprio, um verso de solidariedade, uma palavra de respeito ao que se é, pelas ondas do rádio, quando estavam tristes e depressivos, sem perspectiva pessoal e político-social na quebrada.

Há mais do que MCs, Bgirls e grafiteiras neste PERIFEMINAS, todas as autoras do livro “criaram-se” no Hip Hop. Foi ali que muitas passaram a entender-se e afirmar-se como negras. Outras, não-negras, constituíram uma irmandade estética, de classe e gênero, passando a praticar a solidariedade racial.

PERIFEMINAS nos conta muito de nós, do que sabemos e do que estamos por descobrir. Que a leitura nos apresente mais de nós mesmas.
 
Não fique de fora, pois uma nova página no Hip Hop e na Literatura estão sendo escritas neste momento pelas mãos das mulheres!

Põe na agenda e participe!

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Bravo Povo Brasileiro

 
 
 
Foi um fim de semana tenso no antigo Museu do Índio, ao lado das obras do Maracanã, na zona norte do Rio de Janeiro, em reforma para receber a Copa do Mundo e as Olimpíadas.
 
No sábado (12), o Batalhão de Choque da Polícia Militar cercou o prédio para fazer o despejo dos cerca de 60 indígenas que há 6 anos passaram a viver no local que passou a se chamar Aldeia Maracanã (veja fotos aqui). O Museu está desativado desde 1978. A demolição do prédio, orçada em R$ 586 mil, está numa disputa judicial. No lugar, governo e iniciativa privada pretendem construir um estacionamento, um centro comercial e áreas para saída do público.
 
Porém, a PM não contava com a resistência dos indígenas e com a solidariedade dos apoiadores contra o despejo e a demolição do prédio. Dentre eles, os carpinteiros José Antônio dos Santos Cezar, de 47 anos, e Francisco de Souza Batista, de 33, que pularam o muro que separa o canteiro de obras da reforma do Maracanã e o antigo museu, para se juntar aos índios no caso de a polícia invadir o local.
 
“Isso aqui é um patrimônio histórico. Reforma a gente aceita e entende, mas destruir não. Eles não estão reformando o Maracanã? Por que não podem fazer a mesma coisa com o museu?”, questionou o José Antônio.
 
Quando pularam o muro para retornar ao canteiro de obras, o chefe dos operários pediu o crachá de ambos e mandou que eles fossem para casa. Eles tentaram retornar ao trabalho, mas foram avisados sobre as consequências.
 
“Fui ajudar uma questão que acho justa”, disse Francisco.
 
Os indigenas querem que o lugar seja uma referência dos povos indigenas. “Qual vai ser nosso destino se nos tirarem daqui? Vai ser mais uma memória apagada? Não estamos brigando pelo prédio, estamos brigando pela nossa história. Isso aqui é um ponto de cultura”, afirmou Kamayura Pataxó.
 
Para o contador de histórias Tauá Puri o despejo significa a invisibilidade dos indígenas. “O que estão querendo fazer é um processo de invisibilidade da cultura indígena".
 
"Não fiz nada que considere errado”, disse José Antonia.

 
Nesta segunda (14), os dois operários foram homenageados pelos indígenas por se solidarizarem a luta pela preservação do espaço, colocando em risco seus própios empregos.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A chacina de cada dia

 

A tradição autoritária do Brasil vem de longe. Atravessou séculos. Conviveu em diferentes períodos e regimes, sempre conforme as conveniências dos donos do poder.

Ora dissimulada, ora explícita, o autoritarismo soube muito bem viver à sombra e ao sol, não necessariamente nessa ordem. Impregnou as instituições do país, onde se acomodou sem dificuldade. E assim fez escola.

A democracia brasileira já passou da sua maioridade e se não quiser ficar presa à tradição autoritária precisa assumir sua responsabilidade e agir como uma democracia, garantindo a sua população historicamente marginalizada o direito a vida com dignidade. É bom que seja aqui e agora.

No Brasil, os donos do poder sempre impuseram o cinismo da conciliação e comemoraram rompimentos consentidos. Qualquer um que ousasse sair da regra era abatido pela exceção.

Há anos a Polícia Militar é denunciada pelos seus desvios, excessos e principalmente pelo seu alto grau de violência e letalidade. O Estado brasileiro, várias vezes e em diferentes governos, teve que dar explicações a organismos internacionais de defesa dos direitos humanos sobre casos de violência cometidos por PMs nos vários estados do país. O Conselho de Defesa dos Direitos Humanos da ONU chegou a pedir a extinção da PM. Violência policial, portanto, não é nenhuma novidade por aqui.

No ano passado, os meios de comunicação de massa propagaram uma matemática perversa: a contagem de corpos baleados em ações envolvendo PMs. Esperava-se cada manhã para saber quantos haviam sido assassinados na noite anterior. Enquanto organizações sociais e populares cobravam investigação e ações efetivas contra o genocídio, o governo do estado queria apenas a queda dos números de mortos quando não referendava a ação letal da PM através de pronunciamentos belicosos como "Quem não reagiu está vivo", do próprio governador Geraldo Alckmin.

A chacina cometida no último dia 4, que matou sete pessoas e deixou dois feridos, num bar, no bairro Jardim Rosana, na região do Campo Limpo, zona sul de São Paulo, é chocante (ao menos para mim que não me acostumo com a banalidade do mal!).

A descrição até o momento da chacina chama atenção e pelo histórico levanta óbvia suspeita. Fala-se em pelo menos quatorze homens encapuzados dirigindo carros não identificados e mais de cinqüenta disparos de tiros.

Além disso, a rua onde aconteceu a chacina é a mesma onde em novembro uma pessoa registrou cinco PMs tirando de casa um servente de pedreiro já dominado e matando ele a tiros na rua. As imagens foram exibidas na televisão. Qualquer semelhança não é mera coincidência, já que este fato foi levantado logo que ocorreu a chacina, chegando até a se pensar que o autor das imagens pudesse estar entre os mortos. Nenhuma coincidência também no perfil das vitimas e no contexto onde a chacina ocorreu.

Das 24 chacinas registradas só no ano passado, apenas uma foi solucionada, levando seis PMs para a prisão.

Está aí o alimento do autoritarismo que ainda faz tanta gente chorar.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Última postagem do ano, que venha 2013!

 
Na última postagem do ano, desejo a você muita força, muita saúde e lute sempre por liberdade e paz com justiça sem exceção!
Nos vemos logo alí, em 2013, nas ruas e nas quebradas do mundaréu!

Quilombo de palavras: saraus e literatura periférica no centro da cultura

 
A Revista do Parlamento Paulistano (v.2 n. 3 julho/dezembro 2012) dedicou quatorze páginas da sua seção de cultura para abordar a agitada movimentação dos saraus e da literatura periférica na cidade de São Paulo. Intitulada Quilombo de palavras: saraus levam a periferia para o centro da cultura, a reportagem é de Fausto Salvadori Filho e é composta por depoimentos, entrevistas, poemas, pesquisa e imagens de vários saraus citados no texto.  
Tem, por exemplo, a Vó da Ocupa dizendo que aprendeu "muito e gosta da turma dos saraus, que fala a língua da gente". Tem Augusto Oliveira (Batalha da Leste) improvisando na rima. Tem o poeta Victor Rodrigues comparando os saraus a cultura do quilombo: "vamos fugir e criar a nossa própria sociedade". Tem Binho(Sarau do Binho), lembrando que os poetas dos saraus são bons e estão vivos "por aí, perambulando". Tem Mateus Subverso (Edições Toró), afirmando que a "cultura de quebrada pensa os seus processos de maneira não-hierarquica, horizontal e partilhada, porque vai ao encontro do que a gente quer para a sociedade". E tem mais: Alessandro Buzo, Tula Pilar , e eu Ruivo Lopes. Quer mais, então acesse e confira!

domingo, 23 de dezembro de 2012

Victor Rodrigues, o poeta da gente!


Conheci Victor Rodrigues no Sarau Suburbano, quilombo cultural cravado no bairro Bixiga. Jovem poeta do bairro A. E. Carvalho, zona leste de São Paulo, apresentava seus primeiros poemas sempre com energia e já chamava atenção o conteúdo social e elaborado dos seus versos. Victor é chegado no saraus que cercam a cidade de São Paulo, sendo o Sarau dos Mesquiteiros o seu quintal preferido. Depois de participar de antologias poéticas, Victor lançou recentemente o seu livro de estréia Praga de Poeta. Agora, o poeta apresenta seu primeiro video poema chamado Candidatura, produzido pelo Periferia Invisível. Nele, o poeta convida sua gente para declamar coletivamente, como num sarau. Tem Binho, Daniel Marques da Silva, Daniel Minchoni, Caco Pontes, Verinha Fashion, Rodrigo Ciríaco, Emerson Alcalde, Ni Brisant, Alessandro Buzo, Michel Yakini, Fabio Boca e eu, Ruivo Lopes. Assista!



Acompanhe na íntegra o poema de Victor Rodrigues:

Candidatura

eu,
se eleito
não prometo
porque sou homem e não cumpro

não compro seu voto
nem me comprometo
mas construo
mais hospitais e mais leitos
por mais doentes internados
pra mais visitantes e mais visitados
construo mais igrejas
pra que pecadores possam comer e beber
e festejar a vida sem medida
inauguro mais restaurantes
pra que meninos vendam balas e flores
e esfomeados peçam comida
abro mais bares
pra que o João e o José
desçam uma caninha sem dó
e curem suas dores com baralho e dominó
levanto mais pontes só pra abrigo de mendigos
mais semáforos por mais trânsito
pra que ambulantes e malabaristas aumentem a clientela
mais ruas e calçadas
pra mais feiras e camelôs, mais pipa e futebol
organizo mais favelas
pra mais rap, mais samba
mais moleque em casa bamba

tudo porque
se eleito
não sou prefeito
deputado ou presidente
sou poeta
e como poeta sou gente
sou da gente, sou a gente
e como poeta sou também indigente
marginal, delinquente
atravesso as vielas da alma
habito as esquinas da mente

então me candidato
a ser eu, mas também você
pela simples tarefa de viver

porque como poeta
sei que posso fazer
porque como poetas
nós temos esse poder

No blog do poeta, você poderá acompanhar na íntegra os poemas disparados pelos poetas que participam do video poema Candidatura.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

1º Festival do Filme Anarquista e Punk de São Paulo



O I Festival do Filme Anarquista e Punk de São Paulo será nos dias 14, 15 e 16 de dezembro no Centro Anarquista Ação Direta, um novo espaço que logo estará em funcionamento permanente!

Serão três dias de exibições de filmes, debates, oficinas, exposições e outras atividades.

LOCAL: Rua Dr. Almeida Lima, 434 – ao lado da estação Brás de Trem e Metro

Maiores informações: Anarcopunk.org

DOWNLOAD DA PROGRAMAÇÃO EM PDF:



SEXTA, 14 DE DEZEMBRO

19:00 | Relatos de Uma Cena Anarcopunk (23 min | 2012 | César Medeiros e Danilo Tázio | Natal/RN)

19:30 | Punk In Africa (82min | 2011 | Keith Jones e Deon Maas | África – legendas em português)

21:00 | Sarau “Sangue, Suor e Poesia Libertária”

E mais: Abertura das exposições de fotografia de Ruivo Lopes, Elaine Campos, Avelino Regicida, Jefferson Andrade, Anderson Barbosa, cartazes de festivais em outras partes do mundo.

 
SÁBADO, 15 DE DEZEMBRO

13:00 | Grafitagem libertária – durante todo o dia

13:00 | Oficina de Fotografia Faça Você Mesm@, com Elaine Campos (Integrante da Coletiva Anarcafeminista Marana)

“Bastou clicar o botão. E pronto. Mais uma imagem foi capturada pelas lentes da câmera fotográfica. No entanto, para aproveitar o máximo do equipamento e por meio dele encontrar a melhor forma de se expressar, são necessários dois componentes básicos: um pouco de técnica (que ao longo do tempo cada um@ desenvolve a sua própria) e reflexão. Essa oficina básica de fotografia pretende ser um espaço compartilhado de reflexão e troca de experiências sobre o ato de fotografar e a memória visual, buscando estimular @s participantes a desenvolverem um discurso visual próprio.”

Oficina livre, traga sua câmera fotográfica de qualquer tipo, celular ou qualquer equipamento que tire fotos! No dia seguinte haverá exposição das fotografias tiradas durante a oficina.
DURANTE TODO O DIA | Exposições de fotografia de Ruivo Lopes, Elaine Campos, Avelino Regicida, Jefferson Andrade, cartazes de festivais em outras partes do mundo, projeções de fotografias de Anderson Barbosa



SALA 1

14:00 | From the Back Of The Room

16:00 | Lançamento: Squat Toren + curtas: Minutos de Destruição e Desalojo Ilegal da Ocupação Abu-Jamal

17:00 | A Céu Aberto + curta: Fabricação Artesanal de Carvão de Coco Babaçu

17:50 | Lúcio: Anarquista, assaltante, falsificador, mas sobretudo pedreiro+ estréia do curta Caixa Postal 195

20:00 | FILME/DEBATE | Lançamento: Todo Fim é Um Começo seguido de debate com participação dxs realizadorxs, companheirxs de espaços libertárixs.

SALA 2

13:30 | Barulho Bom + curta: Ecos de Revolta – Exibição Vide Urbe

14:15 | Noite do Horror

15:15 | Unindo Quebradas

16:10 | Filme Plágio ou Introdução à crítica do valor da imagem mercantil como dispositivo de designação do Sujeito e curta: Vozes de um Cárcere

17:10 | FILME/DEBATE | Ciclovida:Lifecycle + curta: Torcendo pelo Time da Casa seguida de debate com Coletivo Ciclovida – SP

20:15 | Na Prisão Minha Vida Inteira + El Ocaso Del Miedo



DOMINGO, 16 DE DEZEMBRO

DURANTE TODO O DIA | Exposições de fotografia de Ruivo Lopes, Elaine Campos, Avelino Regicida, Jefferson Andrade, Anderson Barbosa, cartazes de festivais em outras partes do mundo, projeções de fotografias de manifestações e atividades libertárias na cidade.

Projeção das fotografias tiradas pelxs participantes da Oficina de Fotografia Faça Você Mesm@ do dia anterior, por Elaine Campos.

SALA 1

14:00 | FILME/DEBATE | Escolarizando o Mundo: O Último Fardo do Homem Branco seguida de debate com integrantes do Ativismo ABC e Coletivo Desescolarizar

17:00 | Não são um por cento: Anarquistas em Carrara

18:40 | FILME/DEBATE | Indomables: Una Historia de Mujeres Libres seguido de debate com Coletivo Terra Livre sobre as experiências acumuladas ao longo de dois anos de realização do Cineclube Terra Livre.

SALA 2

13:30 | A Cultura em Luta Pela Paz

15:00 | Todas as Mulheres do Mundo + O Sentido da Moradia

16:15 | WORKSHOP de leituras de imagens e troca de idéias sobre “Vìdeo Popular e representação”, com Daniel Fagundes (Núcleo de Comunicação Alternativa – NCA)

18:20 | Crass: There Is No Authority But Yourself + curta: Tid

19:40 | Ugra The Karma

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A cor dos homicídios no Brasil

 

As taxas de homicídios no Brasil são elevadas e inaceitáveis. Quando os homicídios deixam de ser apenas números e viram representações sociais reais, podemos ter uma visão mais detalhada do problema. Racismo e pobreza - e suas consequências - fazem parte deste universo. Quando o que está em jogo é a vida, buscar soluções é mais que necessário.
 
O estudo Mapa da Violência - A cor dos homicídios (clique) lançado na quinta-feira (29) pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) da Presidência da República, revela que os homicídios no Brasil atingem de forma crescente a população negra.
 
Entre os anos de 2002 e 2010, houve queda do número de homicídios na população branca, mas aumento nos números da população negra, com o assassinato de 272.422 cidadãos negros no país - uma média de 30.269 assassinatos ao ano. Só em 2010, foram 34.983.

 
As mortes de negros tiveram aumento de 29,8%. Já o número de homicídios de brancos caiu de 18.867 em 2002 para 14.047 em 2010, o que representa uma queda de 25,5% nesses oito anos.

A taxa de homicídios de brancos também caiu, de 20,6 para 15,5 homicídios por cada 100 mil habitantes (queda de 24,8%), enquanto a de negros cresceu de 34,1 para 36 (aumento de 5,6%).
 
O estudo destaca que mesmo "com fortes oscilações de um ano para outro, a tendência geral desde 2002 é: queda do número absoluto de homicídios na população branca e de aumento nos números da população negra. E essa tendência se observa tanto no conjunto da população quanto na população jovem", alerta.

O estudo também mede a taxa de vitimização dos negros, ou seja, se existem mais vítimas negras do que brancas. Os números mostram que esse índice aumentou de 65,4 e chega a 132,3 em 2010. Isso significa que, naquele ano, para cada branco vítima de homicídio proporcionalmente morreram 2,3 negros pelo mesmo motivo.
 
Os municípios com maior número absoluto de homicídios de negros são Salvador, Rio de Janeiro, Recife, Manaus, Maceió, São Paulo e Brasília.

O estudo diz também que a maior parte das mortes ocorre na faixa etária entre 20 e 21 anos, mas, entre os negros, aumentou 46 vezes na faixa entre os 12 e 21 anos, entre 2002 e 2010. Nessa mesma faixa etária, a morte de brancos aumentou 29 vezes no mesmo período.
 
“Os níveis atuais de vitimização negra já são intoleráveis, mas se nada for feito de forma imediata e drástica, a vitimização negra no país poderá chegar a patamares inadmissíveis pela humanidade”, conclui o estudo.
 
Seria importante se o estudo, ou um estudo a partir deste, revelasse também a relação dos homicídios que atingem de forma crescente a população negra com as causas estruturais das desigualdades raciais e sociais no Brasil. Assim, além de revelar números alarmantes, ficaria evidente também as responsabilidades e de quem a sociedade brasileira deve exigir soluções urgentes!

domingo, 25 de novembro de 2012

Religião não pode rimar com discriminação



Aderir a alguma religião é um direito individual garantido pela liberdade religiosa. Não sofrer nenhum tipo de discriminação, inclusive por valores religiosos, é um direito inviolável e coletivo o qual devemos preservar em qualquer lugar


Nunca fui ligado a nenhuma religião. Quando criança, fui matriculado num desses cursos de catecismo oferecido pela igreja católica do bairro em que eu morava, na Vila Mathias, na cidade de Santos, no litoral de São Paulo.


Eu já conhecia bem o interior daquela igreja. Umas das brincadeiras da qual eu participava era disputar com os amigos quem apagava mais vela acesa no local. A igreja dava uma velinha para quem não podia trazer a sua para acender. E tinha também um filtro de barro com água benta para quem quisesse beber. Pura caridade. E tinha mais. Difícil mesmo era pegar alguma nota da caixa de doação dos fiéis. Tinha que ser ligeiro. A mão pequena passava pela brecha, mas a caixa tinha um fundo bem maior e só perto do Natal ela ficava um pouco mais cheia e dava para alcançar alguma nota que ficava boiando ali por cima. Quando isso acontecia, o doce estava garantido. Moeda nem pensar, elas eram mais pesadas e ficavam no fundo da caixa quando não ajudavam a empurrar ainda mais as notas para baixo.


O bairro Vila Mathias era um famoso aglomerado de cortiços da cidade. Eram até 10 famílias morando em antigos casarões explorados por intermediários dos proprietários que cobravam aluguéis por cada cômodo habitado. Tinha confusão quase todos os dias, por qualquer coisa. A wez de usar o banheiro, usar o tanque para lavar louça e roupa, usar o varal, o quintal, o corredor, limpar os espaços comum aos moradores, abrir ou fechar a porta, intrigas, fofocas, separar as brigas das crianças, dos adultos. Vire e mexe a polícia baixava num e o caldo entornava. Saia todo mundo para ver o que estava acontecendo. Uma gritasia só e lá se ia resolver tudo na delegacia.


Naquela época- era um sacrifício deixar passar uma tarde de sábado na rua para ficar numa antiga sala sem graça no fundo da igreja onde aconteciam as aulas de catecismo. Sacrifício compensado só pela paixão que eu nutria pela professora. Eu uma pobre criança branca e ela uma jovem negra que ia toda arrumada para ministrar a aula de catecismo e depois caia no baile que acontecia num dos clubes da cidade. Ela mesma avisava. Nunca fui bom de dança, mas sempre tive muita curiosidade para entrar nesses clubes para ver como é que era. Do lado de fora eu ouvia o som batendo nos falantes e ficava imaginando outro mundo lá dentro. Não deu. Quando tive idade permitida para entrar, a música que tocava - a minha e a dos clubes - eram outras. Os clubes fecharam, não fui mais as aulas e nunca mais vi a professora de catecismo. Lembro-me dela, mas não das aulas. Nunca mais quis saber de catecismo ou qualquer coisa parecida.


Eu não ligava para religião alguma, me preocupava mesmo era a discriminação que corria solta. Tudo que uma criança não!quer é ser discriminada, muito menos na escola. Pode ser o fim para ela. Lembro de ter ouvido a expressão “macaco branco” usada por alguns adultos e reproduzidas por algumas crianças. Na época, eu sabia que era uma provocação, mas não entedia o seu peso discriminatório. E se podia eu partia para cima de quem a dissesse ou devolvia um!palavrão. “Macaco branco” era uma expressão discriminatória racista para apontas as crianças pobres brancas que moravam nos cortiços. Os mesmos adultos e crianças usavam também a expressão racista “macaco” para apontar crianças negras que também moravam ou não nos cortiços.


No bairro que eu morava não me lembro da presença de nenhuma igreja evangélica, pelo menos não como é hoje nos bairros. Mas lembro de algumas mães sempre de saia e cabelos bem compridos e alguns homens com a bíblia velha de capa preta na mão, lembrando muito os ewangélicos que vejo hoje. Eram conhecidos no bairro os centros espíritas, principalmente por seus programas assistenciais. Perto da casa que eu morava tinha centros de umbanda e candomblé. Estes faziam a alegria da criançada da rua porque sempre saíamos de lá com doces nas mãos. Nenhuma mãe nunca reclamou de ver seus filhos com balas, pipocas e pirulitos. Pelo contrário. Também não reclamavam porque ficávamos até tarde na rua indo de praça em praça a procura de doces oferecidos a Cosme e Damião. Também não me lembro de ninguém ter sido impedido de distribuir doces na rua ou qualquer problema parecido.  Tinha também as casas das velhas benzedeiras, às vezes esperava horas por um passe ou preparo de uma garrafada. Enfim, se havia problemas de crenças religiosas, estes problemas eram dos adultos, e não das crianças. Embora a responsabilidade dos adultos sempre influenciasse as crianças. Problema meu é que não era certamente!
 
Os tempos mudaram – e continuam mudando, inevitavelmente. Os problemas das crianças são cada vez mais parecidos com os problemas dos adultos. Um deles é a discriminação baseada em valores professados por crenças religiosas com hegemonia no país. A história já está cheia de capítulos que contam tristes conseqüências para povos inteiros por conta de questionáveis valores religiosos universais. O Brasil certamente contribuiu com alguns destes capítulos. Aderir a alguma religião é um direito individual garantido pela liberdade religiosa. Agora, não sofrer nenhum tipo de discriminação, inclusive por valores religiosos, é um direito inviolável e coletivo o qual devemos preservar em qualquer lugar. Assim, faremos um bem à comunidade e principalmente às crianças que poderão crescer sem levar consigo as marcas perversas da discriminação. 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Marcha da Consciência Negra: cotas sim, genocídio não!

 
A Marcha da Consciência Negra chega a sua 9ª edição em 2012. Além de render homenagem a Zumbi dos Palmares, a Marcha leva todo ano para as ruas de São Paulo temas de caráter reivindicatório. Neste ano não poderia ser diferente, o tema é Cotas Sim, Genocídio Não! Por um lado, existe a exigência de maior participação da população afro-descendente em todas as esferas que compõe a sociedade brasileira, com ênfase no acesso ao ensino superior e com o objetivo de reduzir desigualdades históricas herdadas do sistema escravagista e da permanência do racismo no país.  Por outro, diante das chacinas e execuções sumárias diárias que vitimizam na sua maioria jovens, negros e pobres, a Marcha vai pras ruas pedir também o fim deste genocídio.
 
Conheça também:
 
 
 
Participe!

domingo, 11 de novembro de 2012

São Paulo: pinga-fogo


Conta...
O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), disse na manhã da última quinta-feira, 8, que o momento violento pelo qual o Estado passa está  perto de acabar. "As mortes já estão em processo de queda. Eu tenho feito um acompanhamento diário, elas já estão caindo, estão acontecendo em um ritmo bem menor", respondeu sobre as mortes que continuam acontecendo na capital.
 
... outra
Somente entre sexta-feira, 9, e sábado, 10, foram registradas 15 mortes em apenas 17 horas!
 
Será...
O governador anunciou que vai dobrar a indenização para os familiares de policiais mortos. Para cada policial civil, militar ou agente penitenciário será pago R$ 200 mil. "E não será apenas para o policial no seu trabalho, e sim na sua condição de policial. Aquele caso em que a pessoa estava de folga, mas o óbito foi decorrente da condição policial, o seguro vai cobrir", disse.
 
... que o seguro vai cobrir?
Por enquanto, nenhuma palavra oficial sobre qualquer indenização ou assistência para as famílias de civis assassinados por policiais.
 
1 + 1...
Jornalistas da imprensa dominante em São Paulo abriram mão da investigação e detalhes das ocorrências de assassinatos, como a biografia das vítimas,  e passaram a contar os corpos e compor gráficos num jogo matemático desequilibrado e perverso.
 
Lavando as mãos
Paraisópolis foi vitrine da campanha do candidato José Serra na última eleição para a Prefeitura de São Paulo. Durante a campanha, Serra mostrava Paraisópolis como modelo de urbanização na cidade. Serra perdeu a eleição. Logo em seguida, a Secretaria de Segurança Pública deu início a Operação Saturação que contou com a participação de mais de 600 policiais para cercar Paraisópolis por tempo indeterminado.
 
Pacto...
Mas é o jornalista Bob Fernandes que cutuca a ferida. Diz ele que por trás da guerra nas ruas de São Paulo teriam sido rompidos "códigos de conduta" entre PM e PCC.

... de sangue
Segue o jornalista: "Há quem negue a existência de tais códigos, mas eles existem: a polícia tem seus códigos não escritos e os criminosos também têm. E ambos têm um código em comum. Pela quantidade de mortos, é evidente que algum tipo de código, ou de acordo - ou de acordos - foi rompido", opina.
 
Enquanto isso...
Nas periferias de São Paulo, fala-se cada vez mais da imposição do toque de recolher que obriga moradores a não saírem nas ruas a partir de determinados horários, fechar o comércio, suspender aulas e limitar a circulação de ônibus. O secretário de segurança nega, mas é um comerciante quem diz: "Não vou esperar para ver".

sábado, 3 de novembro de 2012

3ª FEIRA ANARQUISTA DE SÃO PAULO

 
A Biblioteca Terra Livre e o Ativismo ABC organizam a 3ª Feira Anarquista de São Paulo, dando continuidade as feiras anarquistas que vem ocorrendo em várias cidades do mundo.
Acontecerá, como na 2ª Feira Anarquista de São Paulo, uma mostra editorial e venda de livros, jornais, revistas, fanzines e outros materiais libertários. A Feira de São Paulo pretende reunir as editoras libertárias do país e do exterior.
Paralelamente à mostra editorial haverá palestras e debates, assim como diversas atividades culturais, como exposições, poesias, apresentações teatrais, musicais e outras atividades.
 
Data: Domingo04 de novembro de 2012
Horário: das 10h às 20h
Local: Auditório Paulinho Nogueira no Parque da Água Branca
Próximo ao metro Barra Funda.
Entrada Gratuita.
 
Programação:
 
10h – Leitura Dramática: Os Parasitas (Neno Vasco) com participação do Coral Filhos do Povo
10h30 - Debate: Editoras Anarquistas
11h – Palestra: Atualidade Teórica do Anarquismo na América Latina (Federação Libertária Argentina / Argentina)
12h - Oficina de Stencil com Coletivo Artficina
13h - Ateneo Heber Nieto, Taller Anarquista e Revista Alter (Montevidéu/ Uruguai)
14h – Sarau: Sangue, Suor e Poesia Libertária
14h - Palestra: Movimento Anarquista no Chile: história e atualidade (Grupo de Estudios José Domingo Gómez Rojas / Chile)
15h - Debate: Anarquismo e Feminismo
16h – Lançamento de Livros
16h30 - 100 anos da Escola Moderna de São Paulo (Biblioteca Terra Livre)
17h – Show: Tuna (acústico)
18h – Palestra: A Experiência de Organização da Federação Anarquista Francófona (Federation Anarchiste / França)
 
Ao longo do dia ocorrerão diversas atividades:
 
Exposições
Cartazes da III Feira Anarquista de São Paulo
Manifestações Estudantis no Chile (FotoArteRevolución/Chile)
Varal de Artistas Libertários
 
Rifa
Durante a Feira será vendida a rifa de um cartaz da CNT por R$2,00 e o vencedor será anunciado as 18h.
 
Comida
Ao longo do dia haverá comidas e bebidas à venda. (Ativismo ABC)
 
Dádiva
Um um espaço da dádiva e material anticonsumo (Fenikso Nigra e Barricada Libertária).
 
Organização:
 
Biblioteca Terra Livre
http://bibliotecaterralivre.noblogs.org
Caixa Postal 195
CEP: 01031-970 São Paulo, SP – Brasil
 

sábado, 27 de outubro de 2012

Mulheres Encarceradas: invisíveis para a Justiça

 
O Projeto "Mulheres Encarceradas", que contou com a atuação de 141 defensores públicos paulistas durante 1 ano e atendeu cerca de 11 mil mulheres presas no Estado, revelou uma triste realizadade: 7.493 (68%) detentas declararam que não tinham advogados constituídos.
Um caso revela o drama da mulher presa diante do descaso da Justiça paulista. Em Franco da Rocha, na grande São Paulo, cidade que não conta com sede da Defensoria Pública, mãe e filha acusadas de homicídio estavam presas há seis anos sem julgamento. Elas sempre argumentaram que agiram em legítima defesa, mas desde 2006 aguardavam uma data para o julgamento no Tribunal do Júri da cidade. Seis anos sem direito a uma defesa!
São mulheres pobres que não tem como se defender perante a Justiça e pagam penas antecipadas, antes mesmo de um julgamento. Além da discriminação institucionalizada, elas sofrem com a invisibilidade social da sua condição de mulher presa. Para elas, na prática, vigora o sistema de presunção de culpa quando, na letra da lei, a constituição garante presunção de inocência.
Provocado pela Defensoria Pública de SP, que precisou recorrer a Brasília, o Superior Tribunal de Justiça concedeu duas ordens de Habeas Corpus em favor de mãe e filha.
Tudo leva a crer que casos como esse não são exceções num país que, lamentavelmente, já ocupa a 4ª posição mundial em número de pessoasencarceradas, são cerca de 500 mil. Destes, 136 mil estão no Estado de São Paulo. Mulheres pobres engrossam essas trsites estatísticas.  

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

15 de outubro: um dia só é pouco!

 
O Brasil ainda não sai bem na foto quando o assunto é educação. Uma contradição para um país bem posicionado entre as maiores economias do mundo. A fotografia registra problemas diversos em todas as esferas, sobrando pra todo mundo. Não falta dinheiro, falta investimento direto na educação. Com razão, comemora-se toda vez que há avanços, correções históricas e se faz justiça na Educação no Brasil
Tomara que a chamada "nova classe média" não faça média na hora de escolher ano que vem a vaga nas instituições de ensino e exija também a qualidade que a educação pública tanto espera e quem dela depende, merece!
Na ponta do problema estão professores e professoras de instituições públicas que enfretam duras rotinas de sala em sala, escola em escola para equilibrar de um lado o ofício exigido da profissão e de outro as contas. Muitos se viram como podem ou como as condições permitem para exercerem a sua missão. Para outros, acrescenta-se exaustiva jornada de trabalho, deslocamentos e baixos salários. Ainda assim, não abandonam o posto e cumprem a sua missão, seu ofício, sua profissão. Um dia só é pouco para reverenciar quem na ponta faz o dia a dia da educação pública acontecer de verdade.

 

domingo, 14 de outubro de 2012

Sarau da Ocupa na Comunidade Mauá

 
Venha se aquecer no calor humano do Sarau da Ocupa, no centro nervoso de São Paulo. O povo tem um encontro marcado no domingo, dia 21 de outubro, às 17h, na Comunidade Mauá, que fica na Rua Mauá, nº 340, no Centro (ao lado da estação Luz de trem e metrô) pra celebrar a sabedoria popular no ritmo e poesia recitada alto e bom som.

O Sarau vai acolher quem acedita que uma cidade inclusiva e digna pra se viver é possível e ela se constrói também com muita luta, cultura, livros e poesia.
 
O Sarau também vai arrecadar livros pra Biblioteca, se você puder, doe livros de poesia, literatura, infantil e pra colorir. Só não fique de fora!
 
Não esqueça a sua letra, poesia, rima ou ideia. Se preferir escolha ou faça na hora, sem deixar o ritmo e a poesia caírem. Um banquete de livros vai ficar a disposição pra quem quiser conferir.

Afinal, a cultura é nossa!

É fogo

 
A notícia de que os vereadores membros da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) montada na Câmara Municipal de São Paulo para investigar as causas dos incêndios em favelas são finaciados por empresas ligadas à construção civil e mais ao setor imobiliário, coloca sob suspeita sua funcionalidade. Em política, toda suspeita precisa ser investigada e esclarecida para não haver conflito de interesses. 
Juntos, os membros da comissão teriam recebido na eleição de 2008 mais de 782 mil reais de doações de empresas ligadas à construção civil e ao setor imobiliário. As doações em dinheiro não pararam na última eleição municipal. O presidente da CPI Ricardo Teixeira é o campeão de arrecadações desde 2008.
A CPI mais parece um jogo de cartas marcadas. Veja quem são os vereadores membros da CPI dos Incêndios em Favelas: Ushitaro Kamia (PSD), Toninho Paiva (PR),  Anibal de Freitas (PSDB), Edir Sales (PSD), Ricardo Teixeira (PV),
Além da Associação Imobiliária Brasileira (AIB), fizeram doações as empreiteiras Andrade Gutierrez, OAS, Queiroz Galvão, Carioca Christiani Nielsen, UTC e WTorre, entre outras.
Talvez seja por isso que a CPI não anda. Contudo, a próxima reunião da CPI está marcada para acontecer em 17 de outubro. Com a eleição para vereadores já decidida, às chances da CPI chegar a algum resultado é nula.
Enquanto isso, sobram perguntas e nenhuma resposta.

No Itaim Paulista, Favela Toma Conta no Dia das Crianças

Ruivo Lopes e o time de poetas Suburbano Convicto
 
Um Dia das Crianças muito especial. Foi assim a 26ª edição do Favela Toma Conta realizado no último dia 12 de outubro no Itaim Paulista, na zona leste de SP. Pelo nono ano consecutivo o evento é realizado no Dia das Crianças. No comando da locomotiva cultural estavam Alessandro Buzo, Tubarão Du Lixo e toda família Suburbano Convicto.
O tempo fechado não desanimou o público que compareceu em peso ao evento que desde 2004 reverencia o Hip Hop nacional. Foi muito bonito ver crianças, jovens e adultos ligados em cada palavra que saia dos alto-falantes e vidrados no palco. Emocionante ver uma quantidade enorme de crianças coladas no palco e que vez e outra roubavam a cena, afinal, aquilo tudo era pra elas. A presença das mães também foi muito grande. Vi e ouvi muitas cantando junto com o Dexter a versão dele para Mágico de Óz, um clássico dos Racionais MCs de 1997.
Vi em primeira mão a gravação de uma cena do Profissão MC 2, dirigido pelo Alessandro Buzo, que também atua no filme ao lado de Dexter, Emicida e grande elenco. O bonde do Buzo não para!

Negro Panta, Ruivo Lopes, Alessandro Buzo, WL e Rafael Marques

A programação tava chapada! Os grandes que me desculpem, mas MC Cauam é o elo de gerações do rap. Ninguém segurava a criançada na hora de distribuir doces, brinquedos, livros e cds.
"O futuro do Hip Hop está aqui!", disse Dexter depois de presentear com seu disco uma criança que aparentava menos de dez anos de idade. "Ouve aí e canta rap", aconselhou o rapper que se apresentou para o fechamento do evento.
Depois de uma maratona de idas e vindas, baldeações de metrô, trêm e ônibus, cheguei no Favela Toma Conta a tempo de compor o time de poetas do Sarau Suburbano e compartilhei com quem tava presente um poema meu disparado alto e bom som. De longe, eu já ouvia a voz do Tubarão du Lixo anunciado poetas e disparando seu poema.
Em meio a onda de terror e assassinatos nas periferias da cidade, no interior e na Grande São Paulo, denunciada também nos falantes, o Favela Toma Conta no Dia das Crianças deu exemplo de que a coletividade da Cultura de Rua do Hip Hop continua viva, promovendo e salvando vidas por um mundo melhor.
Em outras partes da cidade, coletivos realizaram ações culturais pra marcar o Dia das Crianças de um jeito bem diferente do consumo e da comercialização de produtos a que a data infelizmente remete. Foi o caso dos coletivos Elo da Corrente, Sarau Poesia na Brasa, do Sarau da Ocupa (Sarauzinho), Pensamento Negro, toda  rapaziada e moçada que mora e que apóia às ocupações de moradia na região central, etc, que com criatividade coloriram, musicaram, leram, adocicaram e presentearam as crianças com um dia muito especial.