quarta-feira, 1 de maio de 2013

Literatura afrocentrada: Abelardo Rodrigues retorna com seu Memória da Noite revisitada & outros poemas




Esforço de uma parceria coletiva entre Ciclo Continuo, Axé Produções, Coletivo Cultural Esperança Garcia, Sarau Elo da Corrente, 5º Elemento, Coletivo Perifatividade, o escritor e poeta negro Abelardo Rodrigues vai apresentar seu Memória da Noite, revisitada & outros poemas, no próximo dia 10 de maio, sexta-feira, às 19h, na Ação Educativa (R. General Jardim, nº 660, Vila Buarque-Centro, SP). Lançado originalmente no conturbado final da década de setenta, o livro é uma obra significativa na história intelectual do negro paulistano que à época teve repercussão e causou impacto em toda uma geração literária afrocentrada. A nova edição apresenta, 35 anos depois, os textos e poemas da primeira edição revisitados, e também poemas inétidos. 

Na noite de lançamento, além da seção de autógrafos, teremos leituras de poemas do autor, exposição, projeção de imagens e a participação de Denna Hill e Henrique Elói nos agraciando com um requintado repertório musical.
 
Confira a página do evento criada no facebook atualizada diariamente com novidades sobre este lançamento. Aproveite pra colocar na agenda e confirmar ali mesmo sua presença!

Abelardo Rodrigues em sua casa na zona leste de SP

Abelardo Rodrigues nasceu em Monte Azul Paulista (SP), em 1952, e mora na zona leste paulistana a mais de 30 anos. Publicou Memória da Noite (Ed. do Autor, 1978). Foi co-fundador da antologia Cadernos Negros, junto com Oswaldo de Camargo, Paulo Colina, Cuti e Jorge Lescano. Tem participação na premiada antologia Axé – Antologia Contemporânea da poesia negra (Org. Paulo Colina, 1982), O Negro Escrito (Oswaldo de Camargo, 1987) e tem diversos textos publicados em revistas norte – americanas e alemãs; é um poeta muito representativo na cena da literatura negro brasileira, e sem dúvida, figura como escritor essencial para a literatura produzida pela coletividade negra paulistana.

  
Abelardo Rodrigues e Oswaldo de Camargo: literatura afrocentrada
(Foto: Leko Moraes)
 
Sobre o poeta de Memória da Noite, o também poeta, escritor e jornalista Oswaldo de Camargo destaca que:

(...) O livro de Abelardo Rodrigues (Monte Azul Paulista (SP), 1951), salvo equívoco nosso, já se acha inserido neste conluio dos mais ricos na história intelectual do negro paulistano. O poeta de Memória da Noite já se estriba em poetas negros com "obra".

(...) Abelardo Rodrigues é um dos poucos poetas negros que, com um livro só, foi notado e ficou. Ativista desta Literatura, sua atitude literária apontava, de fato, mudanças, linguagem deslocada para exemplar modernidade, muitas vezes sopradas do exterior, da África.
Em Oswaldo de Camargo, O Negro Escrito - Apontamentos da presença do negro na literatura brasileira (1987), pág 99.

O também poeta Hélio Pinto Ferreira (in memorian), na ocasião da 1ª edição de Memória da Noite, imprimiu a seguinte apresentação:

A leitura de “Memória da Noite” do poeta Abelardo Rodrigues, que me confiou os originais, foi para mim muito gratificante. Como o nauta que depois de navegar por longo tempo avista a terra e grita – “terra à vista”! – trazendo toda a marinhagem à proa, posso dizer: - eis um poeta!

(...) Trata-se de um poeta de drama interior, profundamente vinculado ao ser. Sua poesia retrata a frustração do homem de cor, sua luta, seu sofrimento no contexto de uma sociedade que o repele.
 
 Sofrimento que lhe traz à tona o grito de uma poesia, digamos participante, cuja filiação sem qualquer influência nociva está em Arlindo Barbeitos e Agostinho Neto, dois altos valores da poesia africana em língua portuguesa.
 
Poeta voltado para as contundentes realidades do preconceito da cor, sua poesia é látego, um chicote na noite escura que abre luz em nosso intelecto...
 
O bom poeta realiza a sua poesia de maneira pessoal. Abelardo Rodrigues realizou a dele numa forma que mais sugere do que diz, num tecido de palavras em que se escuta o grito do homem de cor.
Leiamos, pois, os poemas de Abelardo.


Uma geração de intensa inquietação criativa: Abelardo Rodrigues, Paulo Colina, Oswaldo de Camargo e Arnaldo Xavier, em matéria sobre literatura negra (1987)

Paulo Colina dedicou um poema para o poeta de Memória da Noite:

Espreita noturna
para o poeta Abelardo Rodrigues

Tem sempre algo
de porre
na caída de sono
das pálpebras cansadas
da tarde,
e um dedo de raiva
na fuga do cimento
das colmeias
(raiva e medo),
e o princípio cego
das peregrinações
ao tudo e ao nada.
Há pontas de desespero
nas brasas insensíveis
dos cigarros
e um fio minguado
de esperança
para atiçar
o impossível calor
dos quartos vazios.
Tem sempre um rosto,
um corpo de mulher,
no fundo dos copos.
Há sempre uma tocaia
da morte
no seio insone da noite
e um sorriso de criança
rasgando o ventre virgem
das manhãs.

Alguns poemas de Abelardo Rodrigues:

A NOSSA VOZ ALTISSONANTE

Sobre o Manifesto Negro Contra o Racismo, em 07/07/1978
nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, organizado 

pelo MNUCDR (MNU) Movimento Negro Unificado.

Floresceram naquelas escadas
vozes irriquietas de negritudes
que foram punhos diretos
içados como velas de fogo
ao mar de silêncio e medo
que nos dominava.

Vozes que tremularam liberdades
antigas
republicanamente amoitadas
em 1888.
Discursos dos despossuídos
de vozes
juntando-se à Nação calada
sobre novas botas de silêncio
galgando do espanto branco
que passava
o medo e
a interrogação

Vozes brasileiras negras
secularmente amor-.
-daçadas
reerguendo-se
junto ao coro dos
calados:

A nossa presença
negra
presságio
dos bons
ventos
da
Liberdade
sonho coisificado
nas senzalas coloniais
do silêncio.


Poema publicado em Memória da noite, revisitada & outros poemas, 2013.


Garganta

Hoje
é preciso que tua garganta
do existir
esteja limpa
para que jorre
teu negrume.
Uma garganta não é corpo
flácido
É sangue escorrendo
em
leilão de cais.
Sua garganta,irmão
É uma quarta-feira
de cinzas.
 

Poema publicado em Cadernos Negros 3. Poemas. Quilombhoje, 1980.


Batalha

Um exército de palavras
se faz necessário
para o nosso querer.
E que façamos guerrilhas
contra essa calmaria geral.

Há que pintarmos
um novo quadro
de momentos
que foram eternidades
em nossa pele

Poema publicado em Axé - Antologia Contemporânea da Poesia Negra Brasileira - Paulo Colina (org), 1982. Publicação premiada como melhor livro de poesia do ano pela APCA - Associação Paulista de Críticos de Arte.


 

Bibliografia de Abelardo Rodrigues

Obra publicada

Memória da Noite - Ed. do autor, São José dos Campos.1978.

Participação em antologias

Cadernos Negros 2. São Paulo: Ed. dos Autores, 1979; Cadernos Negros 3. São Paulo: Ed. Dos Autores, 1980; Axé - Antologia da poesia negra contemporânea - org. Paulo Colina. São Paulo, Global Editora 1982; A Razão da Chama - Antologia de Poetas Negros Brasileiros - org. Oswaldo de Camargo. São Paulo:GRD,1986; Seminários de Literatura Brasileira - 3 ª Bienal Nestlé de Literatura - org. Leo Gibson Ribeiro, São Paulo: Bienal Nestlé de Literatura, 1986; O Negro Escrito – Apontamentos sobre a presença do negro na Literatura Brasileira – Oswaldo de Camargo. São Paulo: Edição da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo,1987; Cadernos Negros – Melhores Poemas – Márcio Barbosa/Esmeralda Ribeiro (org). São Paulo: Quilombhoje, 1998; Poesia Negra Brasileira – Zilá Bernd. Porto Alegre: AGE, 1992. Literatura e Afrodescendência no Brasil: Antologia Crítica, vol. 3. - Eduardo de Assis Duarte (org). Belo Horizonte: EditoraUFMG, 2011.

Publicações no Exterior

Callallo - Revista - norte-americana, 1980 vol 3; Caribe (A quarterly magazine) - Editor: Marta Moreno Vega/New York State Council on the Arts and the Nacional Endowment for the Arts, N.Y. (EUA), 1980; Ika - Zeitschriftfur Kulturaustausch und internationale Solidaritat, n.25: Stuttgard (R.F.A.),1984; Schwarze Prosa - Org.Moema Parente Augel - Edition Diá - Alemanha, 1988; Schwarze Poesie Poesia Negra (edição bilingue alemão/português) - org. Moema P. Augel – St.Gallen/Köln: Edition Diá, 1988; The Black Scholar - Word Within a Word, vol 19: N.Y. (EUA), 1988.

Capas de Memória da Noite: ontem (1978) e hoje (2013)

Coordenação Editorial – Marciano Ventura
Revisão: Camila Omena e Taís Lopes
Revisão Final: Oswaldo de Camargo
Capa: Edson Ikê
Edição e Produção: Ciclo Contínuo, Produtora Axé, Elo da Corrente, Col. Esperança Garcia,
                               Col. Perifatividade e 5º Elemento.

Apoio para o lançamento: Ação Educativa

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Agenda
Lançamento: Memória da Noite, revisitada & outros poemas
Dia 10 de maio, sexta-feira, às 19h
Local: Ação Educativa - Rua General Jardim, 660, Vila Buarque-Centro, São Paulo
Entrada Franca

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Mumia Abu-Jamal: a voz dos que não tem voz!




Mumia Abu-Jamal completa hoje 59 anos. Mumia passou 30 anos em isolamento no corredor da morte na Pensilvânia, nos Estados Unidos da Amerikkka. Mumia foi condenado a morte em 1982, acusado de ter provocado a morte de um policial branco no mais polêmico e injusto processo judicial dos EUA, país que detém o maior número de presos do mundo, mais de 2 milhões de pessoas encarceradas, 25% dos presidiários do planeta.
Em seus textos, lidos e traduzidos para vários idiomas, Mumia sempre denunciou o encarceramento em massa como estratégia de criminalização da população afro-americana, indígena, imigrantes que resistem ao estilo de vida predatório naquele país.
Após anos de pressões locais e internacionais, só em 2012 a pena de Mumia foi revertida para prisão perpétua, sendo ele transferido para um presídio que permite a ele conviver com outros presos e acesso a medidas menos rigidas que as do isolamento total de anos anteriores.
Jornalista e ativista afro-americano, Mumia, que atuou no Panteras Negras, nunca se calou diante do racismo e das injustiças cometidas pelo governo norte-americano e seus aliados no mundo. Mumia, mesmo preso e isolado, sempre se preocupou com as lutas por justiça e igualdade, tanto na Amerikkka quanto no mundo. Pela sua luta, ficou conhecido por ser voz dos que não tem voz num mundo em que o isolamento dos mais pobres tem raízes nas injustiças e desigualdades.
A liberdade de Mumia Abu-Jamal coloca em xeque o sistema de injustiça nos EUA e sua máquina de criminalização e encarceramento em massa. Modelo vigente de estado penal incentivado por empresas privadas que veem na quantidade de pessoas encarcerados um jeito perverso de extrair lucros da administração e gestão da mão de obra barata, da prestação de serviços e abastecimento de presídios, muitos dos quais nas mãos de empresas privadas. Modelo já em andamento, inclusive, em muitas democracias do mundo. 


 

Juventude encarcerada

Às vezes me assusta a pouca idade de alguns dos presos muito jovens ao redor de mim.

Tenho conhecido garotos que nunca ouviram falar de Chuck D (Public Enemy), Carlos Santana, Jimi Hendrix ou Bob Marley. Quando menciono estes nomes, os olhares vazios me dizem que não fazem a mínima ideia de quem são, ou quem era, estes grandes músicos. É impossível falar com eles sobre jazz. Seria como falar sobre as liras de antigos gregos.

Este é um lado do complexo industrial carcerário que a maioria das pessoas - ativistas inclusive - não ve. Crianças encarceradas, tão jovens que nem barba ainda tem, condenados a pasar décadas na prisão!

A maioria são alvos da "guerra contra as drogas", da economia ilícita que cresce em muitas comunidades urbanas, da fúria cega que levou ao auge o encarceramento em massa, o qual era - e continua sendo -, o programa de emprego rural nos Estados Unidos da Amerikkka.

Inimigos do Estado ao nascer, estas crianças receberam uma abominável educação punitiva e vazia, um preâmbulo a prisão. Suas escolas foram os campos de treinamento para as prisões.

O que fica claro, ou o que deve ficar claro a todos, é que o sistema atual não serve. Tem que haver mudanças drásticas neste sistema!

Não serei eu a elogiar a Suprema Corte* dos EUA. Seria o último homem a fazer isso. Mas é uma indicação da política nacional atual - a política de vingança, represálias e destruição em massa através do encarceramento - o fato de que foi a maioria da Suprema Corte que determinou que dezenas de sistemas carcerários estatais estão funcionando de maneira anti-constitucional. Me refiro ao recente caso Alabama versos Miller, o qual tem a ver com sentenças de cadeia perpétua para jovens. Quem disse isso fois esta Suprema Corte, a mais conservadora dos últimas 50 anos!

E o que nos diz sobre isso o poder legislativo?
E o que nos dizem sobre isso os polítcos negros?
E o que diz sobre isso o status quo político?

Só um forte movimento pode mudar esta alarmante realidade.

Direto da nação encarcerada, sou Mumia Abu-Jamal.

*Equivalente no Brasil ao STF (Superior Tribunal Federal)

 Publicado em outubro de 2012 [Tradução livre por Ruivo Lopes]

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Poetas se encontram para bate-papo sobre literatura divergente e cena cultural da cidade


 
A convite do Tenda Literária, vou chegar lado a lado numa roda de bate-papo com os parceiros Binho (Sarau do Binho) e Ni Brisant (Sobrenome Liberdade). O tema sugerido pela organização pra puxar a conversa foi Literatura Divergente e Cena Cultural da Cidade. Após o bate-papo, haverá um sarau aberto pra quem quiser chegar e soltar o verso e o verbo, alto e bom som. A roda vai acontecer no dia 20 de abril, às 19h30, no Café com Cultura, no espaço Anchietanum que fica na Rua Apinajés, nº 2033, Vila Madalena (SP). Participe!

domingo, 14 de abril de 2013

Redução da maioridade penal: a democracia no lodo da desigualdade

 



O da pólvora
Apodrece penitente,
O da caneta
Enriquece impunimente,
A um, só resta virar crente
o outro, é candidato a presidente

 Os miseráveis, Sérgio Vaz
 
É o que eles querem, mais um pretinho na Febem.
Um homem na estrada, Racionais MCs

O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) completa 23 anos este ano. A lei é considerada um avanço constitucional, porque foi o primeiro instrumento criado na então recente democracia para proteger crianças e adolescentes no Brasil, principalmente aquelas em permanente condição de vulnerabilidade social agravada pela pobreza. Muito elogiado na época de sua aprovação, o ECA serviu de modelo para que outros países do mundo implementassem instrumentos semelhantes de proteção a crianças e adolescentes. Entretanto, o ECA vem sofrendo um obscuro linchamento público midiotizado e, como sempre, aproveitando-se da forte comoção social.

Como quase tudo no Brasil, cria-se primeiro a lei e depois joga-se para a sociedade disputar a sua implementação. É unanimidade para quem atua diretamente na defesa da criança e adolescente que a rede de proteção para essa significativa parcela da população brasileira ainda é muito deficiente. O diálogo intersetorial que deveria envolver a educação, cultura, trabalho, saúde, esporte, moradia e segurança ainda não resultaram em política públicas efetivas que tenham impacto satisfatório no desenvolvimento social pleno de crianças e adolescentes e que lhes dê a garantia de uma juventude e um futuro seguro. Porém, quando estes se envolvem em crimes, tornam-se facilmente alvos da pretensão de condená-los duplamente. A primeira pela desproteção da sua condição específica e segundo pelo peso desproporcional da lei que se aplica no país.

Nesse sentido, é desastrosa a ideia do governador de São Paulo Geraldo Alckmin de querer propor mudanças na maioridade penal. Ele declarou que pretende enviar ao Congresso Nacional um projeto para tornar mais rígido o ECA. A proposta do governador é que adolescentes que tenham cometido crimes e tenham completado 18 anos não fiquem mais na Fundação Casa. O governador também defendeu penas maiores para os crimes graves ou reincidentes.

Com essa posição, o governador Geraldo Alckmin, mais uma vez, dá mal exemplo ao se aproveitar da situação para apresentar sua débil ideia. O Brasil é o quarto país com a maior população carcerária do mundo. O Estado de São Paulo tem hoje 198 mil presos. Todos em celas superlotadas, distribuídos em presídios, centros de detenção provisória e delegacias em situação desumana e degradante. Em regime de privação de liberdade no país são aproximadamente 17 mil adolescentes, destes 9.016 só em SP. A maioria internada por tráfico de drogas e apenas 0,9% em ocorrências com vítima fatal. Lamentavelmente, a cada ano os números não param de crescer.

Seria melhor que antes de promoverem um linchamento de uma lei que ainda não foi implementada na dimensão que ela exige, fossem linchados publicamente os políticos e seus porta-vozes midiotizados que anseiam corromper o ECA e a sociedade não com o objetivo de proteger crianças e adolescentes, mas sim para reforçar um Estado Penal, afogando a democracia no lodo perverso da desigualdade.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Tortura não é legal!

 
 
Somente doze anos depois do fim da ditadura militar (1964-1985), e nove anos depois da constituição de 1988, passou a vigorar no Brasil, a partir de 1997, uma lei específica que tipifica e pune o crime de tortura. Desde 2011, o projeto que cria o Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura aguarda votação oficial. Na última terça-feira (2), o projeto foi aprovado na Câmara. Falta agora o Senado se posicionar. Organizações de defesa dos direitos humanos pedem correções no projeto.
 
Contrário ao projeto, o deputado federal Nelson Marquezelli (PTB-SP), teme que uma lei possa punir quem trabalha na área de segurança, especificamente policiais. "No interior, às vezes, o policial precisa ser mais rude com o bandido. Mas ai daquele que, para conseguir uma confissão, apenas ameaçar um delinquente, vai ter de responder na Justiça", disse. O deputado não estava sozinho nessa reação na Câmara ao projeto.
 
Tardia no país, a Lei 9455/97, foi criada justamente para proteger quem está em privação de liberdade ou sob guarda de agentes do Estado que, por exemplo, agirem de forma "rude", mediante ameaça para obter supostas confissões. Há decisões jurídicas no país que invalidaram depoimentos forçados mediante emprego de tortura. Já o Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, composto também pelo Comitê Nacional de Prevenção e Combate à Tortura e pelo Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, integrados mas com funções específicas, cria condições para que peritos monitorem instituições e faça recomendações e outras providências para combater a prática da tortura.
 
A tortura ainda é uma chaga institucionalizada no Brasil, praticada em sua maioria por agentes do Estado e alimentada também por quem deveria ter a obrigação de empregar esforços para combatê-la.
 
 
Em 2010, a TV Brasil fez uma reportagem chamada Tortura ainda assombra o Brasil (4min50s), tendo como base o Relatório sobre Tortura uma Experiência de Monitoramento dos Locais de Detenção, produzido pela Pastoral Carcerária. A reportagem é enfática ao afirmar que a prática da tortura, comum na ditadura, continua sendo uma realidade no Brasil. Aos 3min e 40 segundos, a reportagem explica o que é tortura e como ela deve ser punida. Assista!

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Teatro em dois tempos: Siré Obá e Morro como um País


Cia Teatro Nata exige respeito
para as religiões de matriz africanas
 
Na última sexta-feira (29), em pleno feriado cristão (Sexta-Feira Santa), aproveitei a folga e fui assistir a peça Siré Obá - A Festa do Rei, apresentada pela Cia de Teatro Nata, de Alagoinhas (BA). A peça encerrou a mostra Nova Dramarturgia da Melanina Acentuada que teve toda a sua programação sediada no Teatro Arena. A abertura da peça começou com um cortejo que saiu de dentro do teatro para a rua e pegou todo mundo que estava assistindo pela primeira vez de surpresa. Do ponto em que eu estava, uma cena única acontecia. Enquanto o cortejo entoava seu canto em exaltação aos orixás, a poucos metros dali, uma procissão de fiéis podia também ser vista se dirigindo para a igreja da Consolação entoando ladainhas católicas. Poucos minutos depois, o cortejo levou todo mundo que aguardava do lado de fora do teatro para o interior do Arena. A procissão levou os fiéis para o interior da igreja. A apresentação do Siré Obá tranformou o Arena num terreiro onde os orixas eram apresentados e porque não, no rito do teatro, fizeram ali também a sua festa. Religiosidade e arte afro-brasileira em cena. A Cia Teatro Nata envolvida pelo clima de posicionamento que marca o Arena exigiu o merecido respeito para as religiões de matriz africana, dizendo também alto e bom som: Feliciano não nos representa!

Kiwi Cia. de Teatro encena e debate ditaduras
 
No domingo (31), quando cristãos do mundo todo comemoravam a Páscoa, fui novamente ao teatro, dessa vez assistir a peça Morro como um país, da Kiwi Cia de Teatro, ainda em cartaz no Teatro Grande Otelo (SP). Presentes ali, diferentes gerações de ativistas sociais interessados na ressurreição da memória coletiva de um país que teve seu mais longo 31 de março da história. Foram 21 anos de ditadura militar, iniciada em 1964. Fazem, portanto, 49 anos do golpe que interrompeu não só a vida de inúmeras pessoas, mas também a vida política do país tocada, apartir dalí, a botinada e pau de arara. Parece que foi ontem, como a narrativa e os vários recursos usados na apresentação da peça parecem apontar. Estava combinado que depois da apresentação da peça aconteceria um debate para o qual foram convidados estudantes que representaram a Comissão da Verdade da USP (Campus Butantã e Largo São Francisco), Amélia Teles (Comissão Estadual da Verdade) e Ivan Seixas (Presidente do Condepe-Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), ambos perseguidos, presos e torturados pela ditadura militar brasileira (1964-1985). Aqui está um teatro que não apenas expõe o problema, mas convida a quem está diante dele a refletir e também se posicionar. O debate durou quase o mesmo tempo da apresentação da peça, índicio de interesse geral no que a arte ainda tem a nos dizer sobre a vida, a história e também o futuro.

Na ocasião, compartilhei com quem estava presente que o ranço autoritário da ditadura militar encontrou acento seguro na democracia. É possível observar isso, por exemplo, no tripé: Polícia Militar, Poder Judiciário e Meios de comunicação dominante.

Explico:

Adolescente perde a visão em
ação da Polícia Militar em Paraisópolis

Justiça Federal concede reintegração do Museu do Índio,
na ocasião ocupado pela Aldeia Maracanã (RJ)
 
 
Jornalista Luiz Carlos Azenha,
processado por criticar diretor da Globo
 
O jornalista Luiz Carlos Azenha, editor do Viomundo, blog onde você lê notícias que não são destaque na impresa dominante, foi  processado por Ali Kamel, direitor da Central Globo de Jornalismo. A Justiça carioca condenou Azenha a pagar 30 mil reais a Kamel. O crime do blogueiro foi ter criticado o todo poderoso Kamel pela postura adotada pela Globo na cobertura da campanha presidencial de 2006. A sentença abalou o blogueiro, mas ele tá vivo, como uma fenix!
 
É tempo de exorcizar de uma vez por todas a herança maldita deixada pela ditadura militar. A memória histórica de um país deve ser erguida em condição de verdade e nela se buscar a justiça, sem exceção. Taí, um bom começo!

quarta-feira, 27 de março de 2013

Sarau Suburbano lança documentário e antologia poética!

 
 
Com licença pra fazer um convite pra você!

O escritor, apresentador e suburbano convicto Alessandro Buzo manda avisar que tem novidade na praça. Nesta quinta-feira, 28 de março, às 19h, o Sarau Suburbano, tradicional encontro poético que acontece no Bixiga, vai fazer festa pra apresentar as novas criações! Antecipando as comemorações pelos 3 anos do Sarau, vai acontecer o lançamento do documentário Sarau Suburbano - Poesia, Rimas e Atitude (57 min.) e a antologia literária Poetas do Sarau Suburbano, volume 2. O documentário cobre toda a movimentação que aconteceu durante o 2º Festivel Literário Suburbano Convicto, realizado em janeiro deste ano, na Vila Cisper, zona leste de SP. Já a antologia reúne um time de 58 poetas que se apresentam constantemente no Sarau Suburbano.
 
 

Alessandro Buzo considera os lançamentos conquistas coletivas tamanho foi o envolvimento geral no processo de criação tanto no filme quanto no livro. Um sonho realizado, conquistado e compartilhado coletivamente, sem dúvida nenhuma!

 
O lançamento vai acontecer na Livraria Suburbano Convicto (Rua Treze de Maio, nº 70, Bixiga, Centro de SP). A única livraria especializada em Literatura Marginal Periférica do país. Lá acontecem lançamentos de livros, discos, filmes e lá você encontra também toda a criação literária da periferia editada nos últimos anos e muito mais. Vá, confira, assista e leve seu documentário pra casa, escola, associação, cineclube. Aproveite porque as dedicatárias na antologia feitas por quem estiver presente são de graça!

 
Participe, porque, afinal, a cultura é nossa e a estrutura reforça!


terça-feira, 26 de março de 2013

Reintegração de posse: faltou justiça no Iguatemi



Reintegração de posse

O terreno que era baldio
O povo sem medo ocupou
De sol a sol construiu
A casa que sempre sonhou

O proprietário não gostou do viu
E a posse na justiça buscou
O nobre despacho serviu
Para o cão de guarda bastou

O povo inconformado reagiu
A força e a coragem buscou
Paus e pedras na mão reuniu
Contra a violência revidou

Armado o cão de guarda vil
Tiros e bombas disparou
Reintegração de posse cumpriu
Mas justiça mesmo faltou

                 - Ruivo Lopes


Tropas da polícia militar cumprem violentamente a ordem de reintegração de posse emitida pela justiça paulista nesta terça-feira (26). Há um ano,  mais de 700 famílias ocuparam o terreno baldio no Iguatemi, na zona leste de SP, e construíram casas para morar. Após algumas famílias terem feito a mudança dos móveis, as tropas da pm terem disparado tiros de borracha e bombas de gás, algumas casas terem sido demolidas, a prefeitura conseguiu paralizar e prorrogar a reintegração de posse na justiça para o cadastramento emergêncial das famílias expulsas do terreno. O futuro das famílias ainda é incerto.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Maracá: o memorial dos povos indígenas


Maracá

Quando senti o chão tremer
E avistei no alto o maracá voar
Despertei a aldeia para ver
O bando que acabara de chegar


Das caravelas de aço vi descer
Desafetos de outrora a bradar
Reconheci o palavreado a dizer
Que ali eu não iria mais ficar


Eles queriam ainda me fazer crer
Que para mim há outro lugar
Eu pergunto como posso assim viver
Se aqui também é o meu lugar


Reminiscências de ódio vi crescer
Ardência ignorância nos olhos a cegar
Destemida memória não trai meu ser
Foi a história que me fez para cá voltar


                                        - Ruivo Lopes

Policial militar prende indigena da Aldeia Maracanã
 
A expulsão violenta da Aldeia Maracanã, ocupação do Museu do Indio, na sexta-feira (22), produziu cenas de profunda indignação pela truculência usual da Polícia Militar do Rio de Janeiro. O objetivo da operação militar de guerra era evacuar o prédio e deixar o caminho livre para as obras de expansão comercial do Maracanã para a Copa do Mundo de 2014. Representantes de diferentes etnias indígenas há anos exigem da prefeitura, estado e união o tombamento do prédio para a criação no local do memorial dos povos indígenas.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Literatura da periferia: semeemos!


 

Sou um poeta engajado. Assim, não posso dissociar a poesia da ação.
Tudo que é cultural permanece essencial aos nossos olhos.
Aliás, a política não mereceria uma parcela sequer de energia
se não se justificasse por um projeto cultural

Aimé Césaire, poeta e ativista martiniquenho da negritude (1913-2008)


Nos dias 15, 16 e 17 de março, participei do I Seminário de Literatura da Periferia que aconteceu no CCJ - Centro Cultural da Juventude, na Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de SP. Além do Seminário, aconteceu também uma feira de livros da periferia e edições independentes, além de oficinas, lançamentos e apresentações de dança afro e rap com Odisséia das Flores. Uma semana depois, tenho o tempo como irmão da reflexão.
 
Feira literária contou com a presença de autores e autoras nos 3 dias

O Seminário contou com eixos temáticos que orientaram cada um dos 3 encontros. Resumidamente, os eixos eram: Literatura da periferia e política, Teorias e práticas que se entrelaçam na educação e na literatura da periferia, e Entre as frestas e a forma, a presença estética na literatura da periferia.

Os coletivos Elo da Corrente, Poesia na Brasa e Projeto Espremedor, organizadores do Seminário, apontaram a fim de abordagem 3 elementos que compõem a criação literária da periferia. Além do valor literário e oral em si, a literatura da periferia manifesta também dimensões política, educativa e estética que lhe confere identidades.


 Primeiro dia do Seminário: Nelson Maca, Diego Arias e Ruivo Lopes

O tema do primeiro dia foi Literatura da periferia e política. Na roda, eu, Nelson Maca (Sarau Bem Black, da Bahia Preta) compartilhamos com quem participou algumas idéias que cada um defende a partir do tema sugerido pelo Seminário. Maca, sem fazer curva, abriu os caminhos para as idéias com poesia e apresentou alguns pontos do Manifesto daLiteratura Divergente ou Manifesto Encruzilhador de Caminhos, no qual a textualidade - e outras possibilidades - negra surge como essência. Eu optei pela abordagem do combate e situar a criação literária da periferia num campo de batalha ocupado pela literatura dominante. A saber, criação literária como estratégica e, portanto, para além das letras, campo de batalha como território (físico e subjetivo) em disputa, e literatura dominante como aquela produzida e reproduzida na imagem e semelhança dos pilares sociais conservadores da dominação. A roda foi mediada pelo Diego Arias, do Poesia na Brasa.

Segundo dia do Seminário: Celinha Reis, Chellmí e Allan da Rosa

No dia seguinte, Celinha Reis e Allan da Rosa entraram na roda para abordar o tema Teorias e práticas que se entrelaçam na educação e na literatura da periferia. Com anos de experiência como professora da rede pública, Celinha fez uma abordagem da literatura da periferia de fora para dentro da escola, apontando para a dimensão educativa e libertadora dos textos da periferia. Allan da Rosa foi buscar na própria vivência, olhares, histórias, despercebimentos e demais elementos do cotidiano da periferia para conduzir sua narrativa questionadora e avessa a modelos que limitam novas possibilidades literárias. Neste dia, a roda foi mediada pelo Chellmí, do Poesia na Brasa.

Terceiro dia do Seminário: Érica Peçanha, Michel Yakini e Cidinha da Silva
 
No último dia do Seminário, a escritora Cidinha da Silva e a pesquisadora Érica Peçanha entraram na roda para abordar o tema Entre as frestas da forma, sobre a estética presente na literatura da periferia. Em outra ocasião, eu já havia apresentado a Cidinha como uma prosadora de mão cheia. Mas ela também é prosadora na fala questionadora e na criação literária afrocentrada. Por um lado, para ela, a criação literária pode ter rumo próprio sem conter um discurso político em si, mas mais como possibilidade de quem lê suas narrativas.  Por outro, sugere o enegrecimento da literatura da periferia e seus territórios de manifestação, como, por exemplo, os saraus. Érica pela primeira vez pôde apresentar sua pesquisa num encontro organizado por alguns protagonistas do universo do seu livro Vozes Marginais na Literatura e foi além na sua ideia. Destacou a realização dos saraus como espaço de formação para além das letras, que a performance tem papel importante para a poesia da periferia e apontou o reconhecimento comunitário do poeta. Ela também chamou a atenção para a ainda pouca participação ou visibilidade da mulher como protagonista na literatura da periferia. No último encontro do Seminário, a mediação da roda ficou por conta de Michel Yakini, do Elo da Corrente.

Foram 3 dias de encontros para trocar idéias sobre outras dimensões possíveis da literatura da periferia. Alguns participantes levaram para os encontros acúmulos e reflexões de momentos e experiências que aconteceram anteriormente. A diferença de geração que se fez presente, os vários caminhos que cada um tomou pela literatura e que foram apresentados ao longo do Seminário, não impediram a palavra de correr solta entre os participantes. Pelo contrário, a todo o momento alguma citação situava as referências de quem a pronunciava. Nomes como Abdias do Nascimento, Milton Santos, Cuti, Paulo Freire e mais, surgiam para reforçar certo legado.

Algumas idéias que atravessaram os encontros surgiram quase sempre nas beiradas dos saraus. Idéias apresentadas e problematizadas por sujeitos coletivos e lançadas entre um poema e um canto ou entre um conto e um ponto.

Certo é que o I Seminário de Literatura da Periferia mobilizou e articulou gente interessada na troca de idéias e na reflexão sobre apenas algumas dimensões nem tão explícitas do que se está fazendo e chamando de literatura da periferia. É neste sentido que afirmo que o tempo é o irmão da reflexão.
 


Participantes durante os 3 dias de Seminário

Acabou o Seminário, mas a roda continua. A abordagem de temas entrelaçados a criação literária da periferia não está esgotada. O próprio Seminário mais abriu caminhos do que fechou.

Seminário quer dizer também viveiro de plantas. Lugar onde sementes são muito bem cuidadas, sem pressa, para depois de germinadas e fortalecidas as raízes serem lançadas em territórios onde a sobrevivência vai depender primeiramente do enraizamento e conquista do espaço.

Semeemos!
 
 
[Registros poéticos de Sonia Regina Bischain, veja +]

quinta-feira, 21 de março de 2013

Racismo não, pára!




- o racismo não pára*
tá na cara
tá na pele
tá na folha
se escreve
é palavra
é Brasil
 
Há um costume brasileiro muito antigo e afeito que  a cordialidade no trato evita que chamemos as coisas como elas realmente são para evitar o conflito. Racismo é racismo, não é mal entendido e ponto final!
 
- o racismo não pára
tá na página
tá na estrofe
tá no verso
tá na imagem
é textura
é Brasil
 
Em menos de uma semana, dois fatos ameaçaram virar notícia. O primeiro, foi o trote aplicado por alunos de direito racistas da UFMG. O segundo, foi a homenagem racista que o estilista Ronaldo Fraga preparou para seu desfile na São Paulo Fashion Week. Digo "ameaçaram virar notícia" porque notícia quer dizer informação e deriva em conhecimento. O racismo deforma a informação e bloqueia o conhecimento.
 
- o racismo não pára
tá ao lado
tá ausente
no passado
no presente
é corrente
é Brasil
 
Os alunos racistas são de Minas Gerais. O estilista Ronaldo Fraga, responsável pela homenagem racista, também é de Minas Gerais. Estado fundado com sangue, suor e raça do povo negro. O descaso com a história de um povo é um convite para o racismo.
 
- o racismo não pára
tá na mente,
tá no agora
no passado
na memória,
é história,
é Brasil
 
Os primeiros despiram a branca, pintaram-na de preto, acorrentaram-na com cadeado, emplacaram-na com cartaz de papelão no qual estava identificada como caloura Chica da Silva, em referência a ex-escrava mineira nascida no século XVIII. A caloura foi arrastada pelo Campus da Universidade como um troféu de outrora. O sorriso branco diante da opressão são sinais evidentes de simpatia, prazer e complacência com o racismo.
 
- o racismo não pára
tá no nectar
tá no sumo
na semente
no consumo
é cultura
é Brasil
 
O outro colocou perucas de palha de aço na cabeça de modelos para supostamente homenagear a beleza negra. O racismo no Brasil é tão perverso e cínico que tenta se positivar mesmo mantendo sua natureza negativa, racista. A beleza negra não precisa de disfarce nem se apropriar daquilo que não é. Abeleza negra também está no cabelo crespo, sim!
 
- o racismo não pára
tá no fruto
tá no suco
na folhagem
no charuto
é produto
é Brasil
 
Os primeiros declararam que a prática racista não passou de uma brincadeira. O outro declarou que foi pego pela ronda politicamente correta. Duas expressões cordiais para dissimular o racismo no Brasil. Uns escondem o racismo no deboche, o outro na arrogância.
 
- o racismo não pára
tá no copo
tá no prato
no varejo
no atacado
é mercado
é Brasil
 
O ruído branco causado pelos dois fatos que não chegaram a virar notícia gerou certo incomodo. Mas como o racismo não pára, o ruído branco logo vira costume, relaxa e vai dormir.
 
- o racismo não pára
tá no nível
tá no plumo
tá na cerca
tá no muro
é concreto
é Brasil
 
Foram esses os dois fatos que quase viraram notícia na semana marcada pelo Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial. Soma-se a estes o caso da adolescente de 12 anos espancada por ser negra numa avenida pública do Distrito Federal. Enquanto as jovens a espancavam, ela ouviu de uma delas que não aceitavam negras no beco delas. Imagina o que terá acontecido com o racismo que nem chegou perto de ser quase notícia no Brasil.
 
- Racismo não!
Pára!
 
 
* Poema O Racismo não Pára, de Nelson Maca, disponível em Gramática da Ira.

quinta-feira, 14 de março de 2013

A poesia, o papa e a verdade

 

 
Um dia após o anúncio do novo-velho papa, neste 14 de março, dia do nascimento do poeta baiano Castro Alves (1847-1871) e que marca o dia da poesia, meus versos continuam retos, sem curva, afiados em defesa da memória, verdade e justiça. 
 
Que havia água benta nos gabinetes militares e marcas de coturnos nos altares da Igreja isso todo mundo já sabe. Na argentina de Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, centenas de familias ainda aguardam uma explicação sobre o paradeiro de pelo menos 30.000 pessoas desaparecidas.
 
Quem tem medo da verdade
 
(...)
Tenho o dever de falar porque não sou cúmplice...
Quando uszomi vieram, eles chegaram abençoados
E agiram em defesa do sono dos justos
Estes tiveram a oportunidade de fazer justiça
Mas se calaram, voluntariamente
 

(...)
Onde está? Onde está?
Ainda gritam mães, filhos e avós
Ninguém - até hoje! - apareceu pra explicar

(...)
Mas a verdade está a caminho e ninguém - ninguém! - a deterá!



Poema completo publicado em Coletivo Cultural Poesia na Brasa, Antologia Volume IV, 2012.



domingo, 10 de março de 2013

Feira Literária e Seminário de Literatura da Periferia no CCJ (SP)

 

Peço licença pra fazer um convite pra você!

Nos dias 15, 16 e 17 de março, o Centro Cultural da Juventude vai realizar sua I Feira Literária junto com o I Seminário de Literatura da Periferia. O objetivo é reunir ao mesmo tempo uma amostra da produção literária da periferia e refletir suas possíveis dimensões políticas, pedagógicas e estéticas. Na pegada dos encontros onde a prosa e a troca de ideias vão longe no tempo e no espaço, o Seminário terá três momentos diferentes onde quem participar poderá se envolver com a literatura da periferia que não por acaso corre a margem da produção literária dominante no país.

Confira a programação completa abaixo, marque na agenda, divulgue pros seus contatos e, principalmente, participe!

Nos vemos lá!
 
 
 
I SEMINÁRIO DE LITERATURA DA PERIFERIA

O Seminário pretende discutir e analisar a produção literária das periferias, em SP e fora do Estado, com base nos eixos: Política, Educação e Estética, em três palestras/debate com a presença de escritores/as (poetas e prosadores) educadores/as e pesquisadores/as que atuam e refletem o tema.


PROGRAMAÇÃO
 
 





> 15/03 (sexta-feira)
 
15h às 18h
Oficina Processos Editoriais (espaço sarau) é necessário inscrição prévia

18h às 20h
Tema: Literatura da periferia e política: trança de raiz?
Sinopse: Entre manifestos e manifestações a literatura da periferia parece gritar em todos os seus temas. Nela o direito à existência é afirmado na denúncia e no amor, na dureza da narrativa e no gozo do verso e vice-versa. A proposta é discutir quais são as aproximações ente a produção literária da periferia (oral e escrita) e a ação política inerente ao ser social. Onde elas se encontram? Ou mesmo, é possível existirem separadas?Palestrantes: Nelson Maca (BA) e Ruivo Lopes (SP)Mediador: Diego Arias (Sarau da Brasa)

> 16/03 (sábado)


14h às 17h
Oficina Como fazer um e-book (sala de projetos) é necessário inscrição prévia

18h às 20h
Tema: Barreiras visíveis e invisíveis: Teorias e práticas que se entrelaçam na Educação e na Literatura da periferia.
Sinopse: A proposta é que os convidados discorram sobre suas atuações entre o universo da Educação e da criação literária da periferia, suas visões e perspectivas neste trânsito de conhecimentos que podem potencializar cada vez mais as relações sociais. Como encontrar brechas para aguçar o imaginário dos educandos no ensino formal, como desenvolver ações no ensino dito informal, em que saraus, centros culturais independentes estão em movimento, engrossarão o caldo neste encontro.Palestrantes: Allan da Rosa (SP) e Celinha Reis (SP)Mediador: Michell da Silva - Chellmí (Sarau da Brasa)

> 17/03 (domingo)


14h às 17h
Oficina Como fazer um e-book (sala de projetos) é necessário inscrição prévia

14h às 16h
Lançamento Perifeminas com Pocket Show de Odisséia das Fores

16h30 às 17h
Intervenção Dança com P.

17h às 19h
Tema: Entre as frestas da forma: Rachaduras e horizontes.
Sinopse: A mesa propõe discutir e analisar o desenvolvimento estético da literatura da periferia (oral e escrito), a relação e os entraves com a atuação engajada de seus protagonistas.Palestrantes: Cidinha da Silva (MG) e Érica Peçanha (SP)Mediador: Michel Yakini (Sarau Elo da Corrente)
 
19h - 20h - Coquetel de encerramento.

Dias: 15, 16 e 17 de março de 2013
Local: Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso
Av. Deputado Emílio Carlos, nº 3.641, Vila Nova Cachoeirinha, Zona Norte, (ao lado do terminal Cachoeirinha)

Como chegar
: http://ccjuve.prefeitura.sp.gov.br/como-chegar/

Organização
CCJ Ruth Cardoso

Projeto contemplado no Edital de Ocupação do CCJ

sexta-feira, 8 de março de 2013

Com licença, eu vou à luta: Dia Internacional de Luta das Mulheres



A equipe Blogueiras Feministas preparou especialemente para a semana do dia 8 de Março uma série de textos sobre a história da luta das mulheres que alimenta as lutas no presente e projeta no amanhã um mundo que se envergonhará da discriminação, do machisco, da desigualdade, da violência e outras formas de opressão às mulheres.

Dos textos publicados, indico a leitura de "Enegrecer o feminismo": o movimento de mulheres negras no Brasil, da historiadora feminista Bárbara Araújo.


Na história brasileira, encontramos organizações específicas de mulheres negras desde o início do século XX. A Sociedade de Socorros Mútuos Princesa do Sul, fundada em 1908, e a Sociedade Brinco das Princesas, de 1925, respectivamente em Pelotas e São Paulo, eram formadas estritamente por mulheres negras. Elas integraram também uma grande parcela da Frente Negra Brasileira (FNB), fundada em 1931 e considerada a entidade negra mais importante do país na primeira metade do século XX, tendo arregimentado mais de 20 mil associados em diversos estados. Ainda nos anos 30 foi fundada a primeira associação de trabalhadoras domésticas no estado de São Paulo, que teve como principal representante a ativista Laudelina Campos Melo, que também integrava a FNB. Já em 1950, foi fundado o Conselho Nacional da Mulher Negra, formado por mulheres vinculadas à cultura, às artes e à política.
Leia o texto completo aqui!

Participe do Ato/Passeata vai marcar o 8 de Março - Dia Internacional de Luta das Mulheres. Concentração às 13h, na Praça da Sé (SP).