domingo, 30 de março de 2014

1964 + 50: tortura, males de origem

Livro proibido: "Torturas e torturados"

A prática da tortura no Brasil é tão antiga quanto a colonização. A tortura, que já era praticada largamente desde a idade média na Europa, cruzou o Atlântico e, junto com a pólvora, forçou a subjugação daquela gente com quem os colonizadores dedicavam sua indiferença e dominação. Foi assim com os povos indígenas e mais tarde com os povos negros sequestrados, vendidos como coisa e escravizados das várias partes da África. A tortura é obra da "civilização". No "novo mundo", a tortura serviu à barbárie.

É disso que trata a corajosa denúncia de Márcio Moreira Alves, em plena ditadura, reunida no livro "Torturas e torturados" (Idade Nova, 1967). Antes de ser publicado, o livro passaria por um verdadeira via crucis jurídica até sua liberação. 

A primeira edição de "Torturas e Torturados" foi apreendida à véspera de seu lançamento por ordem Ministério da Justiça. Antes, o SNI (Serviço Nacional de Inteligência) fotografara seus originais protegidos em Paris, página por página, e apresentara o registro como um dos motivos alegados para proibir a candidatura de Márcio Moreira Alves a deputado federal pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro), do Rio de Janeiro, partido de oposição a ditadura representada pelo ARENA (Aliança Renovadora Nacional).

Ambas as tentativas de cercear a liberdade de pensamento do autor e de impedir que os impressionantes depoimentos que recolheu de presos políticos torturados fossem publicados falharam. Em novembro de 1966 o Superior Tribunal Eleitoral decidiu, por unanimidade, que as denúncias sobre torturas nada tinham de "subversivas", podendo o autor concorrer às eleições. Em junho de 1967, o Tribunal Federal de Recursos, ainda por unanimidade, considerou ilegal o ato do Ministério da Justiça que havia determinado a apreensão do livro. Em despacho publicado em 6 de julho, o TRF esclareceu que a circulação do livro é livre em todo o território nacional.

Mas essa tolerância durou pouco. Eleito, o deputado Márcio Moreira Alves fez oposição ao regime militar. Em 1968, em protesto contra a repressão aos movimentos contrários a ditadura, Marcio Moreira Alves pronunciou veemente discurso na Câmara, conclamando o povo a realizar um “boicote ao militarismo”, não participando dos festejos comemorativos da Independência do Brasil no 7 de setembro próximo. Em resposta, o presidente Costa e Silva antecipou o fechamento do regime e editou o AI-5, o mais drástico de todos os atos institucionais desde o golpe civil-militar de 1964, que determinou o fechamento do Congresso Nacional e de outros órgãos legislativos,  intervir nos estados e municípios sem as limitações previstas na Constituição, cassar mandatos eletivos e suspender, por dez anos, os direitos políticos de qualquer cidadão, decretar o confisco de bens e suspender a garantia do habeas-corpus.

"Torturas e torturados", está agora disponível para baixar gratuitamente aqui. O livro é um documento contra a prática da tortura, esse mal incrustado no Estado, praticado sistematicamente por agentes públicos em sistemas de privação de liberdade e que deforma a todos nós. 



    No Brasil como no mundo, há anos — poderia dizer
    que desde sempre — todo cidadão primariamente informado
    sabe que a polícia usa métodos violentos para intimidar
    ou interrogar ladrões e assassinos. Mas, por comodismo e
    pelo individualismo desumanizador característico de nossa
    época, esses métodos jamais foram combatidos eficientemente.
    São considerados parte de nossa vida social, uma
    parte excusa é verdade, mas irremovível, como a pederastia
    ou a prostituição. A insensibilidade que criamos passou a
    considerar a brutalidade policial como uma parte suja, mas
    indispensável, do sistema de garantias coletivas. Só quando
    ultrapassa certos limites da racionalidade é que algumas vozes
    se levantam para condená-la. É o caso, por exemplo, das
    periódicas campanhas de metralhamento de assassinos nas
    favelas cariocas que, com igual periodicidade, provocam artigos
    de protesto na imprensa até que, fuzilados os bandidos
    mais notórios, tanto o tiroteio como o protesto adormecem.

    O emprego de torturas, minuciosamente executadas no
    Brasil após o golpe militar de 1.° de abril de 1964, parece
    ter causado incredulidade em quase todo mundo e surpresa
    entre os bem pensantes. Por que esta surpresa? A violência
    acaso não existia antes, tolerada e protegida?

    Creio que a única explicação válida é que o traumatismo que as torturas
    de abril causaram na sociedade brasileira não foi moral, pois
    suas raízes estão no instinto de auto-defesa dos surpreendidos.
    Do momento em que as torturas passaram a ser usadas
    em larga escala contra presos políticos, portanto para reprimir
    crimes de opinião, todos se sentiram ameaçados. Agora,
    são os comunistas e esquerdistas as vítimas. Amanhã, poderão
    ser os fascistas e direitistas. O método deixou de ser de
    defesa coletiva para transformar-se em ameaça generalizada.
    Daí ter sido condenado até por alguns dos responsáveis por
    sua disseminação, membros do governo Castelo Branco.

    (...)

    A moderação com que as Forças Armadas atuaram
    na vida nacional até 1964 serviu para envolvê-las em uma
    auréola de prestígio popular. No Brasil, o militar não era
    olhado como o prepotente, o tirano em potencial da maioria
    dos países latino-americanos. Era antes visto como um cidadão
    respeitável, presumivelmente íntegro, saído da pequena
    classe média, que se dedicava a afazeres mais ou menos
    úteis, mas sempre norteados por idéias gerais de patriotismo
    e honestidade. Ao descobrir que alguns destes cidadãos
    exemplares, vizinhos tranqüilos se entregavam ao flagelamento
    de presos políticos e tinham sua abjeção acobertada
    e fortalecida por seus chefes e, conseqüentemente, por seus
    companheiros de profissão, a consciência brasileira levou
    uma bofetada.

    O mal que as torturas causaram à futura convivência de
    brasileiros armados e desarmados é grande e sua extensão
    só o futuro e a afirmação ou não do militarismo político poderá
    determinar.  (...) Enfrentamos hoje o perigo de criar-se um
    grupo militar privilegiado que mantenha o regime de força,
    em aliança com os privilegiados civis, portanto direitistas,
    com a finalidade única de conservar os privilégios que lhes
    foram dados e recebendo, todos, apoio norte-americano pois
    continuariam a reprimir indefinidamente as esquerdas, a famosa

    ameaça comunista, que os interesses imperiais no Brasil procuram 
    confundir com o nacionalismo e a socialização.

    A pergunta que normalmente se faz quando surgem revelações
    de torturas, pergunta que Jean Paul Sartre repete
    no prefácio que escreveu para o depoimento de Henri Alleg
    “La Question”, é — como é possível que isto ocorra entre
    nós?

    A resposta é simples: é possível acontecendo, como
    sempre aconteceu. Se a polícia rotineiramente tortura criminosos
    comuns, por que não torturaria os presos políticos? Se
    os militares, pela primeira vez colocando em prática o que
    leram dos métodos dos “Green Berets” norte-americanos ou
    dos “parás” francêses, não foram punidos por seus superiores,
    porque não prosseguiriam no emprego destes métodos?

    Tudo é singelo, tudo é mecânico, até mesmo o esquecimento
    em que as denúncias caem após nosso primeiro e ineficiente
    impulso de indignação.

    É preciso, para que purifiquemos a mancha que a tortura
    joga sobre todos os brasileiros, não apenas que se punam
    os oficiais e policiais responsáveis pelo seviciamento
    de homens e mulheres entregues à sua guarda, como que se
    acabe de vez com o sistema de brutalidade montado nas prisões
    brasileiras e, sobretudo, que se guarde a lembrança dos
    crimes cometidos para que sua repetição amanhã se torne
    impossível.

    (...)





A atualidade daquelas denúncias de tortura ainda nos primeiros anos de chumbo está registrada na introdução da edição impressa: "É um processo de nosso tempo e uma denúncia da civilização em que vivemos". O mais grave é que a prática da tortura tenha também se acomodado na democracia vigente no país. Combatê-la exige rara coragem.

Leia também:


Tiro ao Álvaro: "A falta de gosto impede a 
liberação da letra", determinou a censora


Em 1973, o compositor e cantor Adoniran Barbosa teve letras vetadas pela censura, mesmo as já gravadas na década de 50. Caso de “Tiro ao Álvaro", vetada pela censora Eugênia Costa Rodrigues, junto com “Samba do Arnesto”, “Já fui uma brasa” e “O Casamento do Moacir”. Em “Tiro ao Álvaro” (com Oswaldo Moles), a censora faz um círculo nas palavras “tauba”, “revorve” e “artormove”, determinando que a “falta de gosto impede a liberação da letra”. Para que pudesse ser aprovada e gravada novamente “Tiro ao Álvaro”, teria que virar “Tiro ao Alvo” e as palavras "corrigidas". Adoniran não aceitou e deixou para gravá-las mais tarde. Ele acreditava que a burrice da ditadura iria passar. Adoniran deixou saudades e sempre será lembrado pela irreverência da sua obra. Ao contrário da ditadura. Leia mais Documentos Revelados aqui: www.documentosrevelados.com.br

Vejaí: edições localizam o papel da Veja na ditadura

Garimpando num sebo em SP, eis que deparo-me com a história recente do Brasil. Duas edições da revista Veja. A primeira de dezembro de 1969, noticiava na capa "A herança de Costa e Silva", o segundo militar a comandar o país durante a ditadura e responsável pelo endurecimento do regime com o AI (Ato Institucional) nº 5, ou o "golpe no golpe". Costa e Silva havia morrido dias antes. A outra, de abril de 1974, trazia na capa "O décimo aniversário da revolução" golpista que manteve tudo na mesma ordem. A primeira sob o AI-5 e a segunda sob censura, a matéria de capa das duas edições localizam o papel da Veja na ditadura.

segunda-feira, 24 de março de 2014

1964 + 50: quem tem medo da verdade?




Quem tem medo da verdade?


Lá vêm uszomi de bem

As mãos nos bolsos escondem o sangue de alguém

Os passos curtos e as pernas bambas

Denunciam maldades que ainda pesam em seus ombros

Uszomi carregam manchas em seus nomes

No peito cansado, já não aguentam mais velhas medalhas

Eles sabem o que fizeram no longo outono do século passado

Golpearam violentamente a verdade e a justiça

Tomaram de assalto o poder que era do povo

E se tornaram o poder absoluto!

Como foram ousados, serei da minha parte, ousado também

Tenho o dever de falar porque não sou cúmplice

Calado, minhas noites seriam assombradas pelas memórias

Da gente que projetava na vida, sombras de esperança

Quando uszomi vieram, eles chegaram abençoados

E agiram em defesa do sono dos justos

Estes tiveram a oportunidade de fazer justiça

Mas se calaram voluntariamente

Juntos, caçaram vidas, sombras e esperanças

Exigiram disciplina, quando na verdade queriam obediência

Censuraram o poeta, o poema e a poesia

Trocaram a notícia da primeira capa

Pela receita indigesta e macabra

Deram um banho de água fria no sonho de justiça

Descarregaram choques naqueles com quem se chocaram

Provocaram pesadelos

Prenderam a liberdade

Torturaram a alma

Logo ali, na sala, na cela, na vala, na viela, na mata

Desapareceram com o corpo e com a sombra

Deixaram um abraço partido e um adeus... que nunca foi dito

Na caminhada interrompida, o preço... a vida!

Onde esta? Onde está?

Ainda gritam mães, filhos e avós

Ninguém apareceu pra explicar

Quando uszomi caíram pensaram que seriam esquecidos

Acharam que ficaria o dito pelo não dito

Se esconderam da verdade porque sabiam

Que verdade significa justiça

Foi quando a poesia se fez necessária

E o poeta voltou a recitar seu poema em voz alta

Com a certeza de que a verdade está a caminho e ninguém, ninguém, a deterá.


Ruivo Lopes | Poema publicado primeiro em Coletivo Cultural Poesia na Brasa, Antologia Volume IV (2012), e só agora disponível na íntegra neste blog Poéticas Políticas, em memória daquela gente que ousou quebrar a imposição do silêncio e não se conformou com o inconformável. Este poeta recita seu poema em voz alta pela memória, verdade e justiça para todas as vítimas da violência do Estado que ainda persiste neste país de acentuados contrastes raciais, étnicos e sociais.

sábado, 15 de março de 2014

Uma Pá/lavra no Dia da Poesia



Pá/lavra

Escrevo minha própria palavra
Rasuro velhos tratados que mantém tudo na mesma ordem

Para não morrer, a palavra precisar escrever o novo
E só escreve o novo quem subverte a ordem

Minha palavra quer ser falada,
                                                  sussurrada,
                                    cantada,
                                                  rimada,
                                     gritada
Não importa a forma,
                                   não importa a língua

A pá/lavra quer se libertar,
                               ela quer libertar,
        ela quer ferir,
                               ela quer unir,
            ela quer conspirar,
                               ela quer transformar,
         ela quer ser ou/vida,
                               ela quer ser vista

ela quer ser um vírus
                                  e propagar-se... infinitamente

ela quer abrir caminhos
                                      e narrar caminhadas

ela quer ser lançada ao vento
                                               em constante movimento
ela quer ser minha,
                   ela quer ser sua,
                                              ela quer ser nossa!

Ruivo Lopes | Ofereço a você um antigo poema meu recuperado especialmente para este Dia da Poesia (14). Sirva-se!

quarta-feira, 5 de março de 2014

Perifeminas II - Sem Fronteiras: livro reúne 52 mulheres brasileiras e estrangeiras e registra histórias, poesias, contos, desabafos e relatos de mulheres da cultura hip-hop



Com a participação de 13 mulheres que vivem em outros países e 39 brasileiras, a Frente Nacional de Mulheres no Hip-Hop (FNMH²) lança, na próxima sexta-feira, dia 7, às 19h, na Ação Educativa (R. General Jardim, 660, Vila Buarque, região central de SP), o livro Perifeminas II – Sem Fronteiras (Literarua, 104 págs.), que traz um compilado de histórias, poesias, contos, desabafos e relatos de mulheres que fazem parte da cultura hip-hop. Durante o lançamento, parte das autoras estará presente para assinar a obra e comentar os textos.

Com uma apresentação sobre a participação das mulheres na literatura marginal e periférica no Brasil, o livro é a continuidade de um projeto que surgiu em 2012 e já publicou 62 escritoras no primeiro volume da antologia, chamado Perifeminas – Nossa História, divulgado aqui.

Entre os textos selecionados para compor a nova obra, MCs, B.girls, graffiteiras, Djéias – feminino de Djs -, poetizas, militantes e também escritoras imprimem nas páginas do livro a própria história de anos de vivência e luta pelo movimento hip-hop, em situações que incluem ativismo social, feminismo e valorização dos elementos da cultura.

A jornalista Jessica Balbino apresenta no livro uma pesquisa histórica elaborada sobre a participação da mulher na literatura marginal e periférica do Brasil. A  ilustradora Caju assina a arte da capa. A diagramação ficou por conta da graffiteira Riska, que também assinou o trabalho no primeiro volume. O editorial foi assinado por Lunna Rabetti, que é a criadora da frente. Priscila Vierros e Vanessa Soares fizeram a revisão do livro. Já a tradução das estrangeiras ficou por conta da b.girl Miwa. O projeto foi viabilizado pelo VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), por meio da proponente e integrante do grupo Odisseia das Flores, Jô Maloupas. Todas da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop.

Sobre a FNMH²

A Frente Nacional de Mulheres no Hip-Hop, coletivo de mulheres ativas da cultura Hip Hop, está presente em mais de 15 Estados no Brasil, que vem desde março de 2010, realizando e ampliando seu leque de ações em prol da liberdade feminina, destacando a importância da participação das mulheres na sociedade através de atividades temáticas, formação cultural, social, política e de cidadania.

Vale destacar, que são realizadas atividades pontuais conforme Agenda que envolve ações como: debates, fóruns, oficinas, shows, capacitação e formação, suporte técnico, elaboração de projetos sociais e culturais.

A FNMH2, tem intercâmbio internacional com os países da América Latina, África e Europa.

Põe na agenda e participe!

Lançamento Perifeminas II – Sem Fronteiras

Quando: sexta-feira, 7, às 19h
Onde: Ação Educativa
Endereço: Rua General Jardim, 660, Vila Buarque
(próximo ao metrô: Santa Cecília ou República)
Gratuito & Classificação: livre

domingo, 2 de março de 2014

Folia literária: carnaval e samba passados a limpo



Nestes dias de folia, pra manter o clima do ziriguidum, as dicas de leitura são os livros que tem o carnaval e o samba como temas. Vem comigo!
O primeiro é Carnaval em Branco e Negro: carnaval popular paulistano, 1914-1988, de Olga Rodrigues de Moraes von Simson (editoras Unicamp, Edusp e Imprensa Oficial, 2007), que apresenta um panorama do carnaval de rua, negro e operário da São Paulo do século passado. Na mesma linha tem o A geografia do samba na cidade de São Paulo, de Alessandro Dozena (Polisaber, 2012), minuciosa pesquisa que situa o samba paulistano na complexa urbanização da cidade. No campo da ficção e do romance, outros dois livros completam a quadra: Desde que o samba é samba, de Paulo Lins (Planeta, 2012), um delicioso registro da memória do samba e do cotidiano de personagens dos morros e becos cariocas em ebulição na década de 1920. E, finalmente, Ainda cometo um samba, primeiro romance de Walner Danziger (Edições Incendiárias, 2013), que narra o compasso e o descompasso de personagens de corações atiçados e aflitos nos dias que antecedem o carnaval. 
Boa leitura e até quarta-feira de cinzas!

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Pelo direito ao livro e a leitura




Edição do encontro sobre o Plano Municipal do Livro e Leitura, articulação criada em 2012 por entidades e pessoas interessadas na questão do livro e da leitura. O objetivo do encontro foi de aprofundar e ampliar a discussão sobre a necessidade de um conjunto articulado de políticas públicas especificamente voltadas à promoção do acesso da população ao livro, à leitura, à literatura e às bibliotecas públicas, escolares e comunitárias no município de São Paulo. 

Mais informações: Livro e Leitura para Todos: por um PMLL em São Paulo

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Adquira sua antologia literária Perifatividade, volume 2, poesia e música!



É saber chegar, saber sair, saber estar!
Coletivo Perifatividade

Ainda está disponível a antologia literária do Coletivo Perifatividade, volume 2 (2013). A antologia reúne um time literário de 45 autores e autoras que juntos compõe um mosaico de gêneros e estilos próprios de tecer a palavra. O livro vem acompanhado de um cd com 11 faixas, mesclando música e poesia, ritmo a ritmo, verso a verso.

O livro apresenta narrativas cruas e nuas de um mundo tal como ele se apresenta. Mas também narrativas sinceras sobre um mundo inacabado e um profundo desejo de transformá-lo para melhor. O cd não fica atrás nem nas músicas nem nos poemas declamados.

O jornalista Igor Carvalho da Revista Fórum e do sítio SpressoSP, um dos responsáveis pelo documentário Quilombos Culturais, sobre os saraus periféricos, escreve no prefácio do livro que a “arte é possível, e ela é uma amante voraz da militância, que geme de prazer até acordar a vizinhança”.

A antologia traz muita gente já conhecida e outras nem tanto da literatura da periferia e das rodas de saraus poéticos cujos principais espaços estão localizados nas bordas de São Paulo e distantes das programações culturais oficiais. Lado a lado, Akins Kinte, Dexter, Débora Garcia, Emerson Alcalde, Fuzzil, Dinha, Luan Luando, Raquel Almeida, Walner Danziger, Chellmí, Vilma Negra Drama, Ruivo Lopes, etc. Alguns presentes no cd que trás também Vinão Alobrasil, Rinha de Galo, D’Grand Stilo, Michel Cena 7, etc.

No livro, gênero literário, estilo e temas variados revelam um olhar panorâmico protagonizado por quem escreve e a partir do olhar de onde cada um escreve.

Eu vou, invadir os palácios da literatura
e mostrar que os pés de barro
deixam bons rastros no tapete vermelho.
Eu vou, Chellmí

Há uma comunidade ali,
e eu sonhei que ela existia.
Comunidade, Fanti Manumilde

São Paulo adota a repressão intensificada 
e utiliza o aparato policial como personificação 
da democracia que temos no país.
Periferia, nossa faixa de Gaza, Sâmia Gabriela Teixeira

O Coletivo Perifatividade há mais de três anos articula, mobiliza e realiza ações culturais nos bairros que compõem o Fundão do Ipiranga, e reúne várias manifestações e linguagens artísticas sempre pelo fortalecimento das comunidades locais e da prática da solidariedade. Sarau, música, opinião e leitura, são algumas armas que o Coletivo tem pra apresentar.

Se você ainda não conhece o Coletivo Perifatividade e o Sarau Perifatividade aproveite pra conhecer. Mais informações: www.perifatividade.wordpress.com ou no facebook ColetivoPerifatividade e Sarau Perifatividade.

A antologia literária pode ser adquirida nos saraus e outras atividades do Coletivo Perifatividade no e-mail: perifatividade@gmail.com

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Rolezinhos: a juventude grita ‘nós existimos’




“Como posso te identificar na matéria”, perguntei. “Poeta e educador, pode ser?”, me respondeu Ruivo Lopes. Em seu blog ele pede emprestada a música “Apenas um rapaz latino americano”, de Belchior, para se descrever.

Apesar da modéstia, Ruivo atua em várias frentes. É participante do “Coletivo Perifatividade”, que promove sarais na periferia de São Paulo, apresenta programas de rádio em emissoras comunitárias e teve poemas publicados em seis livros lançados por coletivos culturais.

Ruivo é desses que acredita. Acredita na cultura da periferia, nos jovens e no debate sobre a cidade. Nessa entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, ele fala sobre os rolezinhos e como ele pode ajudar no debate da ocupação do espaço público da cidade por seus moradores.

Por Bruno Pavan, Brasil de Fato

O rolezinho é um fenômeno relativamente novo para São Paulo e pode ser analisado pela ótica da ocupação do espaço na cidade. Como que você analisa esse ponto?
Os rolezinhos estão longe de ser um problema, é uma questão que temos que nos debruçar sobretudo no aspecto da participação dessa juventude. Nesse ponto eles contribuíram muito não só levando esse questionamento para o espaço público, mas também para o espaço, os shoppings centers, que sempre estiveram blindados. Quem vai ao shopping, independente da classe social que está inserida e do que consome, circula num espaço de fato social, está participando da cidade. O que pode ser apontado é que não existe somente essa forma mercadológica de participação, existe a participação política, cultural... O que se tem levado com os rolezinhos é um questionamento da afirmação, sobretudo de uma juventude pobre e negra, que é uma parcela significativa da cidade. Essa ocupação dos shoppings dessa maneira quer passar a mensagem de ‘nós existimos’ mas, como os empresários só conseguem entender essa lógica mercadológica, quem não consome não tem status de cidadão. Eles se mostram surdos e mudos aos desejos dessa juventude. Esse é o embate: dos empresários contra o direito que essa população tem de ocupar esses espaços. A sociedade precisa deste questionamento.

 Policiais revistam jovens que participaram de rolezinho 
em shopping de Itaquera, na zona leste de São Paulo 
[Foto: Robson Ventura/Folhapress]

Os rolezinhos acabaram nascendo como resposta a uma proibição dos bailes funks na periferia da cidade. Como você vê essa cultura proibitiva presente na discussão sobre a cidade?
Não vejo a proibição como caminho pra nada. Essa cultura acaba restringindo direitos fundamentais como acesso a cultura, a convivência e, por fim, o direito a cidade propriamente dita. Atinge em cheio uma parcela da população que está à margem. Essa lógica prioriza a privatização do espaço de forma discriminatória, não só de classe, mas também de cor, e só agravam os problemas da sociedade brasileira. Historicamente ocupar o espaço público sempre foi o conflito, o combate no sentido democrático e engana-se quem pensa que a juventude a periferia não consegue se organizar. Essa iniciativa é tão importante quanto os movimentos sociais organizados. Os jovens escancaram essa luta quando ocupam um espaço que sempre determinou quem pôde entrar e o que vão fazer. Eles estão afirmando que nem tudo nessa cidade é mercadoria, ‘nós também queremos espaços que possamos conviver, nos conhecer, beijar’. Eles querem se mostrar, o que vestem, o que pensam. Quando a cidade e os empresários não acolhem esse juventude, é eles que estão errados e precisam ser questionados, não a juventude. Os rolezinhos mostram que há uma alternativa pra cidade, que são locais para convivência, de aceso ao público, é isso que vai tornar São Paulo melhor pra todo mundo

Como aconteceu nas manifestações do ano passado, você acredita que as liminares que proibiram a entrada dos jovens no JK Iguatemi e a violência da PM em Itaquera deram aos rolezinhos um tamanho maior?
A lógica proibicionista tem mostrado que quanto mais se endurece a repressão, mais se acontece aquilo que se está proibindo. Então quando se restringe um valor, como o de ir e vir, que é muito caro a sociedade brasileira, há uma resposta. O que tem acontecido por parte da justiça e da PM é o avesso do que esses jovens estão buscando como alternativa.  Os protestos contra a tarifa de ônibus tem relação porque é um direito de circulação pela cidade o quê aquelas pessoas pediram. Os participantes dos rolezinhos querem o direito de frequentar um espaço de acesso público de São Paulo. É preciso trazer essa juventude para a gestão política da cidade, esse é o recado. E quem conseguir colher isso vai fazer de São Paulo um lugar muito mais democrático.

 Movimentos sociais promovem rolezinho contra o racismo, 
o preconceito e a discriminação no shopping JK Iguatemi, 
na zona oeste de SP [Foto: Uneafro]

Os donos de shoppings marcaram uma reunião com o governador Geraldo Alckmin pedindo que o governo do estado crie “rolezódromos”, que seriam locais para conter esse avanço dos rolezinhos nos shoppings. Como você vê essa postura de empresários e governo?
Completamente equivocada. O governador deveria entender o processo todo com sua equipe e só depois disso se posicionar como governo. Infelizmente essa postura democrática e aberta não condiz com a postura do governo Alckmin. Ele recebe os empresários com uma pauta já pronta que defende o espaço privado e protege sua mercadoria.  Criar ‘rolezódromos’ chega a ser uma ofensa! Não é isso que esses jovens estão pedindo. Espaços assim querem passar a ideia de que existem locais para manifestações. A população deve decidir o que fazer com a cidade e o governante tem que dialogar com isso. Esses espaços vão segregar ainda mais e já mostram uma incompreensão dessa demanda. Não é trazendo o empresário pra mesa que o governador vai chegar a uma solução, é trazendo essa discussão pras ruas, ele não vai resolver isso de seu gabinete. Não vejo isso como a solução correta.

Publicado originalmente em Brasil de Fato.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A periferia nas ondas da Rádio Heliópolis


 
RAPente: Ruivo Lopes, o cordelista Costa Senna e o MC Diego Soares

Apresento hoje (28), às 16h, o programa Agenda Cultural da Periferia na Rádio Heliópolis FM. Ideias, músicas e dicas culturais das quebradas do mundaréu. Fique ligado pela internet: www.radioheliopolisfm.com.br ou sintonize 87,5 FM nas imediações da comunidade!

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Primeira antologia literária O Que Dizem os Umbigos?!


Ruivo Lopes e a antologia literário O Que Dizem os Umbigos?!

O último sábado, dia 18, foi um dia muito especial. Não só pra mim, mas pra muita gente que participou do Sarau O Que Dizem os Umbigos?!, realizado na tradicional quadra da Escola de Samba Unidos de Santa Bárbara, no Itaim Paulista, zona leste de São Paulo. O sarau existe e resiste há 4 anos. Era a primeira edição do sarau de 2014, tinha como objetivo promover a Consciência Indígena e anunciava o nascimento da antologia literária O Que Dizem os Umbigos?!, reunindo mais de 60 poetas que de alguma forma fazem parte da história do sarau. Participo da antologia com um poema inédito que versa a dor de um filho revelada para a mãe, chamado Tem gente morrendo, mãe. É a sexta vez que participo de uma antologia literária lançada por coletivos culturais da periferia de São de Paulo. Costumo me referir a cada uma das antologias como uma comunidade na qual cada participante está muito bem ladeado de uma boa vizinhança. É só folhear e fazer o reconhecimento pra crêr. Aliás, o próprio coletivo resumiu o sentimento daquele sábado tão especial assim: Ubuntu!, que em banto quer dizer "eu sou porque nós somos". A organização do livro é por conta dos umbigos Daniel marques, Samara Oliveira e Queila Rodrigues. O projeto gráfico com a cara dos umbigos é de Ebbios, também poeta. O prefácio ficou por conta do poeta e musico Akira Yamazaki, histórico agitador cultural da região. O livro foi lançado com apoio do Programa VAI da Secretaria Municipal de Cultura. Este livro, assim como todos os outros de que participei foram lançados nas mesmas condições, circulam praticamente de mão em mão pelos coletivos responsáveis pelo lançamento. Caso você queira um exemplar do livro, entre em contato com o coletivo aqui. Espero que você goste da antologia tanto quanto eu!

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A periferia nas ondas da Rádio Heliópolis convida o poeta e cordelista Costa Senna



Faço hoje (14), às 16h, minha última apresentação do programa Agenda Cultural da Periferia na Rádio Heliópolis FM, antes do retorno da poetisa Elizandra Souza, editora e apresentadora do programa, ao comando da nave. Entre uma dica e uma trilha sonora, recebo pra um bate-papo o poeta e cordelista cearence-paulsitano Costa Senna que virá falar sobre poesia árida e versos de concreto, além de música e apresentações. Fique ligado pela internet: www.radioheliopolisfm.com.br ou sintonize 87,5 FM nas imediações da comunidade!

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A periferia nas ondas da Rádio Heliópolis convida o Coletivo Perifatividade


Elizandra Souza e Ruivo Lopes na programa  
Agenda Cultural da Periferia da Rádio Heliópolis FM (SP) 

Vou apresentar hoje (7), às 16h, o programa Agenda Cultural da Periferia na Rádio Heliópolis FM. A poetisa Elizandra Souza, editora e apresentadora do programa tá curtindo as férias e eu fico na comando da nave até a sua volta. Hoje, entre uma dica e uma trilha sonora, recebo para um bate-papo o Coletivo Perifatividade quem virá falar sobre saraus, literatura marginal, hip hop e ações culturais na periferia da zona sul de SP. Fique ligado pela internet: www.radioheliopolisfm.com.br ou sintonize 87,5 FM nas imediações da comunidade.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Um desaparecido na boca do povo



O ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, 43 anos, foi abordado por policiais militares numa noite de domingo, 14 de julho, na porta de um boteco, na favela da Rocinha, zona sul do Rio de Janeiro, e levado para a sede da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), que fica na mesma favela. Nunca mais foi visto.
 
No dia anterior, a secretaria de segurança havia dado início a “Operação Paz Armada”, que levou 300 policiais a ocuparem militarmente a Rocinha. Como de costume, os policiais esculacharam a favela. 

O governador Sergio Cabral e o secretário de segurança José Beltrame vinham sendo cada vez mais pressionados pelas manifestações que tomaram as ruas do Rio, marcada pela violência característica das policias cariocas. A arrogância e a indiferença tradicional de ambos fizeram com que o desaparecimento do Amarildo fosse a gota d’água para derramar nas ruas do Rio, do Brasil e do mundo uma violência policial direcionada a pretos, pobres e moradores de favelas.  

Nas manifestações iniciadas em São Paulo, intensificadas nas capitais e que ganhou as ruas de praticamente todo o país, o rosto de um trabalhador preto, pobre e morador de uma das maiores favelas do Brasil, emergia em cartazes que exibiam a pergunta até hoje sem resposta: “Cadê o Amarildo?”.

O décimo segundo filho de uma empregada doméstica e um pescador, o ajudante de pedreiro, magro e de estatura mediana, que ganhou o apelido de boi por carregar sacos de cimento favela acima, era pai de seis filhos e morava  com a mulher num barraco de apenas um cômodo na Rocinha, favela onde nasceu e desapareceu. Sustentava a família com menos de um salário mínimo pelo trabalho e bicos que fazia. Quando Amarildo foi visto com vida pela última vez, sendo levado pelos policiais militares, ele estava sem camisa, vestia bermuda, calçava chinelos e portava documentos.

O nome e o rosto do Amarildo rapidamente viraram palavras de ordem viral nas ruas e nas redes virtuais. Ele teve sua história contada nos principais veículos de comunicação. Amarildo se tornou o desaparecido que virou celebridade pelo avesso, aquela que ninguém deseja, e dividiu o noticiário nacional com o Papa de passagem pelo país. “Cadê o Amarildo?”, foi a pergunta mais repetida do ano e obrigou o governo a apresentar uma meia verdade, já que o corpo continua desaparecido.

Amarildo era um cabra marcado para morrer na mão dos policiais militares. Segundo o depoimento dos próprios policiais, ele foi torturado até a morte ao lado da base da UPP. Vinte e cindo policiais foram denunciados, por ação e omissão, treze foram presos e outros doze ainda respondem em liberdade. Até o momento, ninguém revelou o destino do corpo que continua ocultado pelo manto da violência institucional, uma chaga que ainda marca o país.  

Amarildo é o desaparecido que caiu na boca do povo em 2013. Como toda família de alguém desaparecido, a de Amarildo aguarda o paradeiro do corpo. Se não for esquecido, Amarildo poderá evitar que outros desaparecimentos forçados aconteçam silenciosamente pelo Brasil afora. 

 Amarildo Presente na favela do Moinho (SP)

Encerro a transmissão de 2013 por aqui, renovado por um profundo desejo de paz e justiça pra todo mundo em 2014. O resto é consequência. 

Nos vemos por aí, nas ruas e nas rodas de poesia!

Missão cumprida: rumo a terceira edição do Festival do Filme Anarquista e Punk de SP



Sarau Sangue, Suor e Poesia Libertária na abertura do II Festival do Filme Anarquista e Punk de São Paulo, realizado nos dias 13, 14 e 15 de dezembro, no Centro Anarquista Ação Direta, no Brás, zona leste. Veja os registros de Elaine Campos e fique por dentro de tudo o que aconteceu nos três dias. Nos vemos em 2014, na terceira edição do Festival.
Leia a íntegra da nota da comissão organizadora do Festival aqui: anarcopunk.org/festival 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Coletivo Malungo lança cd e documentário sobre ensino de história afro-brasileira e africana para escolas de SP


Malungo: não deixe sua cor passar em branco

Taí o zine Malungo do projeto Não deixe sua cor passar em branco, que reuniu em 2013 poetas, repers e músicos comprometidos com o ensino de história da cultura afro-brasileira e africana. No projeto, faço uma participação nos versos e na rima do anarco-reper Avelino Regicida, na faixa Motim. Também fazem compõe o projeto Daniel Fagundes, Robsoul, Apologia Groove, Razallfaya e Semblantes. Em breve, o material será impresso com o nome de Cadernos Africanidades e será acompanhado de cd com músicas e documentário e distribuído em encontros educativos nas escolas públicas de São Paulo. Enquanto isso, curta a página no facebook do Coletivo Malungo e acompanhe as novidades!
Mais informações com Juliano, Kleber ou Lili: malungoprojeto@gmail.com

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

II Festival do Filme Anarquista e Punk de SP: cultura e arte política na contramão da produção do esquecimento!



A ideia continua sendo simples e direta: realizar um Festival dedicado a exibições de filmes, sobretudo documentários, recentes, criados principalmente por anarquistas e punks de várias partes do mundo. Como se isso não bastasse, inclui-se também na programação criações que abordam diversas temáticas sociais sob um olhar crítico e libertário. Círculos de conversa, oficinas, declamação de poemas e exposições artísticas completam a programação.

Herdeiro de uma cultura e arte política libertária comprometida com a classe trabalhadora e com qualquer outro grupo social historicamente marginalizado, excluído e injustiçado pela classe dominante e sua ideologia hegemônica, o Festival é apenas uma pequena amostra de como o audiovisual tem sido uma importante ferramenta de propaganda das idéias, agitações, estéticas e imaginações libertárias. No Brasil e no mundo, pequenas salas, muros, botecos, praças, campos de várzea, becos, vielas, lajes, sob um teto ou ao ar livre, cineclubes fazem exibições, realizam festivais e afirmam a presença anarquista também no contra-cinema comercial.

A maioria dos filmes e documentários que serão exibidos no Festival foi concebida de forma autônoma e independente. Munidos de tecnologia acessível e barata, muitos filmes são frutos do lema faça você também! e nem por isso perdem em qualidade estética. Não são filmes neutros nem filmes óbvios. Embora cada um deles apresente um compromisso com a história de anarquistas e lutadores/as movidos por um profundo desejo de justiça social em momentos e contextos diferentes. Aqui, não vale apenas ter “uma ideia na cabeça e uma câmera na mão”. É preciso ter a coragem de inserir na história e no imaginário social, narrativas, enredos, ações e personagens que a filmografia oficial faz questão de apagar. Neste sentido, o Festival coloca-se na contramão da produção do esquecimento na qual o cinema comercial está comprometido.

A repercussão do primeiro Festival realizado em 2012 foi tão positiva que muitas propostas surgiram antes mesmo de circular as inscrições para esta segunda edição. A quantidade de filmes aumentou depois que as inscrições foram abertas, novamente com produções feitas no Brasil, América Latina e outras partes do mundo. Da primeira para a segunda edição algo que nos chama a atenção é a quantidade de novos proponentes, que não inscreveram filmes no ano anterior e, sendo assim, são estreantes no Festival. Por um lado, o farto material reunido exigiu que a comissão estabelecesse critérios de exibição e organização da programação, e por outro, confirmou que o Festival veio mesmo para ficar!

Para esta segunda edição, o Festival preparou uma programação que vai ocupar três noites e dois dias. Na sexta tem a abertura com declamação de poemas, rap e apresentação das exposições e sábado e domingo tem exibições, círculos de conversas e oficinas, repetindo a edição anterior. Ao todo, serão exibidos 33 filmes, divididos em documentários, animações, vídeo-poesias e experimentais, longas, curtas. Além disso, quatro círculos de conversa, duas oficinas e quatro exposições permanentes. Títulos, sinopses, país de origem e ficha técnica estão disponíveis logo a seguir neste catálogo.

Durante todo o Festival, vai funcionar uma feira de livros anarquistas, libertários e publicações independentes, DVDs, discos, camisetas, acessórios e lanches veganos.

Há mais de um século o anarquismo vem alimentando a possibilidade de um mundo mais justo e igualitário no qual não caiba nenhum tipo de opressão. E há pouco mais de um século acontecia também a primeira exibição pública de um filme. O mundo nunca mais foi o mesmo depois do anarquismo e dos filmes. Ainda não sabemos se é possível um cinema anarquista. Os filmes que serão exibidos neste Festival apontam alguns caminhos. E como a história ainda não chegou ao seu fim, seguimos rumo a estação liberdade!

Do Morro Produções, AnarcoFilmes & Imprensa Marginal
Apoio: Centro Anarquista Ação Direta 


PROGRAMAÇÃO RESUMIDA

SEXTA, 13 DE DEZEMBRO

A partir das 19hs | ABERTURA

* Exibição de curta-metragem panorama do Festival 
 
* Sarau “Sangue, Suor e Poesia Libertária”

 
* Apresentação de Juntas na Luta (rap feminista)


* Abertura das exposições de fotografia de Marina Knup, desenhos de Kika, Nanu Alves e quadros de Juliano Angelin

* * *

SÁBADO, 14 DE DEZEMBRO

A partir das 11:00 | Oficina de produção audiovisual, com Coletivo Rua de Fazer  Inscrições pelo email festival@anarcopunk.org

SALA 1
14:15 | Una parte de la historia del rock y las culturas subterraneas en Tucumán y Argentina
e curta: Harina Acrata

15:30 | Sessão temática: De TIPNIS ao Santuário dos Pajés
17:00 | Rede Extremo Sul + O Muro da Vergonha
18:00 | Com Vandalismo
e curtas (A)Partidários e Anarcovândalos em Townsville
seguido de debate com Ativismo ABC, Biblioteca Terra Livre e Rede Extremo Sul


SALA 2
14:00 | Bibliotecas em Espaços Autônomos: Biblioteca Terra Livre
14:20 | Sessão Guerra Civil Espanhola – seguido de debate com Biblioteca Terra Livre
16:30 | A Voz do Trabalhador Livre: As Judias Anarquistas
17:45 | Squat Pantano Revida – O Filme
20:00 | Exibição do vídeo produzido na oficina de audiovisual, por Coletivo Rua de Fazer

ESPAÇO DE CONVIVÊNCIA
21:00 | Apresentação teatral: Trupe da Lona Preta

* * *

DOMINGO, 15 DE DEZEMBRO

A partir das 11:00 | Oficina de Câmera Pinhole com Renato (Coletivo Cultive Resistência) Inscrições pelo email festival@anarcopunk.org
* é necessário levar filme fotográfico

SALA 1
14:00 | Dos Canibais
15:00 | I Ruas de Fazer – Jardim Bandeirantes, Começou a Luta
e curtas: CICAS e Janela

16:00 | ESTRÉIA | 4F – Nem Esquecimento, Nem Perdão
18:10 | Conspirando Gritos Libertários
e curtas: Carne Perro e Caracas en Moto

19:20 | Beyond The Screams
e curta: Educatio, Omnis


SALA 2
14:30 | Sessão Encontro Ciclovida
Seguido de conversa com Coletivo Sem Nome

16:30 | Caminhada Anarcológica JF e Aos Berros: Movimento Punk em Juíz de Fora
18:00 | Feminismo Negro Contado em Primeira Pessoa
e curta: Negra Lésbica
Seguido de debate com Do Morro Produções, realizadoras e participantes dos filmes

Confira a programação detalhada aqui: http://issuu.com/anarcopunkorg/docs/catalogo_baixa?e=0
Maiores informações: www.anarcopunk.org

Agendaí 
Festival do Filme Anarquista e Punk de São Paulo
Dias 13, 14 e 15 (sexta, sábado e domingo), no Centro Anarquista Ação Direta 
Rua Dr. Almeida Lima, nº 434, ao lado da estação Brás do trem, zona leste de SP 

Veja como é fácil chegar: 


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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Favela e Ocupação realizam atividades culturais, audiência pública e ato no Centro de SP


 Clique sobre a imagem para ampliá-la!

O Movimento Organizado Moinho Vivo convida a geral pro terceiro Sarau Moinho Vive! marcado pra sexta-feira (18), às 19h30, na própria comunidade, localizada na Rua Dr. Elias Chaves, sob o viaduto Orlando Murgel e Av. Rio Branco, Campos Elísios, centro de SP. O Sarau faz parte da Jornada de Luta/QUARTO GRANDE ATO EM PROL DA FAVELA DO MOINHO (programação competa!) por água, esgoto, coleta de lixo, energia elétrica, hidrantes e a permanência da comunidade no local. Vai ser uma noite dedicada a declamação de poesia direta, a arte livre, a troca e o fortalecimento entre as comunidades. Saraus, movimentos e coletivos culturais, sociais e populares já confirmaram presença.

Já no sábado (19), às 14h, a Associação de Moradores da Favela do Moinho convida para a Audiência Pública Popular, também na própria comunidade com objetivo de pressionar, denunciar e cobrar o poder público por anos de omissão em relação aos direitos humanos dos moradores da Favela do Moinho.

Na audiência, será anunciado pelo pelo poder público o compromisso firmado no acordo no Ministério Público que permitirá o inicio das obras de melhorias emergenciais na comunidade.

Logo após a audiência, haverá a primeira Roda de Samba Moinho Vivo e a volta do Cordão da Mentira com a presença da Bateria da Escola de Samba Camisa Verde e Branco.


Clique sobre a imagem para ampliá-la!

Também no sábado (19), das 11h às 20h,  acontece o Ato em Memória pelos 30 anos da morte impune de Margarida Maria Alves (programação completa!), uma lutadora pelos direitos da classe trabalhadora. O ato vai acontecer na ocupação que leva seu nome, localizada na Rua General Couto de Magalhães, nº 381, na Luz, próximo às estações Luz de trem e metrô. 



Assista o depoimentos de Margarida Maria Alves

Na programação:

11:00hs - Abertura, chegança e videos

13:00hs - Bate papo sobre violência de Estado e a defesa dos direitos humanos com ÂNGELA MENDES, historiadora e do site Observatório das Violências Policiais de SP, GIVA (Givanildo Manoel da Silva), especialista em Politicas Públicas para Criança e Adolesente, membro do Fórum Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente e do Tribunal Popular e PAULINHO, liderança do MST - Movimento dos Trabalhadores Sem Terra.

14:00hs - SARAU VOZ ATIVA!

15:30hs - APRESENTAÇÃO TEATRAL: SER - TÃO - SER, com Buraco d'Oráculo

17:00hs - Apresentação do Grupo de Capoeira Herdeiros da Mauá, da Comunidade Mauá

17:30hs - Início do Ato-Vigília em Memória a Margarida Maria Alves 


 
A Palavra é Poder para o Povo, participe!

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Sarau e Mostra de Teatro promovem o direito à poesia, à arte e à cidade na Favela do Moinho (SP)



O Movimento Organizado Moinho Vivo convida a geral pro segundo Sarau Moinho Vive! marcado pra sexta-feira (11), às 19h, e também pra 1ª Mostra de Teatro Moinho Vivo, esta pra domingo (13), às 14h, tudo na própria comunidade. O Sarau e a Mostra fazem parte da Jornada de Luta/QUARTO GRANDE ATO EM PROL DA FAVELA DO MOINHO por água, esgoto, energia elétrica, hidrantes e a permanência da comunidade no local. Uma noite e um dia inteiro dedicados a declamação de poesia, teatro, arte livre, a troca de ideia e o fortalecimento entre as comunidades. Movimentos e coletivos culturais, sociais e populares já confirmaram presença. 
A Palavra é Poder para o Povo, participe!

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Cultura, Educação e Direitos Humanos: um tripé necessário para São Paulo!



O Brasil vive hoje uma efervescência de editais públicos, dos quais é importante destacar os voltados para a área cultural com objetivo de atender certa diversidade de protagonismo, criação, produção, manifestações e linguagens artísticas, visibilidade, territórios, etc. São milhões de reais em investimentos em projetos culturais a cada ano. No entanto, o país continua hostil a sua população jovem negra e moradora das periferias, como aponta o Mapa da Violência de 2012. 

Em São Paulo, a capital mais rica do país e ainda muito desigual, o retrato não é nada animador para a população jovem negra e moradora da periferia, como aponta o infográfico da SMDHC da PMSP. 

Um caminho para mudar este retrato é promover a participação e o debate sobre os vários planos a serem implementados na cidade de SP, aqui destaco os voltados para as áreas de Cultura, Educação e Direitos Humanos, tendo este jovem negro e morador da periferia - que hoje engrossa as estatísticas do Mapa da Violência -, não como público alvo, mas como protagonista no planejamento e execução dos vários planos a partir da relação com cada território. Mas isso precisa estar garantido como princípio e diretriz nestes planos em construção na cidade. E não é tão óbvio quanto parece quando diferentes interesses entram em jogo. 

Cabe primeiramente ao poder público municipal firmar os compromissos necessários entre secretarias, agindo sempre em parceria com quem atua diretamente nos territórios atingidos, nas periferias da cidade, se quiser de fato mudar esta triste realidade!

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Sarau Moinho Vive! promove noite de poesia e arte livre na Favela do Moinho (SP)



O Movimento Organizado Moinho Vivo convida a geral pro primeiro Sarau Moinho Vive! marcado pra sexta-feira (4), às 19h, na própria comunidade, localizada na Rua Dr. Elias Chaves, sob o viaduto Orlando Murgel e Av. Rio Branco, Campos Elísios, centro de SP. O Sarau faz parte da Jornada de Luta por água, esgoto, coleta de lixo, energia elétrica, hidrantes e a permanência da comunidade no local. Vai ser uma noite dedicada a declamação de poesia direta, a arte livre, a troca e o fortalecimento entre as comunidades. Saraus, movimentos e coletivos culturais, sociais e populares já confirmaram presença. 
A Palavra é Poder para o Povo, participe!