sexta-feira, 26 de julho de 2013

Comunidade Mauá recebe Sarau neste domingo!



Neste domingo, dia 28, às 17h, o Sarau da Praga vai acontecer na Comunidade Mauá, na Rua Mauá, 340 (ao lado da estação Luz de trem/metrô). Nesta edição, o Projeto Praga convida pra se apresentar o poeta Ni Brisant e o grupo de capoeira Herdeiros da Mauá. A entrada é gratuita, mas, por favor, doe livros de poesia, literatura, infantil e pra colorir que ficarão pra comunidade. Participe!

Exibição de filme e debate destacam a defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes



No sábado, 27, às 18h, na Cinemateca de Santos, na Rua Xavier de Toledo, nº 42, Campo Grande, em Santos (SP), será exibido o documentário Juízo (Brasil/2007, 90 min.), da cineasta Maria Augusta Ramos, sobre o sistema social, econômico e judiciário em conflito com crianças e adolescentes pretos e pobres no Brasil. Em seguida, os educadores Ruivo Lopes e Tubarão Santos debaterão Por que a redução da maioridade penal é um crime contra os Direitos Humanos. A atividade é gratuita e é promovida pelo Núcleo de Estudos Libertários Carlos Aldegheri. Participe!

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Saraus promovem muito ritmo, poesia, debate e lançamento de livro em SP



O Sarau Sangue, Suor e Poesia Libertária, recital de poesia de combate, vai abrir o Festival Sinfonia de Cães Xtreme V, que acontece neste sábado, 20, às 13h, na Praça Carolina Maria de Jesus* (também conhecida como Praça Roosevelt), no centro de SP. Várias atividades compõe a programação do Festival, além da apresentação de bandas peso-pesado.


E um pouco mais tarde, às 19h, acontece o Sarau Perifatividade, no Bar do Bone, que fica na Rua Nsa. Sra. da Saúde, 1007, Vila das Mercês, Ipiranga, na zona sul. Nesta edição o rapper e escritor Eduardo (ex-Facção Central) chegará pra apresentar e lançar seu primeiro livro "A guerra não declarada na visão de um favelado". 

Tanto no Festival quando no Perifatividade HAVERÁ VENDA DE LIVROS DE LITERATURA DE COMBATE, MARGINAL E PERIFÉRICA a preços populares. 

Doações são sugeridas, mas é tudo gratuito. 

Participe... afinal, a cultura é nossa!


* É uma sincera homenagem do Sarau Sangue Suor e Poesia Libertária a escritora negra Carolina Maria de Jesus (Sacramento, MG, 1914 - São Paulo, SP, 1977), autora de Quarto de Despejo (1960), entre outros. Senhora de uma escrita autêntica e baseada nas próprias vivências, Carolina viu sua obra vender milhares de cópias e ser traduzida para vários idiomas mundo afora. A autora e sua obra continuam influenciando gerações de escritores e escritoras. Uma escola aqui e outro espaço ali levam o nome de Carolina. Em São Paulo, na Vila Tolstói, no Sapopemba, zona leste de SP, uma rua leva o nome de Carolina Maria de Jesus. Carolina merece mais!

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Sua filha quer ser negra, que ironia!


Blackface: modelo branca pintada de preto  
[Foto Sylvie Blum/ Models Paparazzi]

Isabel é branca, tem só 4 anos e chora muito. A mãe, com uma intenção na cabeça e uma camera na mão, filma a filha banhada em lágrimas. Isabel chora porque quer ter a pele negra. A menina acha a pele negra linda. A mãe reforça que a pele branca também é linda. Ela tenta amparar a filha, dizendo que quando ela crescer poderá se casar com um marido negro e ter um monte de filho negrinho. Isabel se desespera, ela parece não querer esperar nada disso. Decidida, ela quer ser negra aqui e agora. A mãe apela: "Papai do céu fez você com a pele branca". A menina parece não se conformar e insiste: "Quero negra!". Diante do impasse, a mãe negocia uma saída, pintar a filha com tinta negra. A menina pára de chorar. Começa a se recompor e pede para não pintar seu olho. "E o cabelo?", pergunta a mãe. "Loiro", responde a filha. "A menina negra do cabelo loiro", anuncia a mãe. (ouve-se risos ao fundo) "Combinado", diz a mãe, "compramos a tinta e pintamos você de negro", prossegue. A menina pede para fazer uma rodinha no olho, para não arder. Emocionada e com a filha já tranquilizada, a mãe pergunta: "Tá feliz?". "Tô", arremata a filha. É o fim!

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Horizontalidade na luta de classes: a hora e a vez da periferia!


Horizontalidade na luta de classes
Por José Francisco Neto/Brasil de Fato

O Movimento Passe Livre, diferentemente de outras organizações sociais, abre espaço para autonomia sem lideranças e busca a participação popular na política [Foto: Marcelo Camargo/ABr]

Quanto mais essa horizontalidade politizada, afinada com os princípios coordenados coletivamente, os movimentos sociais e populares serão mais fortalecidos 

Desde o início que cobravam a diminuição das tarifas do transporte público, o Movimento Passe Livre (MPL) não demonstrou interesse em se destacar como o protagonista dos protestos que se alastraram pelo país. Pelo contrário. Em todas as entrevistas concedidas à imprensa, integrantes do movimento disseram que “essa luta quem faz é o povo”.

Diferentemente de outros movimentos sociais, o MPL se organiza de maneira horizontal, ou seja, na busca pela igualdade de participação política. A comunicação se dá entre todos do grupo, e a adesão a uma proposta se faz por convicção, como declara Matheus Preis, integrante do movimento

“Todo mundo tem espaço para participar das deliberações coletivamente. Nesse sentido, a gente acaba tomando decisões mais acertadas por terem mais pessoas participando do processo da discussão da linha política do coletivo,” declara.

Apartidarismo

O apartidarismo também está na base do movimento, mas isso não significa que ele seja antipartido. Os partidos políticos são bem-vindos nas manifestações, mas não participam do MPL enquanto organizações. Pessoas filiadas a partidos podem aderir ao movimento enquanto indivíduos.

Preis acredita que a adesão popular, tanto nas ruas quanto no movimento, tenha sido motivada por conta da não ligação partidária do MPL e das decisões tomadas coletivamente.

“Nós achamos que nenhum militante deve participar mais do que outros de maneira determinada. A gente estabelece uma relação muito forte devido à horizontalidade, por isso, construímos sempre com o coletivo, todo mundo junto.”

Para Ruivo Lopes, membro do coletivo Sarau Perifatividade, da zona sul de São Paulo, o MPL deu um grande exemplo de organização que permitiu maior participação nos debates.

“Quanto mais essa horizontalidade politizada e afinada, sobretudo com os princípios coordenados coletivamente [for posta em prática], sem dúvida, os movimentos sociais e populares serão ainda mais fortalecidos. A gente não pode desperdiçar esse exemplo”, avalia.

Grazi Massoneto, integrante do movimento Ocupa Sampa, que atuou em manifestações em São Paulo no ano de 2011 e 2012, avalia que a horizontalidade permite mais diálogo por ser mais aberta.

“Com a horizontalidade, ninguém precisa se preocupar em aceitar o que alguém de cima falou, pois não existe esse ‘de cima’. As pessoas são mais livres para manifestar seu pensamento”, explica.

Atuante em movimentos sociais há 30 anos, Givanildo Manoel (Giva), hoje militante do PSOL, diz que sindicatos e partidos de esquerda sempre lutaram para que as relações fossem as mais horizontais e democráticas possíveis. No entanto, ele explica que o processo de burocratização e institucionalização foi dando espaço para uma estrutura mais verticalizada, retirando parte do protagonismo dos trabalhadores.

“O êxito das lutas [do MPL] nesse último período oxigenará, possibilitando mudanças importantes nas organizações de forma geral.”

Atuação nas periferias

Além da luta contra o aumento das tarifas, o MPL realiza atividades sobre o transporte público em bairros afastados do centro da cidade. Além disso, também apoia outras lutas de movimentos sociais, como, por exemplo, as organizações que lutam por moradia.

Fernando Ferrari, militante do Luta Popular, movimento que atua nas periferias de São Paulo e em outras regiões, reconhece a participação do MPL como fundamental para dar continuidade nas ruas. “O MPL foi um movimento que deu um ponta pé inicial para a retomada das ruas. O MPL foi primordial para lutar por um movimento que é de todos”, afirma.

Preis aponta que o movimento sempre busca a participação popular para que todos tenham maior apropriação da pauta. Para ele, é mais produtivo quando as pessoas participam das discussões. “Então a gente não chega lá [nas periferias] para dar palestra. A gente chega para discutir mesmo, de uma forma mais horizontal”, conclui.

Publicado originalmente em Brasil de Fato.


A hora e a vez da periferia
Por José Francisco Neto/Brasil de Fato

Milhares de pessoas ligadas a movimentos populares saem às ruas da zona sul e zona leste de São Paulo [Foto: Outras Palavras/Periferia Ativa]

Através das diversas atividades que são realizadas pelos grupos da periferia, a gente reforça durante as nossas atuações para não dar qualquer espaço para que nazifascistas se aproveitem da situação

Quando o assunto é transporte público de má qualidade fica evidente que o usuário mais comum é o morador de bairros periféricos. Quando se fala em violência policial, hospitais lotados, moradia precária e falta de saneamento básico, as vítimas continuam sendo as mesmas pessoas. Por esses e outros motivos é que a periferia resolveu descer do morro para o asfalto de forma conjunta para reivindicar melhorias nos serviços públicos localizados.

Aproveitando o calor das manifestações que explodem no país inteiro, o momento não poderia ser melhor. De meados para o fim de junho, milhares de pessoas ligadas a movimentos populares e culturais se juntaram aos trabalhadores e saíram às ruas do Campo Limpo, de Guaianazes e do Capão Redondo. O Movimento Passe Livre (MPL), que iniciou as manifestações pela redução da tarifa em São Paulo, também esteve presente nas manifestações.

“Com a ida às periferias, os movimentos e os trabalhadores ganham força, conscientização e clareza de objetivos, de amigos e inimigos, para voltar ao centro da cidade e tomar as ruas de forma mais coesa, com maior unidade entre seus dirigentes e com mais firmeza de suas exigências”, avalia Helena Silvestre, do Movimento Luta Popular.

Neofascistas

Entretanto, além dos problemas enfrentados cotidianamente nas periferias, um outro agravante fez com que as pessoas e os movimentos populares se unissem ainda mais. No dia 20 de junho, durante o ato comemorativo do MPL na avenida Paulista, movimentos sociais e partidos de esquerda foram duramente expulsos à pancadaria por grupos de skinheads, considerados pelos movimentos como “neofascistas”. O que era para celebrar a vitória pela redução das tarifas do transporte público, terminou em agressividade e violência.

Diante desse episódio que abalou as organizações populares, dois dias depois foi convocada uma reunião no Sarau da Cooperifa, na zona sul de São Paulo. Artistas, lideranças comunitárias, militantes de coletivos culturais e movimentos sociais das periferias se reuniram para discutir o atual cenário político do país, avaliado pelos presentes como imprevisível e alarmante.

Ruivo Lopes, integrante do coletivo Perifatividade, que realiza saraus na zona sul da capital paulista, participou da reunião. Ele ressaltou a importância de a periferia se organizar ainda mais em momentos como esse.

“Através das diversas atividades que são realizadas pelos grupos da periferia, a gente reforça durante as nossas atuações para não dar qualquer espaço para que nazifascistas se aproveitem da situação”, declara.

E, realmente, não tiveram espaço. Milhares de pessoas tomaram às ruas nos últimos dias de junho de forma pacífica, bloquearam avenidas e gritaram pelos seus direitos.

Seguir na luta

Após o ato realizado no dia 25 de junho pelos movimentos sociais e culturais das periferias, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), se reuniu com integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e do movimento Terra Livre. Foram discutidas questões como moradia, transporte e reajuste do auxílio-moradia.

Durante uma coletiva de imprensa, o governador anunciou que reajustará o valor do auxílio de R$ 300,00 para R$ 400,00.

“Vamos igualar o benefício para os moradores da região metropolitana, onde o aluguel é mais caro”, explicou.

Presente na reunião, Thais Miranda, integrante do movimento Terra Livre, considera que, apesar do avanço no diálogo, só aumentar o bolsa aluguel é uma medida paliativa.

“Mas isso tem que servir pra gente seguir na luta. As pessoas estão com esse sentimento que só a luta muda a vida. Isso tem que servir para a gente seguir o nosso trabalho de base”, diz.

Publicado originalmente em Brasil de Fato.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Em nome da prosa!



No clima das manifestações que tomam as ruas do país, policiais civis realizaram na última quarta-feira (26), uma batida na casa de um jovem morador de Itaboraí, no Rio de Janeiro. O jovem foi indiciado sob suspeita de formação de quadrilha, dano ao patrimônio, porte de artefato explosivo e tentativa de homicídios contra um policial militar agredido durante protestos na semana passada. A cena foi exibida em canais de televisão. O jovem teve a prisão temporária decretada pela justiça, mas até o momento ele não foi encontrado.

Na casa do jovem os policiais teriam apreendido fotos, cartazes e panfletos de temática punk anarquista com mensagens contra o racismo, contra o neonazifascismo, contra a guerra e contra o capitalismo. Os policiais teriam recolhido objetos de uso domésticos como facas e martelos. E teriam levado um soco inglês e um "nunchaku" (dois bastões pequenos conectados em seus fins por uma corda ou corrente). Nada ilegal.

O que chamou mesmo a atenção foi o fato de os policiais terem recolhido e apresentado o exemplar de um livro. A obra é na verdadeira uma verdadeira pérola da literatura norte-americano, o livro Mate-me, por favor, dos escritores e historiadores culturais Legs McNeil e Gillian McCain. A versão em português foi editada no Brasil por nada menos que a L&PM Edições, tendo sua primeira edição esgotada. Anunciada como sendo "uma história sem censura do punk" e dividida em dois volumes, a versão apreendida na casa do jovem é apenas o primeiro - o segundo volume da obra não foi apresentado -, reeditada na Coleção L&PM Pocket disponível até em bancas de jornais espalhadas por todo o país.

O livro Mate-me, por favor, conta a história da cena punk baseada em centenas de entrevistas com personagens bem conhecidos como Iggy Pop, Patti Smith, Dee Dee e Joey Ramone, Debbie Harry, Nico, Wayne Kramer, Danny Fields, Richard Hell e, claro, Malcolm MacLaren, responsável pela estética do Sex Pilstols. Algumas histórias reveladas por estes personagens ficaram bem conhecidas como a do então viciado Iggy Pop ter sido acolhido por David Bowe em sua casa por um tempo para se livrar das drogas.

O livro é descrito pela editora brasileira como sendo um mergulho nos camarins e nos apartamentos desses personagens para reviver o que começou nas entranhas de Nova York como uma pequena cena artística do final dos anos 1960 e início dos 1970 e se tornou um verdadeiro momento revolucionário da música. Mate-me, por favor começa quando os clubes CBGB e o Bowery eram uma legítima terra de ninguém e revive os dias de glória do Velvet Underground, Ramones, MC5, Stooges, New York Dolls, Television e Patti Smith Group.

O delegado carioca responsável pela batida na casa do jovem disse que o livro, além das fotos e cartazes apreendidos, demonstram "o perfil do suspeito", a ideologia dele frente a nação brasileira, de defesa da anarquia e sugere ainda que o jovem não teria participado de modo pacífico do protesto.

São bem conhecidas as histórias de perseguição da igreja católica a obras profanas e que levou muita gente pras fogueiras da santa inquisição, na idade média. Regimes fascistas e totalitários iluminaram noites com  fogueiras feitas de livros que consideravam obras degeneradas fruto da mente de livres pensadores perseguidos, presos e mortos em prisões ou fuzilamentos. Agentes da ditadura podiam invadir casas, prender, torturar e esfolar até a morte pessoas que tivessem, por exemplo, o clássico O Vermelho e o Negro, do escritor francês Stendhal ou qualquer coisa do tipo. Fica difícil explicar o teor de um romance quando se está num pau-de-arara. A verdade é que a brutalidade dos agentes que compõem o aparato repressivo do estado se dá exatamente pela insensibilidade e incapacidade deles de compreenderem a arte como expressão da liberdade. Na dúvida eles prendem, esfolam e queimam.

O livro Mate-me, por favor tem uma conclusão um tanto polêmica no meio cultural, porque a certa altura os autores decretam a morte do punk, que para eles ocorre quando a cena se torna manchete de jornais e uma nova onda juvenil, mercadológica é absorvida pelo sistema. Não se trata de um livro de teoria anarquista, bem longe disso, são histórias até muito engraçadas. Um retrato de uma cena, de uma geração e muitas micro-briografias contadas e contestadas umas pelas outras. A repercussão da apreensão do livro pela policia pode impulsionar a venda de mais um punhado de exemplares. Isso aumentará também as chances de você ter um em casa, na estante ou na mochila, nem que seja por curiosidade. Fica o recado, caso a obra entre pra alguma lista dos livros proibidos.

Aliás, aí uma acusação ainda a ser feita. Quem seria o responsável pela morte do punk, se é que morreu? A prova pode estar no segundo volume de Mate-me, por favor, o que não teria sido encontrado pelos policiais na casa do jovem. Neste momento, ele deve tá rodando por aí. Fato é que sem ele, não será possível contar o final desta história.

Mate-me, por favor, volumes 1 e 2

domingo, 23 de junho de 2013

Partido Alto: unidos venceremos!




Reunidos no quintal da Escola de Samba Unidos Venceremos, velhos bambas formaram em roda a tradicional assembléia geral do Partido Alto. Instrumentos na mão, os partideiros, como sempre, não estavam indiferentes ao que acontecia nos últimas dias. Eles guardavam a sabedoria dos mais velhos e o entusiasmo dos mais jovens. Previam que daqueles dias poderia sair samba e prestaram atenção. Antes do ziriguidum comer no tamborim, os puxadores começaram a analisar parte das alegorias e enredos que tomaram as principais avenidas dos país. Eles perceberam que as alas vermelhas e pretas foram sendo aos poucos engolidas por uma onda esquisita na qual se destacava o tradicional verde, amarelo, os azuis e muito branco.

Bons da cabeça, na cadência do samba e com a experiência de quem nunca adoeceu do pé, os partideiros logo chegaram a um consenso.

- Não se pode levar o bloco pra avenida sem apresentar nenhuma surpresa, tampouco improvisar o enredo no meio do caminho. Lembra daquela escola que apareceu na televisão antes da hora e já comemorava a vitória? Pois é. Já pensou se alguém rouba nossas alegorias e o nosso enredo... comé que fica? Questionou o primeiro.

- Pra brilhar na avenida tem que ter surpresa. O povo tem que conquistar a avenida de surpresa. Nos outros anos foi assim. Não levamos, mas também não nos levaram de lá. Fizemos bonito e nos convencemos de que aquele era o caminho certo. E é. De lá pra cá fizemos ainda melhor. Mas na miúda. Disse o outro, enquanto afinava o tom do cavaquinho.

- A boa Escola é aquela que aparece primeiro no seu quintal. Tem que ganhar primeiro no chão de terra batida e arrastar o bloco nas ruas acidentadas. O coro do samba enredo tem que começar aqui. Ganha na avenida quem primeiro ganhar na rua. Tem que experimentar tem que ensaiar. Assim, no sapatinho. O resto é entregar os pontos pros adversários de graça. Concluiu o terceiro.

Pra fechar o encaminhamento e indicar que o consenso ali era geral, cada partideiro levantou seu copo e em seguida viraram ligeiramente um gole pro santo e numa tagalada só lavaram a garganta e a alma. Partideiro véio não se engana nem se deixa enganar. A cara torcida e o desabafo quente eram sinais de que a água ardente era de rara qualidade. E quem é louco de servir cachaça batizada pra bamba. Santo nenhum aceita. Copo batido na mesa, o tamborim começou a soar. Só parou de tocar quando o galo cantou. Já era manhã de um novo dia.  

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Das ruas eu não saio não!



A última postagem neste blog tinha sido feita minutos antes do ato contra o aumento das passagens do dia 13 e que foi marcado pela violência policial. Apenas uma semana separa os con-textos. Ao contrário do que possa parecer, a cidade não acolheu aquela multidão que até então não se comportava como se tivesse indo a copa, na final entre a seleção brasileira e um time qualquer. É justamente esta a multidão que a Avenida Paulista acolheu.
 
A pauta contra o aumento das passagens dos transportes na cidade de São Paulo começou a ruir depois da violência policial cometida naquele dia. A repercussão foi grande e provocou manifestações em outras cidades do país.

A mudança da postura na cobertura da imprensa dominante deu não só uma nova cara pro ato, trouxe também para as ruas suas principais manchetes. Esta manobra não é nenhuma novidade. Óbvio, toda grande redação do país é também um partido político conservador.

O que poderia ter sido comemorado como uma vitória popular considerável contra a intransigência política, foi anunciado então como sendo "só o começo". Porém, bem distante da tarifa zero, a principal reivindicação do movimento que iniciou os protestos em SP.

Não demorou e deu logo para ver o que também havia começado. Na Avenida Paulista ontem presenciei alguns indícios. Assim que a faixa Contra a Política de Genocídio da Juventude, sempre presente nas ruas, foi aberta, um grupo protegido por neonazistas avançou e começou a dizer que eram "brasileiros com muito orgulho e com muito amor", "sem partido" e outras palavras de ordem tão vazias quanto um copo meio cheio.

Um homem enrolado numa bandeira do Brasil chegou por trás de mim e perguntou se eu era de algum partido político. Aproveitei que havia gente ali registrando tudo e disse a ele que não falo com racista. Com um sorriso de hiena, ele então voltou para seu posto e junto a outros puxou o grito "Ei, PT vai tomar no cú", sendo logo seguido pelo grupo que ele ajudava a proteger. Não era apenas uma questão de partido  político, longe disso.

Em um pequeno grupo, começamos então a puxar outro grito: "Racistas, fascistas não passarão" e a partir daí fomos ainda mais hostilizados. Seguramos a faixa até sermos expulsos daquele lugar pela primeira vez. Naquele momento, havia crianças segurando a faixa com a gente também.

Nos juntamos novamente a manifestação e, mais a frente, abrimos a faixa mais uma vez. Pouco depois, o mesmo grupo protegido pelos mesmos neonazistas que tinha ficado para trás conseguiu alcançar novamente a faixa, desta vez, agredindo covardemente as pessoas pelas costas com as hastes das bandeiras do Brasil, deram patadas e rolou até spray de pimenta. Outras pessoas foram atingidas com garrafas cheias no rosto lançadas das laterais da avenida.

Recolhemos a faixa definitivamente. Aplaudidos, o bloco protegido por neonazistas avançou sem problema algum pela avenida.

Parados na calçada, vendo a banda passar, líamos as mensagens dos cartazes e faixas nada ingênuos. Uma mulher com uma camisa vermelha levou uma bandeirada do Brasil na cabeça de um homem branco que tinha o dobro do seu tamanho, hiper-bem-alimentado. Ela chama ele de reacionário, em vão. Ecos da história. Lamentamos a manobra.

Tenho dito que as ruas são palcos de disputas permanentes. Diluídas no cotidiano, as contradições ficam mais visíveis quando a população está concentrada e tensionada. A cidade, como espaço político, é território dos conflitos. Ou eles se tornam visíveis na ocupação do espaço público ou eles se tornam menos visíveis no espaço privado. Tanto faz, os conflitos continuarão existindo.

Pode ser o clima da copa, pode ser aventura, pode ser arriscado, pode ser desfile, pode ser válvula de escape, pode ser desabafo, pode ser oportunismo, pode ser oportunidade, pode ser que dê certo, pode ser que não, pode ser aprendizado, pode ser lição, pode ser encantamento, pode ser desencantamento, pode ser partido amador, pode ser sem partido profissional, pode ser movimento, pode ser massa, pode ser a primeira vez, poder militante, pode ser uma onda, pode ser marola, pode ser civil, pode ser militarizado, pode ser público, pode ser privado, pode ser cavalo de pau, pode ser contramão, pode ser por direitos, pode ser por privilégios, pode ser bem intencionado, pode ser recalcado, pode ser midiotizado, pode ser muito barulho, pode ser quente, pode ser molhado, pode ser fogo, pode ser palha, pode ser sem violência, pode ser violentado, pode ser meio vazio, pode ser poder ser, mas com certeza não é por nada. Afinal, ninguém é neutro na multidão em movimento.

Fato é que senti alguns golpes hoje cedo. Vale a pena refletir, sim. Mas das ruas, como sempre, eu não saio não!

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Pontos para os atos contra o aumento das passagens em SP


Se a tarifa não baixar, a cidade vai parar!


Os grandes atos organizados contra o aumento das passagens em São Paulo têm marcado pontos importantes dos quais ligeiramente destaco: 1) A capacidade crescente de mobilização social entorno de uma pauta comum; 2) O ensaio de um xeque-mate em quem aprecia a democracia nos limites e conforto dos salões; e, 3)  Desafia a hegemonia da imprensa dominante, quando manifestantes cobrem e apresentam pontos até então invisíveis de dentro dos fatos.

Não é novidade o aumento da passagem dos transportes coletivos em SP. Nos últimos anos, o período em que ocorre os reajustes da tarifa tem sido marcado por manifestações contrárias ao aumento e junto vem a exigência por melhorias significativas no sistema de transporte coletivo para a população. A tarifa zero, que parecia impossível, entrou na pauta e já começa ser discutida, agora no campo da sua viabilidade ou não. Parece pouco, mas não é. As pessoas na rua consideram caro a tarifa e avaliam como sendo péssimo o serviço prestado pelas empresas de transportes coletivos. Todos os dias, milhares de pessoas perdem horas em trânsito, saem muito cedo e voltam muito tarde para casa, esperam muito e ainda vão espremidas nos transportes coletivos. As empresas dos transportes lucram muito e quem sofre é a população. É justamente essa insatisfação que alimenta as manifestações que tem tomado as ruas de SP. Mas não só. Há também um desejo real e compartilhado de participação no processo político no qual nenhuma cidade pode abrir mão. Um desejo de ser visto e ouvido no espaço público da cidade. Aliás, a salvação das cidades está na participação política da sua população, sobretudo, substituindo a paisagem do trânsito e seus veículos nas ruas por pessoas. As exigências que emergem das ruas é para acordar os poderosos acomodados no poder.

Para alguns políticos de plantão, lotados em gabinetes e redações, a democracia parece ser boa quando ela faz barulho apenas no quintal do vizinho. Prefeito e governador, cada um do seu modo, demonstram insatisfação com a cobrança feita nas ruas. Enquanto Haddad desqualifica a legitimidade e o caráter democrático do ato, Alckmin criminaliza e autoriza a violência policial, que, aliás, lhe é muito característica.  Os dois vêem nos atos a inconveniência de milhares de pessoas cobrarem nas ruas da cidade a revogação de uma decisão política tomada por eles em gabinetes. Se levar para as ruas o debate sobre uma questão que afeta a grande maioria da população de SP não for democrático, então, prefeito e governador devem avaliar seus conceitos.

A imprensa dominante massificou uma impressão dos atos que não é verdadeira. As manchetes dos principais jornais impressos inverteram a ordem dos fatos. É a Polícia Militar que sempre entra em confronto com quem participa dos atos, ferindo até quem passa perto da manifestação, e não o contrário. É a velha e conhecida estratégia de instaurar o consenso fabricado. As emissoras de tevê seguiram a mesma lógica e exibiram apenas aquilo que está alinhado ao poder dos editoriais. Nem a rádio escapou. Os donos da verdade queriam as suas versões dos fatos nas ruas. Graças à tecnologia digital, portátil e redes virtuais, centenas de pessoas que participaram dos atos relataram em textos e imagens o que aconteceu de dentro da manifestação. Através delas, é possível identificar a violência praticada por policiais militares fortemente armados contra uma multidão de manifestantes desarmadas. Comparar um batalhão armado portando espingardas de balas de borracha, bombas, gás de pimenta, cassetetes de borracha e de madeira com indivíduos que eventualmente revidam a violência policial com uma pedra ou ateiam fogo em um saco de lixo é um exercício de convencia que quando repetido mil vezes, infelizmente, pode pegar.  Contudo, a regra desta comparação é que as vitimas é sempre da violência policial.

Os grandes atos organizados contra o aumento das passagens em SP têm marcado pontos importantes porque tem gerado um incontrolável - isso sim! -, protagonismo social nas ruas. São Paulo deveria acolher melhor essa multidão. 



Assista como a PM reprimiu o 3º Grande Ato
Contra o Aumento das Passagens em SP,
realizado no dia 11 de junho

domingo, 9 de junho de 2013

Funk: Cultura e Arte X preconceito e criminalização





Mas não me bate doutor
Porque eu sou de batalha
Eu acho que o senhor tá cometendo uma falha (...)

(...)
E se um mar de rosas virá um mar de sangue
Você pode ter certeza, vão botar a culpa no funk

trechos de Não me bate doutor, de Cidinho e Doca


O jornal O Globo, do dia 25 de maio, destacou a chegada do funk na classe média carioca. O óbvio é que a novidade apresenta o que já se sabia desde o tempo em que o samba do morro virou bossa nova no calçadão de Ipanema. Vale destacar que no jornal, a reportagem esta abrigada no caderno Rio!

A frase que inicia a reportagem é lapidar: "O batidão foi descendo, descendo, até chegar, hoje, ao chão dos melhores endereços da cidade". Nota-se que este "melhores" aí, sugere uma oposição aos endereços de origem dos MCs destacados na reportagem. 

As jornalistas que assinam a reportagem foram generosas e fizeram o favor de deixar tudo muito bem explicadinho pros leitores da zona sul compreender como funciona o funk, nascido e criado nos morros, favelas e periferias cariocas. Até então parecia muito fácil discriminá-lo e, sobretudo, criminalizá-lo em reportagens policialescas, mas descobriram que não é bem assim. Pelo menos quando convém. Na matéria, elas revelam que o funk abriga, incorpora e dialoga com outros estilos e fontes musicais, sempre acompanhados por coreografias próprias, complexas que não deixam nada a dever pro que é ensinado em qualquer escola de dança "dos melhores endereços da cidade". O funk é sofisticado, na fusão, não perde a raiz, na coreografia, canta o corpo. As afirmações aqui ficam por minha conta.

Assim, patricinhos e patricinhas recem-iniciados no ritmo do momento não vão fazer feio no salão quando estiverem embalados pelo pancadão numa boate do lado sul do mapa carioca. Enquanto seus pais estiverem tranqüilos, encastelados num condomínio fechado ou jantando num restaurante famoso localizados nos "melhores endereços da cidade", seus filhos estarão embalados no que a reportagem chama de batidão, pancadão light, ou versão "família". 

O Globo, é claro, não dá ponto sem nó e puxa pra si parte da responsabilidade pela classe média carioca se encantar com o funk. E reinvidica seus pontos na história. Na reportagem são citados programas da própria emissora em que MCs já se apresentaram e sucessos emplacados em trilha sonora de novelas. 

Artistas que tem em comum os morros, favelas e periferias cariocas como berço e devotam todo seu aprendizado a sua origem, conquistaram o público em suas comunidades e, principalmente, na internet onde seus clipes são assistidos por milhares de pessoas. Artistas que vieram de uma produção totalmente independente e agora colhem cachês polpudos recebidos em maratonas de apresentações que realizam por noite. 

São jovens de origem pobre, todos negros na sua maioria - só pra lembrar! -, que estão dando certo, trabalham duro, começaram a ganhar muito dinheiro, sustentam suas famílias e consomem nas mesmas lojas exclusivas da classe media, localizadas também nos "melhores endereços da cidade". 

A primeira vista, a reportagem tenta apresentar um tom conciliador bem característico das interpretações que as elites sempre fizeram dos conflitos sociais que ainda hoje marcam a sociedade brasileira. Um tom de integração, através da Arte. Talvez um desejo de O Globo imprimir pra seus leitores um rosto pra chamada nova classe média. Talvez um retoque na vitrine de vidro na qual fica em exposição ao mundo os brasis divididos em “piores” e “melhores endereços da cidade” carioca. Brasis dos quais as elites esperam sempre que apenas um lado seja "bem comportado". Não é a toa que a frase que inicia a matéria é construída num discurso de oposição velada. Aquele batidão, apelido pro "funk light", não é o pancadão, associado sempre a "apologia às drogas, às armas e ao tráfico", como a própria reportagem sugere e lá mesmo no texto  arrisca já ser coisa do passado. 

O caminho esconde a paisagem. A descida pro chão dos “melhores endereços da cidade” é a dos morros, favelas e periferias. Caminhos trilhados por jovens funkeiros e funkeiras que estão fazendo a vida na cidade maravilhosa as custas da sua Arte. Jovens que estão entrando pra outras estatísticas que não a do Mapa da Violência. E isso parece incomodar a classe média tradicional, digamos assim. Por mais que aparente pacificador, expressão de guerra importado pelas elites políticas cariocas e que estampa também as páginas de O Globo, o Rio de Janeiro continua sendo a velha cidade partida de sempre.

 Assista aqui o Rap da felicidade, de Mc Cidinho e Doca

Se não é O Globo, são os leitores nos comentários da reportagem que rompem com qualquer possibilidade de cordialidade, outra marca das elites brasileiras. Alguns comentários lembram que apesar de tudo, o pobre, mesmo com dinheiro, ainda tem seu lugar.

Em meio a centenas de comentários de leitores de O Globo, exibidos logo em seguida da reportagem, não foi difícil selecionar alguns deles que demonstram o quanto há de racismo, discriminação, preconceito, hostilidade e ódio nas elites mesmo quando o assunto parece tratar apenas de Cultura e Arte, esse campo minado coberto de flores.

Lá vai:

Música de bandidos feita para bandidos. Não me surpreende que gente de morro goste disso. A casa da minha mãe na Tijuca ficava perto de favela e é um suplício morar perto da escória, LC.


Triste notícia! Quase dez milhões de clic´s com mentalidade favelizada (...).  Viva a impunidade (...), V.


Assim como a imprensa local faz com as favelas, tentando convencer as pessoas que é um lugar igual aos outros (...), tentam desesperadamente convencer que o funk faz parte da cultura carioca. Não adianta, a esmagadora maioria das pessoas não se sentem representadas pelo funk, não diz respeito ao estilo de vida das pessoas que não vivem a realidade das favelas. Não é porque alguns adolescentes da zona sul estão gostando que isso quer dizer que foi aceito, RA.


Vamos combinar que funk é coisa de gente...porca, CA.


Não vou criticar esta baixaria para não dar IBOPE a estes coitados, RC.


Classe média era eu, essa gente é, e sempre será, classe baixa. A classe média tem horror a funk e não deixa suas crianças perderem o senso crítico disso. Estas moças da foto não são em nada diferentes de bailarinas de prostíbulos. E os rapazes, filhos de mães assim. Além de pena me dão nojo, BC.


Para quem já teve a bossa nova como referência, isso soa mais como uma tribo de indígenas, JM.


Daqui um pouco pagaremos o "Bolsa Funk", WVDT.


Funk carioca é lixo. Não é cultura. Não adianta, Globo, vocês não vão conseguir empurrar goela abaixo esta porcaria na população pensante e de classe média. Não adianta ,Globo, a sociedade pensante do Rio não assiste a "Ixquenta " e não ouve Funk. Não adianta insistir. Nós ainda pensamos e temos bom gosto. Favor não insisttir com lixo de funk. Nossa mente não é favelada. Grato, F.


Lixo, esgoto cultural da pior qualidade, C.


Não é a classe média tradicional, e sim a nova classe média que adora esse tipo de porcaria barulhenta e sem conteúdo, FR.


O Congo fica no Rio de Janeiro.... (...) Não obstante o funk ser um ritmo originalmente criado pelos "niggers" americanos na década de 60 por James Brown, a versão tupiniquim copiada pelos M.A.C.AC.O.S. de imitação dos favelados do Rio é um verdadeiro de circo de aberrações hilariantes, EC.


A influência negra na música já foi mais aproveitável, hj se resume a drogas e pornografia - seja aqui ou seja nos EUA, C.


Serei curto e grosso: pesquisem se européias e americanas gostam de funk principalmente o tal pancadão...elas tem cérebro...Aliás, não só as mulheres, os homens também. Já no Brasil, MTAP.


Muito triste essa noticia!com esses favelados ganhando dinheiro, vai aumentar muito o consumo de cocaina!, MM.


Funck - carioca - é cultura? Cultura de verdade tem relação com a Arte, que desperta o melhor do ser humano. Mesmo o rock pesado nos estimulava a uma mudança de entendimento do mundo com objetivo de muda-lo. Os valores do funck - carioca - vão de incitação a violência, ao rebaixamento da mulher e a vida em comunidades pobres como opção de vida e não como necessidade. Cultura liberta, educa e conscientiza. É por isso que essas comunidades são onde mais se elegem os políticos corruptos, AC.


Assista aqui Som de preto, de Amilcka e Chocolate

Deixo aqui um alerta, a visão crítica do mundo que nos cerca é necessária. Nenhuma estrutura, seja ela física ou mental, deve parecer impossível de ser transformada. Cultura e Arte, quando irmanadas, são fundamentais pra reflexão sobre tantas questões individuais e coletivas que cercam cada um de nós. Entendo que Cultura e Arte estão umbilicalmente ligadas a busca incessante por Justiça. É um campo minado porque Cultura, Arte e Justiça estão em constante disputa numa sociedade desigual como a brasileira. Quando você for fazer alguma crítica do funk, assegure-se de qual lado do campo minado da Cultura e da Arte ela esta lançando você. Reflita, porque amanhã o alvo das injustiças poderá ser você.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Ocupa Sarau na Praça Zumbi dos Palmares




Neste domingo, dia 9 de junho, a partir das 13h, vai acontecer mais um edição do Ocupa Sarau: a periferia vista na bolinha do olho. A novidade é que será realizado na Praça Zumbi dos Palmares, localizada na Avenida Inajar de Souza, bem próximo do Terminal da Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de SP. Veja detalhes de como chegar aqui.

A ideia é ocupar esta pequena praça, que leva o none de uma grande referência na luta por liberdade do povo negro no Brasil, com muitas manifestações arteiras da cultura que faz a nossa cabeça na periferia. Por isso, a ocupação da praça é uma ação cultural coletiva na qual estão participando vários grupos e pessoas dedicados as mais variadas linguagens arteiras.

Na programação: varal de xilo, grafite, Carrinho de Mãoteca, Editora Quilombola, stencil pra identificar a Praça Zumbi dos Palamares, discotecagem, venda, troca e distribuição de livros e outros materiais, pique-nique comunitário e espaço aberto para intervenções diversas.

Presenças confirmadas...

Na poesia: Thiago Gonzales (Santana), Karen Rego (Cachoeirinha), Cláudio Cákis (Suzano), Celinha Reis (Pompeia), Ana Fonseca e Paulo Rams, Perifatividade (Fundão do Ipiranga), Messias (Pirituba), Felipe Nagô (Brasilândia), Renata Prado (Itaim Paulista), Sonia Regina Bischain (Brasilândia), Fuzzil & Deeanto (Capão Redondo), Ruivo Lopes (Centro), Indy Naíse (Butantã), Lu'z Ribeiro (Guarapiranga), Luís Felipe Lucena (Mundão), Fanti Manumilde (Heliópolis).

No rap: ZoioOmc (Brasilândia), Mc Trexx (Jd. Pery), Mano Réu (Brasilândia), Flávio Casimiro (Jd. Pery), D'Grand'Stilo (Heliópolis), Robson - Conteúdo Majestoso (Brasilândia), Jenny (Cachoeirinha).

No cadência: Samba do Congo (Brasilândia-Morro Grande).

No grafite: Caiana, Alemck e Mild - CANIL (São José dos Campos), Bruno Perê (Jabaquara), Dimy - Somos Pobre (Vila Penteado), Isis Flores (Jaçanã), Ed Lincoln (Pirituba).

Na xilogravura: Jardélio Santos (Vila Souza).

Circo: Hélio Gonçalves Costa (São Bernardo).

Na fotografia: Elaine Campos (Centro).

Na discotecagem: Dodo (Bairro do Limão) e DJ Canelês (Brasilândia).

Na organização: Chellmí, Projeto Espremedor, Amanda Prado e Banca Subterrâneo.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Exclusão na Literatura Brasileira: quando a ficção é o retrato da realidade


A matéria abaixo foi publicada na revista digital NIMBUS, editada por alunos do curso de jornalismo da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), no Rio Grande do Sul, e, tendo como base a pesquisa da professora Regina Dalcastagnè, da UNB, sobre a exclusão social na produção literária brasileira contemporânea, aborda outras fontes onde sujeitos literários que habitam nas margens e personagens excluídos e indesejáveis escrevem e fazem suas próprias histórias.




Os protagonistas esquecidos
Por Dairan Paul, Guilherme Porto e Vitor Dornelles

“Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão”, escreve Lobato. Jeca Tatu e a debilidade do camponês atrasado seriam a cara e a fuça do preconceito, se ele tivesse uma. Lima Barreto, relegado à sarjeta pela Academia Brasileira de Letras, toma mais um gole de cachaça para canonizar de vez as frustrações. Enquanto isso, o túmulo de Machado de Assis treme a cada tentativa de branqueamento do maior autor de nosso país.

Não é de se surpreender: a pesquisa realizada por Regina Dalcastagnè, professora da Universidade de Brasília, indica que a literatura brasileira é um campo predominantemente dominado por autores homens e brancos. Os resultados estão no livro “Literatura brasileira contemporânea“, lançado pela Editora Horizonte em 2012.

O recorte da pesquisa de Regina abrange 258 romances brasileiros publicados entre 1990 e 2004 por três das maiores editoras do país: Companhia das Letras, Rocco e Record. Dentre os dados levantados pela professora, estão que 72,7% dos romances foram escritos por homens e 93,9% por brancos. A representação dos negros, na ficção, se dá em sua maioria como bandidos; as mulheres, como donas de casa ou prostitutas; e o homem branco, como artista ou jornalista.

Regina acredita que os dados da pesquisa não seriam muito diferentes se realizados com outras editoras. “Também temos números semelhantes aos que obtivemos em relação à autoria dos romances na telenovela, no jornalismo, na câmara dos deputados… Os espaços de produção de discurso ainda são, predominantemente, domínio de homens brancos de classe média. O que implica em predominância de uma determinada perspectiva social, e que vai dar, muito frequentemente, em uma construção discursiva semelhante a respeito do outro.” Atualmente, a professora dá continuidade à pesquisa, agora analisando os romances publicados no período de 2005 a 2014. Os dados parciais, por enquanto, não diferem muito das pesquisas anteriores.


A história e a sina do romance brasileiro

Segundo Érica Peçanha – antropóloga e escritora do livro “Vozes marginais na literatura” (Aeroplano, 2009), resultado de sua dissertação de mestrado -, a literatura é uma construção catalisadora de emoções, conhecimento, valores e mensagens políticas. Ao mesmo tempo em que ela pode divertir e entreter, também informa e amplia a capacidade crítica do seu leitor. “Literatura é sempre uma representação que interpreta e organiza aspectos da realidade, em termos estéticos. Como produção artística, carrega consigo marcas históricas, convenções e construções sociais”.

Ora, se a literatura traz determinados aspectos de seus autores, a representação de negros e mulheres na pesquisa de Regina não surpreende tanto, dado que estamos inseridos em uma sociedade brasileira ainda racista e machista. Érica cita o sociólogo francês Pierre Bourdieu para explicar que escritores, quando se lançam ao campo literário, estão orientados pelas ideologias e práticas de suas classes sociais. Dar voz ou silenciar certas camadas da sociedade seriam aspectos intrínsecos à própria produção literária.

Éle Semog (pseudônimo de Luiz Carlos Amaral Gomes, poeta, militante do movimento negro e atual Secretário Executivo do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas) considera complexo para a maioria dos escritores brancos brasileiros construírem subjetividades e humanidades nas personagens negras. “É a história e a sina do romance brasileiro”, lamenta o poeta. No entanto, Semog encontra na literatura afro-brasileira personagens – homens e mulheres negros – que ocupam outros lugares. “A literatura negra brasileira, a partir de fins dos anos de 1970, se estabelece com o propósito ideológico de dar outro destino aos personagens negros, homens, mulheres, crianças e idosos, e, principalmente, combater o racismo no Brasil”.

A literatura não é a principal responsável pela discriminação e preconceito de determinados grupos e também não deve ser entendida como a ferramenta que transformará essa situação, escreve Regina Dalcastagnè. Isso não exclui a responsabilidade social que há por trás dela. Entendida como um discurso, a narrativa ficcional pode tanto reforçar preconceitos como questioná-los e abordar novos modos de pensar nossas relações com o outro.


Preconceito em forma de ficção

Um dos casos emblemáticos de preconceito na literatura brasileira é a polêmica em torno da obra de Monteiro Lobato. O autor foi acusado de racismo nos textos “As Caçadas de Pedrinho” e “Negrinha”, além de simpatizar com as ideias da Ku-Klux-Klan e da eugenia, base do pensamento nazista. Éle Semog não considera a discussão nem mesmo um “caso”, mas um “desastre”.

É comum argumentar que ler Lobato não torna a pessoa racista. “Mais notável ainda, todos eles [os leitores de Lobato] declaram com absoluta certeza não terem se tornado racistas, num país em que mais de 90% da população reconhece a existência do racismo (ao mesmo tempo em que, claro, mais de 90% declara não ter nenhum preconceito racial)”, explica Idelber Avelar.

Idelber é professor titular de Literaturas Latino-Americanas e Teoria Literária na Universidade Tulane, em New Orleans. Sobre o racismo na literatura, ainda comenta: “O brasileiro branco se acha uma ilha de tolerância cercada de racismo por todos os lados, mas basta colocar em pauta um caso óbvio para que o negacionismo se veja de forma nítida, em geral com um furor que recorre a termos como ‘censura’ antes sequer que se coloque em pauta o problema de se indicar ou não livros de um racista como ele a crianças de nove ou dez anos de idade, na escola pública. O caso Lobato é uma grande lição sobre os mecanismos através dos quais opera o negacionismo no Brasil.”

Mesmo os cânones literários não escaparam de sofrer preconceito. Se chamar Machado de Assis de mulato em 1908 causava espanto, que dirá, 103 anos depois, o branqueamento do autor em um comercial da Caixa Econômica Federal? Da mesma forma, também o caso de Lima Barreto, recusado na Academia Brasileira de Letras – além de utilizar um português mais coloquial em seus textos, fugindo aos padrões da época, era pobre, negro e alcoólatra. Barreto se junta a Carolina Maria de Jesus, autora negra, e João Antônio, escritor que retratava os protagonistas das periferias brasileiras. O trio de autores desajustados pode ser considerado como o precursor do movimento da literatura marginal.


À margem da estética

Se Lima Barreto não conseguiu entrar na Academia Brasileira de Letras no começo do século XX, as possibilidades atuais não seriam muito mais animadoras. Para o professor Fernando Villarraga do curso de Letras da UFSM, o fenômeno da literatura marginal-periférica é tanto reconhecido, como ignorado, em determinados setores. São raros os currículos que incluem disciplinas para discutir o tema dentro da universidade. “A questão concreta é que ela está aí, está viva e está funcionando, e tem um tipo de produção e circulação por canais que nem sempre o mundo acadêmico gosta de olhar sem preconceito”. Além de Ferréz, articulador e ideólogo do movimento, há poucos autores estudados no contexto acadêmico.

Tanto Érica Peçanha quanto o poeta Nelson Maca reconhecem que as atenções para a literatura marginal-periférica se dão muito mais nos âmbitos sociopolíticos do seu surgimento do que na reflexão crítica sobre os fenômenos estéticos que envolvem a corrente. O que diferenciaria, por exemplo, os textos de Rubem Fonseca, sobre a periferia, e os de Ferréz? Nas palavras de Idelber Avelar, as respostas vão desde os processos de produção, circulação e consumo destas obras até o pacto de comunidades interpretativas sobre o que é legitimamente estético ou não. Para além disso, deve-se levar em conta ainda a ideologia que cerca seus personagens, como observa Regina Dalcastagnè: “há um indisfarçável ponto de vista da elite nos contos do primeiro [Rubem Fonseca], mesmo quando narrados por marginais, o que permite uma identificação mais fácil do leitor de classe média, enquanto o segundo [Ferréz] traz justamente uma crítica a esse olhar, desestabilizando-o ao se colocar ao seu lado como outra perspectiva possível.” Não à toa, boa parte da literatura marginal-periférica possui caráter autobiográfico.

Mesmo nos cânones literários, a função estética também pode se perder. Segundo Regina, não é apenas a função social da literatura que deixa de existir quando exclui grupos, mas a própria reiteração de estereótipos de negros e mulheres, por exemplo, torna o conjunto empobrecido. Se a literatura marginal-periférica tende a tornar sujeitos segregados como donos de seus discursos e dar visibilidade a novos olhares sobre a periferia, então o fenômeno merece atenção, especialmente nas novas discussões que pode trazer para dentro do campo literário. Viver do passado – em busca de um novo Machado de Assis, preferencialmente mais branco – é renegar os novos Limas Barretos, não somente dentro da Academia, mas também do debate literário. Procurar novas Clarices ou Guimarães não faz sentido, já que o conceito de valor literário trabalhado pelas comunidades interpretativas, como explica Idelber, foi estabelecido pela própria Lispector, pelo próprio Rosa. Por ora, a busca de velhos cânones para resguardar a “alta” literatura bate de frente com o crescimento dos atentados poéticos da periferia – queira ou não a Academia. 

A primeira parte da matéria foi publicada originalmente no sítio da revista digital  Nimbus.


Eles também serão eternizados
O boom da expressão “literatura marginal” ocorreu após três edições especiais da revista Caros Amigos sobre o tema. Publicados em 2001, 2002 e 2004, os suplementos apresentaram 48 autores à margem do campo social e literário. No manifesto de abertura escrito por Ferréz, o recado é direto: “(…) estamos na área, e já somos vários, e estamos lutando pelo espaço para que no futuro os autores do gueto sejam também lembrados e eternizados”.

Literatura marginal, subalterna*, periférica. Os conceitos são diversos, mas compreendem a gama de personagens à margem da sociedade, escrevendo sobre si ou não. Nelson Maca, poeta, professor de literatura da Universidade Católica de Salvador (UCSal) e articulador do coletivo Blackitude Hip-Hop, sugere ainda outro termo: literatura divergente. “Quando defendo este conceito, estou realmente pensando em territórios segundo nos orienta o geógrafo Milton Santos. E, se falo em manifestações literárias distintas de territórios distintos, isso só pode acontecer num ambiente cultural onde a diversidade seja respeitada e incentivada. Dentro de nossa sociedade, equivale a dizer libertária!”. Em seu Manifesto, Maca explica que a divergência é em relação à “monocentralidade”, que estipula um centro e uma periferia. Ao desviar de um cânone, uma central universal, os autores se reagrupariam – de acordo com suas naturezas comuns, sejam elas raça, classe, gênero – em um novo processo, de convergência.

Ruivo Lopes, ativista cultural, também entende a literatura marginal-periférica como a quebra da ideia de cânone e do “injusto latifúndio editorial” que ainda persiste no Brasil. “A literatura é um produto cultural ainda muito valioso no Brasil. Veja as listas dos mais lidos, as resenhas e anúncios literários na imprensa dominante, as entrevistas com escritores em programas de televisão, as vitrines das grandes redes de livrarias que ditam o que você vai ler. Tá tudo dominado! Essa é uma realidade e não convém falseá-la”. Lopes cita iniciativas editoriais à margem do mercado, como a Edições Toró, hoje referência da literatura da periferia. Programas como A Beira da Palavra, transmitido pela Rádio USP e produzido pelo escritor Allan da Rosa, também trazem novos autores ao público.

O crescimento dessas produções é o aspecto que mais impressionou a antropóloga Érica Peçanha, quando começou a se interessar pela literatura marginal-periférica. Há cada vez mais publicações de livros, bem como a elaboração de editais públicos específicos para artistas e ativistas moradores de periferias e favelas. O papel central dos saraus também auxilia na multiplicação de novos autores.


No céu, a poesia

Originalmente ligadas aos românticos europeus, os saraus eram tidos como uma válvula de escape à racionalidade capitalista e à criação convertida em mercadoria. No Brasil, decaíram após o período modernista. O seu resgate, nas comunidades periféricas, busca trazer a palavra como potencialidade sensibilizadora. Para uma sociedade em que o sentido predominante é o da visão, a volta dos saraus soa desafiadora. Outro sentido dado à retomada é provocar a supervalorização da cultura escrita. Para Ruivo Lopes, a oralidade ainda é subestimada**.

Lopes comenta que os saraus acolhem pessoas que não tem como lançar suas obras nos espaços literários tradicionais. “Se não fosse eles, muita gente ainda teria seus livros guardados depois de lançados”. As publicações acontecem em antologias literárias dos próprios saraus.

O ativista explica o papel que as práticas têm de funcionar como “bibliotecas comunitárias vivas”, ajudando na formação de novos poetas, escritores e escritoras, e estimulando o interesse da comunidade pela participação e apreciação literária. É comum, portanto, que saraus realizem outras atividades além da leitura de textos, como o caso da Cooperifa, que lançou balões pelo céu de São Paulo contendo poemas. Os ataques poéticos idealizados por Sérgio Vaz, um dos grandes nomes da literatura marginal-periférica, contrapõe a ideia de que na periferia só vem bala perdida.

Durante um ano, Ruivo apresentou o Sarau da Ocupa. Acontecia duas vezes ao mês, no espaço comunitário de uma ocupação de moradia, no centro de São Paulo. Através da literatura da periferia, Ruivo organizou atividades educativas para as crianças e adultos da ocupação. Agora, atua no Coletivo Perifatividade, na região do Fundão do Ipiranga, zona sul de São Paulo, e registra em seu blog todas as atividades que faz parte. “Os saraus então por toda a periferia da cidade – na Agenda Cultural da Periferia tem um lista grande. Há saraus em outros estados também. Novos sempre surgem com características e reivindicações próprias, mas sempre inventando um novo jeito de se relacionar e de se afirmar com a literatura, ecoando novas vozes literárias e imprimindo novas caras no cenário literário da periferia pro Brasil, e até pro exterior também”. 

A segunda parte da matéria foi publicada originalmente no sítio da revista digital Nimbus.

* Nota deste blogueiro 1: A Literatura feita a margem também da produção literária dominante e que emerge da periferia tem assumido nomes que lhe confere identidade própria (marginal, periférica, suburbana, divergente, negra), mas nunca "subalterna", ou seja, sob as ordens ou subordinada a quem ou ao que quer que seja.

** Nota deste blogueiro 2: Os saraus também incentivam a leitura, a escrita e a fala da  palavra e do mundo que nos cerca e nos habita. Literatura não é feita só de palavra escrita. A oralidade é a expressão da fala e da palavra escrita, lida e ouvida em linguagem própria, enraizada na memória individual e coletiva, presente no tempo e no mundo. É a cultura dominante da palavra escrita que subestima a oralidade. Como escapou da edição, reafirmo: não é porque não está escrito que a riqueza oral tem menos valor.

Numa outro oportunidade, disponibilizarei neste blog a íntegra da troca de ideia com a revista digital Nimbus. 


Leia também: Literatura como campo de batalha (clique)

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Por que apóio a greve dos professores e professoras de SP


Todo apoio a greve dos professores e professoras de SP

Eu tinha registrado aqui neste blog que o Brasil ainda não sai bem na foto quando o assunto é Educação. Uma contradição para um país bem posicionado entre as maiores economias do mundo. Naquela ocasião, tinha anotado que no Brasil não falta dinheiro, o que falta é investimento direto na Educação. Com razão, comemora-se toda vez que avanços importantes acontecem, necessárias correções históricas são feitas e também quando se faz justiça na Educação no Brasil.

Já tinha anotado também que na ponta do problema professores e professoras de instituições públicas enfrentam duras rotinas de sala em sala, de escola em escola para equilibrar de um lado o ofício exigido pela profissão e de outro as contas pessoais. Soma-se assim exaustiva jornada de trabalho, grandes deslocamentos e baixos salários.

Recentemente, professores e professoras da rede estadual de ensino fizeram greve por melhorias no exercício da profissão docente. Mobilizaram-se e foram para as ruas. Exigiram muito, ganharam pouco e a greve foi suspensa pelo sindicato que representa a categoria. Terminou a greve, sobraram controvérsias.

Neste momento, professores e professoras da rede municipal de ensino de São Paulo estão em greve. Parece que exigem muito. Mas só parece. Exigem que o atual prefeito cumpra a afirmação feita por ele durante debate na campanha eleitoral de que daria um reajuste de 25% nos salários dos docentes. Segundo o então candidato, o reajuste era justo porque não se tratava de uma promessa de programa partidário e sim do cumprimento de uma lei já aprovada e acordada com a categoria naquela gestão. Cabia a ele apenas cumprir a lei. Uma vez no poder, entram em cena as limitações pragmáticas.

Direito a greve não se negocia. O que se negocia é o cumprimento das pautas de reivindicações colocadas pela categoria. Nem a greve é balcão de negócios e nem as reivindicações são moedas de troca para interesses que não os compromissos com a categoria e a sociedade que neste caso tem a Educação como direto fundamental.

As greves docentes nos seus diferentes níveis e orientações sempre apresentam pautas de reivindicações justas. Investir na docência é investir na Educação. Portanto, não há pauta que seja abusiva naquilo que só o poder público pode cumprir.

Em suma, o que os professores e professoras da rede municipal de ensino em greve no momento exigem é o reajuste salárial como previsto em lei, melhoria no plano de carreira e nas condições de trabalho, como diminuição do número de alunos por sala. Tudo muito claro!

Acontecimentos corriqueiros têm mostrado que na mesa de negociações entre dirigentes sindicais e poder público são diluídos não apenas o açúcar empedrado no café amargo, mas também a tensão necessária onde nem sempre os interesses defendidos em gabinetes representam os interesses de quem participa de tudo com os pés no chão e nas salas de aula. E é justamente quem tem os pés no chão e nas salas de aula quem faz a diferença no dia a dia da educação!

Professores e professoras em greve têm nas mãos o poder de ensinar a prefeitura de SP, a cidade mais rica do país, e até aos dirigentes de suas próprias organizações de classe, que costumam decidir tudo no alto, que cidade educativa é cidade com educação pública, gratuita e de qualidade ancorada em um Projeto de Educação gestado no seio popular, transformador, participativo e inclusivo, incompatível com as atuais estruturas que mantém desigualdades sociais histórias, a começar pela desvalorização dos seus educadores e educadoras.
 
Recall

Após acordo da prefeitura com o sindicato que representa a categoria, a greve docente municipal foi encerrada na tarde do dia 24, decidida no alto dos gabinetes e depois repercutida em bom som no carro de som, como de costume. Acredito em quem tem os pés no chão e nas salas de aula, fazendo a diferença no dia a dia da Educação. Salário é bom e quando é justo é melhor ainda. Mas nem só de reajustes vive a Educação. Acabou a greve, fica a lição!

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Virada Cultural: nos vemos nas ruas!


Confira a programação completa aqui!


Começa amanhã (18), mais uma edição da Virada Cultural em SP. Serão 24 horas de apresentações de variadas linguagens artísticas.

É tudo nosso...

Muito ritmo e muita poesia é o que prometem os bondes de saraus que tomarão os palcos dos largos São Bento e Santa Ifigênia, durante a Virada neste final de semana em SP.

Cultura de rua...

Em destaque está a volta do Hip Hop pros palcos da Virada. Pro jeito que foi saído, esta volta é indiscutivelmente significativa. Desde a violência da polícia militar contra o público durante a apresentação do Racionais MCs, em 2007, o Rap foi sendo injustamente banido, criminalizado e dispersado nas últimas edições desta que é a maior mostra artística de SP. A volta do Racionais MCs é o maior destaque da Virada.

Cadê...

Porém, não passou desabercebida a ausência das rappers no destaque e na programação de 2013. Eventos como a Virada costumam ser também espelhos da cultura presente na sociedade. Por acreditar que é obrigação do poder público agir para corrigir desigualdades, criadas ou alimentadas, por ação ou omissão, por ele próprio historicamente, é que compartilho da indignação da rapper Sharylaine em relação a invisibilidade das rappers na Virada. Nomes tem e de sobra pra equilibrar a balança. Faltou vontade pra incluí-las!

Pro que der e vier...


Divas do Hip Hop: Yzalú, Amanda NegraSim, Karol de Sousa, MC Stefanie, Karol Conká e Lurdez da Luz, mês passado no Sesc Itaquera. E tem muito mais.

Enfrentando desigualdades...

Acredito que cultura é também uma forma de enfrentamente das desigualdades. Se quiser ser realmente inclusiva, é bom que a Virada Cultural comece a dar exemplo.

A propósito...




Nos vemos nas ruas!


segunda-feira, 13 de maio de 2013

13 de Maio: que história é essa?




Código Penal da Republica dos Estados Unidos Do Brasil
Decreto numero 847, de 11 de outubro de 1890
 
Capítulo 13 - Dos vádios e capoeiras
 
Artigo 402:
 
Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecido pela denominação capoeiragem, andar em correrias com armas ou instrumentos capazes de produzir lesão corporal, provocando tumulto ou desordem, ameaçando pessoas certas ou incertas ou incutindo temor de algum mal:

 
Pena - de prisão cellular de dois a seis meses.
 
 
Parágrafo único. É considerável circunstância agravante, pertencer o capoeira a algum bando ou malta.

 
Aos chefes, ou cabeças, se imporá pena em dobro
 
Iêêêêêê
 
Dona Isabel que história é essa
Dona Isabel que história é essa
De ter feito abolição
De ser princesa boazinha que libertou a escravidão
Eu tô cansado de conversa
Tô cansado de ilusão
Abolição se fez com sangue que inundava este país
Que o negro transformou em luta
Cansado de ser infeliz
Abolição se fez bem antes e ainda há por se fazer agora
Com a verdade da favela,
E não com a mentira da escola
Dona Isabel chegou a hora
De se acabar com essa maldade
De se ensinar aos nossos filhos
O quanto custa a liberdade
Viva Zumbi nosso rei negro
Que fez-se herói lá em Palmares
Viva a cultura desse povo
A liberdade verdadeira
Que já corria nos Quilombos
E já jogava capoeira
Iêêê viva Zumbi...
Iêê Viva Zumbi camará

Iêêê Rei de Palmares
Iêê Rei de Palmares camará

Iêê Libertador
Iêê Libertador camará

Iêêê Viva Meu Mestre
Iêê Viva Meu Mestre camará

Iêêê quem me ensinou
Iêê quem me ensinou camará

Iêêê a Capoeira
Iêê a Capoeira camará
 
 
A Consicência Negra que rompe com a Abolição da Escravatura
 
 
 
 
O poeta e ativista negro Oliveira Silvera (1941-2009), numa entrevista muito esclarecedora e documental, conta por que o movimento negro, em plena ditadura militar, resolveu buscar uma nova data para reverenciar a luta dos negros e negras contra o regime escravagista, em substituição ao 13 de maio.
 



Isso ocorreu em 1971. Estávamos insatisfeitos com o 13 de maio. Havia um grupo de negros que se reunia na Rua da Praia [no centro de Porto Alegre] e o nosso assunto, invariavelmente, era a questão negra e o fato de o 13 de maio não ter maior significação para nós. Logo, surgiu a idéia de que era preciso encontrar outra data. Eu, como gostava de pesquisar, aprofundei-me nisso. E encontrei material, cuja fonte era Édison Carneiro, autor do livro O Quilombo dos Palmares, indicando que Zumbi dos Palmares havia sido morto em 20 de novembro [de 1695]. Essa informação foi confirmada no livro As guerras dos Palmares , do português Ernesto Ennes, no qual foram transcritos documentos. Já que não sabíamos o dia de seu nascimento ou do início de Palmares, tínhamos pelo menos a data da morte de Zumbi, o último rei do quilombo de Palmares, em Alagoas. Então, promovemos uma reunião, que originou o Grupo Cultural Palmares, cuja idéia era fazer um trabalho para reverenciar Palmares e Zumbi como algo mais representativo que o 13 de maio.

 
Oliveira Silveira conta ainda que o movimento queria exaltar a resistência e a liberdade conquistada na luta e não o oficialismo comemorativo que rendesse homenagens à princisa Isabel. Por isso, o rompimento com o 13 de Maio [de 1888, data da Abolição da Escravatura] e o nascimento do 20 de Novembro [de 1695, data da morte de Zumbi dos Palmares], que marca o Dia da Consciência Negra.
 



Nós vimos logo que o 13 de maio [não] teve conseqüências práticas. Não havia medidas efetivas voltadas à comunidade negra. Foi uma liberdade que apareceu apenas na lei e nada de concreto ocorreu depois. Ao mesmo tempo, era uma data oficial, que o oficialismo governamental queria que fosse comemorada, celebrada, com homenagens à princesa Isabel. Ao passo que Palmares significava uma liberdade conquistada na luta, que durou um século inteiro, e, por isso, era plena de significado. Os homens e mulheres quilombolas fizeram um trabalho de resistência, de afirmação da dignidade humana sem precedentes, de luta pela defesa da liberdade. Então, não havia dúvidas de que aquela era a principal passagem da história do negro no Brasil.

 
A entrevista pode ser lida  aqui.